49 passos para se cruzar um infinito

A portuguesa Luísa Fresta, natural da cidade de Braga, encaixa-se perfeitamente naquele grupo de artesãos da palavra que gosta de esmerilhar a sua matéria-prima até vê-la reluzir em mais profundo e verdadeiro brilho. Dona de itinerários formativos vários, Luísa tem uma alma mista, composta de uma Europa infante e de uma África de desbravamentos. Angolana de coração, estudou engenharia civil na França. O manuseio vital para com a palavra é brotado já de longa data. Escreve contos, crônicas e poemas. Poemas que, em caso de reunião de alguns, deram origem ao seu livro 49 PASSOS – ENTRE OS LIMITES E O INFINITO, publicado em 2014 pela Chiado Editora.

A obra é recheada de projeções de memória, burila uma saudade do passado, infere sobre o amor e sobre a dor, em toques suaves e verazes, sem nada deixar a sujo em termos de construção. Dona de uma poética límpida, Luísa Fresta vai se revelando, a cada passo/poema, a um dom possuidor de encantos voltados para o olhar simples acerca dos acontecimentos da vida. Simples, não simplório. 49 PASSOS é um esforço para o encontro, um curto manifesto sobre a sinceridade, um conciso aparato poético cuja função maior é o sensibilizar. Num mundo onde a razão enegrece nossas frações emocionais a todo instante, tal característica revela-se no mínimo interessante.

Outros passos com Luísa Fresta:

1.Luísa Fresta, 49 passos separam os limites do infinito?

LF. 49 Passos são aqueles que me conduziram até estes textos, a uma orla que se pretende o início de outra estrada, em direcção a esse infinito intangível, mas do qual tenho uma consciência aguda.

2.Em muitos de seus passos poéticos, percebemos a escolha pela forma clássica do soneto. O soneto é mesmo atemporal? Até onde vai sua preocupação com a forma em seus poemas, Luísa Fresta?

LF. Germano, essa preocupação é real, sim! Eu acho que a forma do soneto não está ancorada em nenhuma época, enfim, não se diluiu no tempo… para mim, continua a fazer todo o sentido, lembro constantemente sonetos de Vinicius de Morais, de David Mourão Ferreira, de Verlaine; para mim, o soneto satisfaz uma procura obsessiva (que eu assumo) da musicalidade das palavras, do ritmo – na verdade eu gosto de ter essa estrutura musical para que as palavras façam mais sentido umas junto das outras e adquiram essa harmonia de conjunto. A forma, para mim, é tão relevante como o conteúdo, como bem intuíste; temo que este aparte possa parecer superficial, mas realmente creio que qualquer coisa pode servir de objecto poético, uma laranja, a neblina, uma curva da estrada, uma noite interminável… desde que olhada com ousadia, inovação, originalidade, sob um angulo novo ou renovado.

3.Em algumas passagens, uma África borrada em saudades várias é cantada, louvada. Qual a África que pulsa em 49 passos?

LF: Essa África está sempre presente. A minha (África) é sobretudo Angola, e a cidade que me acolheu na infância: Benguela. Curiosamente tenho muito mais tempo de vida noutras cidades, mas é esta a que eu considero verdadeiramente minha, que carimbou a minha identidade. A cidade ensinou-me o cheiro da chuva na terra, a simplicidade do convívio, todas as mestiçagens, as acácias rubras, as rosas de porcelana, a praia morena, a baía Farta, a baía Azul, a sonoridade suave do Umbundu e o pirão de milho. E um sotaque que permanece comigo ao cabo de décadas. Eu tenho um olhar universal sobre as coisas, mas não posso deixar de perceber de onde venho, para depois me agarrar às coisas e entender o mundo à minha maneira. Muito Benguelense, necessariamente (risos). Nem chega a haver motivo para saudades, sabes? Benguela, Luanda também, mas de uma forma mais ténue, Angola, estão sempre presentes na minha criação, na minha maneira de encarar o lazer, de pensar na família, nos amigos de infância. Eu continuo a senti-la pulsar através da música, da dança, da literatura, do cinema e das memórias e ficções que me chegam regularmente do meu pessoal de lá, ou dos “diasporenses” que como eu, recriam insistentemente Angola dentro de si.

4.Esperança, sonho, medo do erro repetido e desejo de mudança, além do amor imperioso, são alguns dos caminhos por onde o eu-lírico transita em 49 Passos. Quais são os outros segredos desta jornada, Luísa?

LF: Olha, Germano, para além desses caminhos que encontraste nestes textos, posso dizer-te que 49 Passos representou, sobretudo, uma enorme porta que abri, a duras penas, que vou abrindo, para uma outra dimensão da vida e para o poder das palavras. O segredo desta jornada é prescindir de alguns bloqueios, ousar romper com a zona de conforto e com uma espécie de tédio intelectual, deixar que as palavras escolham os seus próprios alvos; há alguma autonomia neste processo criativo, que me exclui, no qual eu me sinto mera leitora da palavra já pronta que se oferece em espectáculo. Não sei se serão segredos, mas talvez zonas de nevoeiro e sombra nas quais adivinho ainda muito por descobrir e inventar.

5. Da admiração por cidades, como a citar Benguela, Nancy e Havana, até cantos destinados a plantas típicas do deserto do Namibe… 49 Passos tem um pé na observação geográfica do mundo. Como o conjunto de sua obra se serve de tais (inusitados) incrementos, Luísa?

LF: Olha, é interessante reparares nisso. Ninguém existe sem um espaço, sem um enquadramento real, sem um chão para pisar e deixar vestígios, sem um mar para olhar ou cantar. Eu encontrei essas influências nesses lugares todos, hoje acrescentaria algumas outras cidades/culturas como Lisboa, como a Praia, em Cabo Verde, pelas mornas, pela literatura, pela língua, pelas pessoas. Há uma cidade que eu nem conheço, no sentido de que nunca lá estive, mas com a qual tenho uma afinidade profunda, desde sempre: Havana. Talvez nem seja bom eu ir lá, para não desmistificar e romper com esse quadro de idealização da cidade, não é? (risos) Mas conheço de outra maneira, não a sua geografia, por não tê-la tateado, mas a sua gastronomia, música, recantos e a sua memória. Já é um começo para se amar uma cidade. O deserto do Namibe tem aquela flor magnífica que é característica do local (a Welwitschia Mirabilis) e que me fez olhar os grandes espaços e o horizonte com outros olhos, o deserto do Namibe, em Angola, o Sahara, e todos os desertos que nos povoam. Eu gosto de perceber que as pessoas são moldadas também pelas suas terras de origem, para além das vivências e da parte genética. Alguém que nasceu numa ilha, num meio rural, entre um engenho de aguardente, em meio a sete irmãos, e esperando eternamente uma chuva que não vem não pode ser igual a outra pessoa que nasceu e cresceu numa terra fértil com árvores frondosas e cheiro a banana seca pelas manhãs. Essas coisas ajudam a forjar uma personalidade, um apego a valores, a criar estruturas duradouras. Por isso eu quero dar alguma relevância a esses pormenores estáticos, a essas coordenadas geográficas, culturais, que tiveram influência na pessoa em que me fui tornando.

6. Luísa, por favor, um poema do livro que você considera bastante relevante. LF. Rotas Paralelas, que segue assim…

“Para ti os abraços

“Para ti os abraços
São estilhaços de costelas
Pintam hematomas nos braços
E perpetuam esquálidas sequelas

Para mim os abraços
São suaves nuvens de calor
Fundem em nós inabaláveis laços
Desmantelam resquícios de rancor

Para ti uma viagem
É um reencontro permissivo
É uma despedida, uma paragem
Um silenciar intempestivo

Para mim uma viagem
É uma fuga cega para a frente
Redescobrir-te algures na bagagem
Saber-te comovido e comovente

Para ti um termo
É uma palavra inconclusiva
Ausente dos teus cem termos
(E se a soubesses seria decisiva…)

Para mim um termo
É um estrito e rotundo Não
Que me surge só de um lugar ermo
Longínquo e numa outra dimensão

Para ti as horas
São só minutos ímpares
Que arrumas onde não moras
São migalhas do tempo que ocupares

Para mim as horas
Convertem-se numa eternidade
Que em segundos devoras
Com laivos de cumplicidade

Para ti o encontro
É um espaço brutal de exaltação
De breves palavras e de reencontro
Laboratório da paixão

Para mim o encontro
É uma conversa visceral
Após um breve desencontro
Um longo desengano virtual

Para ti a palavra
É a não-dita, é a ignorada
É na verdade a falta de palavra
A cada instante mais silenciada

Para mim a palavra
É o verbalizar do que perdura
É uma chuva de ternura
Oferecida gota a gota”

Alguns dados relevantes:

* Em 1998, a autora participou, em Portugal, do concurso de contos curtos “Expo 98 palavras” no qual viu o seu conto CRIME publicado juntamente com cerca de outros 100, entre 2.364 candidatos.

* Em 2013, ficou classificada em 2º lugar no 9º concurso online – II Prêmio Licinho Campos de Poesias de Amor (Brasil) com o poema SONETO DO AMOR NO FEMININO. Também nesse ano obteve o 2º prêmio no 1º Concurso Internacional de Literatura de Alacib, na categoria “Crônica” (Brasil) com o texto intitulado OUTROS CAMPEONATOS.

* Em 2014, o seu poema TALVEZ foi considerado um dos melhores 50 apresentados a concurso e incluído numa coletânea publicada pela Academia Jacarehyense de Letras promotora do 8º Festival Internacional de Sonetos.

* Em 2015, o seu poema PEQUENO BILHETE foi selecionado para integrar uma antologia a ser publicada no dia da poesia pela Chiado Editora. Nesse mesmo ano a sua crônica LUANDA, aliás “São Paulo da Assunção de Loanda” foi escolhida para inclusão numa coletânea a ser editada pela Casa do Poeta Brasileiro de Praia Grande-SP.

* Publicou em 2012 e 2013 uma série de crônicas enquadradas num ciclo dedicado às décadas de 70/80 da vida em Luanda, através do Jornal Cultura – Jornal Angolano de Artes e Letras (http://jornalcultura.sapo.ao/) com o qual colabora regularmente e publicou também pontualmente em diversas publicações (revista moçambicana Literatas, revistas brasileiras Samizdat e Subversa, e site de crítica de cinema, Africiné (www.africine.org), do Senegal). Desde Outubro de 2013 escreve quinzenalmente no portal brasileiro O Gazzeta, (www.ogazzeta.blogspot.com.br) e desde Novembro de 2014 assina duas colunas na METROPOLIS, revista portuguesa especializada em cinema).

Germano Xavier

Germano Xavier

Mestre em Letras, jornalista profissional (DRT BA 3647), escritor e coordenador geral do Jornal de Literatura e Arte O EQUADOR DAS COISAS.

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