A escola para a transformação humana

O olhar angular e crítico para a história da humanidade nos mostra, com muita evidência, que nenhuma sociedade se constitui bem sucedida, se não favorecer, em todas as áreas da relação humana, o respeito à diversidade que a constitui. Nenhum país alcança pleno desenvolvimento, se não garantir, a todos os cidadãos, em todas as etapas de sua existência, as condições para uma vida digna, de qualidade física, psicológica, econômica e social.

O movimento educacional tem, nesse cenário espaço-temporal, papel fundamental, sendo a escola a unidade primaz, sem diminuir a importância de outras esferas, como a família, que deve proporcionar e facilitar, a todos os cidadãos, o acesso ao conhecimento e o desenvolvimento de competências, ou seja, a possibilidade de apreensão do conhecimento historicamente produzido pela humanidade e de sua utilização no exercício efetivo da cidadania. Até porque, como diz ZILBERMAN (1988, p.121), “a educação pode oferecer os caminhos para que o mundo se abra à leitura de um sujeito; portanto, deve apresentar-se de modo instigador, e não dogmático.”

É justamente no dia-a-dia escolar que crianças e jovens, enquanto atores sociais, presenciam o acesso aos diferentes conteúdos curriculares, os quais devem ser organizados de forma objetiva e aprofundados, a fim de efetivar a aprendizagem. Para que este objetivo seja alcançado, a escola precisa ser organizada de forma a garantir que cada ação pedagógica resulte em uma contribuição para o processo de aprendizagem de cada aluno.

A escola é a “maquinaria” que garante a qualidade de ensino a cada um de seus alunos, reconhecendo e respeitando a diversidade e respondendo a cada um de acordo com suas potencialidades e necessidades.

Desse modo, uma escola só poderá ser considerada totalizante quando estiver organizada para favorecer a cada aluno, independentemente de etnia, sexo, idade, deficiência, condição social ou qualquer outra situação. Um ensino positivo é aquele que garante o intercâmbio ao conjunto sistematizado de conhecimentos como recursos a serem mobilizados.

Na escola, o aluno é sujeito de direito e foco central de toda ação educativa, que por sua vez está baseada em possibilitar a caminhada no processo de aprendizagem e de construção das competências fundamentais para o exercício pleno da cidadania é, por outro lado, objetivo primeiro de toda ação educacional. A verdadeira escola é aquela que conhece cada aluno, respeita suas potencialidades e déficits, e a elas responde, com preocupações pedagógicas.

Uma escola, para que se torne instrumento transformador, há que se contar com a participação cooperativa consciente e responsável de todos os atores que produzem o cenário educacional: gestores, professores, familiares e participantes da comunidade na qual cada aluno vive.

No que concerne ao professor, sua liberdade de ação acabou se restringindo, durante um longo período de tempo, às atividades internas das salas de aula. Tal fato, na realidade, limitou imperiosamente e até mesmo impediu a produção de ações coletivas respeitosas ao cuidado individualizado que a educação de cada aluno demanda. A construção da escola, de maneira geral, exige mudanças nesse paradigma e nas suas conseqüentes ações.

Perrenoud (2000) revela alguns pontos que dificultam a construção de um eixo coletivo, no contexto educacional: a linha limítrofe histórica da autonomia político- administrativa do profissional da Educação e o individualismo dela conseqüente, a falta de operacionalidade das competências de comunicação, de negociação, de cooperação, de resolução de conflitos, de planejamento bastante flexível e de integração, simbólica, a diversidade das personalidades que constituem o grupo de educadores, e até mesmo a presença recorrente da prática de um dado autoritarismo da direção, ou coordenação do ensino. Dificuldades estas que só poderão ser eliminadas por meio da certeza de que a escola precisa variar, transformar-se, no contexto da educação, levando em conta o potencial e o desejo de cada aluno.

O espaço escolar é reflexo da política, mas é vivenciando a democracia no ambiente escolar que a construção do conhecimento realmente acontece, isto porque na democracia escolar devemos estar dispostos a ouvir nossos alunos, para que, de fato, haja em sala de aula uma troca de conhecimento e não uma imposição do saber.

Assim o docente deve

Saber que ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção. Quando eu entro em uma sala de aula eu devo estar sendo um aberto a indagações, à curiosidade, às perguntas dos alunos, a suas inibições; um ser crítico e inquiridor, inquieto em face da tarefa que tenho – a de ensinar e não a de transferir conhecimento. (Freire, 1996, p.47).

Um bom professor possui um amplo conhecimento técnico, tem suas experiências de vida, tem sua visão crítica da sociedade da qual faz parte; da mesma forma que o aluno tem suas próprias experiências, diferentes das do seu professor, pode até ter certa semelhança com a vida do seu mestre, mas não é idêntica, e é exatamente nessa diversidade de experiências que há a riqueza da sala de aula, é na troca de tais experiências, na troca de saberes que se efetua de fato a construção do conhecimento.

Portanto, a fomentação de uma escola que abranja uma totalidade de funções positivas implica em reformulações no contexto educacional: reavaliação de idéias, de ações, e da prática das relações sociais. E o papel do professor-educador é antes de qualquer coisa, fundamental para a construção de um ensino democrático e verdadeiro.

Referências

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários à prática educativa. 35. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2007.
PERRENOUD, P. Novas competências para ensinar. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.
ZILBERMAN, Regina. A Leitura e o Ensino da Literatura. 1. ed. São Paulo: Contexto, 1988.

Germano Xavier

Germano Xavier

Mestre em Letras, jornalista profissional (DRT BA 3647), escritor e coordenador geral do Jornal de Literatura e Arte O EQUADOR DAS COISAS.

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