A Fralda Atômica

A Mirian e o Félix tiveram nenê em fevereiro, há quase dois meses, e só hoje, véspera da Páscoa, fomos visitá-los. Não pense o leitor que esse atraso é por algum tipo de desinteresse nosso pela nova prole dos amigos, longe disso. É que o médico segurou um pouco as visitas, já que o parto foi prematuro, e, você sabe, crianças prematuras têm de ficar um tempo sem contato com esses humanos infectados que andam por aí. E isso inclui qualquer um de nós.

Já tínhamos visto fotos, mas ainda assim estávamos curiosos e ansiosos para apertar pessoalmente bochechinhas e pezinhos. A Michele e a Vanessa não se aguentavam. A visita estava marcada para hoje, e, por ser sabadão de feriado prolongado, acabei por me exceder e enxuguei sozinho depois do almoço uma garrafa das grandes de cerveja. Não sei se por conta do calorão que fazia à tarde ou se por causa do excesso etílico, assim que adentrei a sala dos amigos tive uma estranha impressão, que exteriorizei num grito:

— Meu Deus, estou vendo três crianças no sofá!

Todos riram. Pois é. A graça desta crônica é justamente essa. A Mirian deu à luz 3 filhos! Às vésperas dos 45 anos eu nunca tinha visto trigêmeos, só na TV. Diga-me: você já viu trigêmeos ao vivo?

Nós amigos estávamos todos acompanhando a gravidez da Mirian com atenção, e como passamos o Ano-Novo juntos, pudemos presenciar e tatear sua colossal barriga, dura como uma rocha, que se não tivesse três crianças dentro poderia com folga transportar um adulto de porte pequeno.

Para a inveja de todos, hoje apalpei aquelas 6 bochechas macias. Larissa, Giovanna e Henrique, muito lindos e bonzinhos. Peguei-os no colo, um a um, eu que sou mais corajoso que a Vanessa para pegar nenês. Depois fiquei proseando com o Félix na cozinha enquanto ele passava o café. Para mim que estava achando que os números surpreendentes se limitavam aos 60 dedinhos, quase engasguei com o café ao saber que cada uma das latas de leite especial, que custam incríveis 50 reais, esvaziam-se em menos de 48 horas. Isso para não falar de fraldas, pomadas de assaduras, paninhos que vão sujando a cada minuto…

Na sala, ao lado do painel da televisão, uma cartolina com um mosaico colorido mostra o conhecido Processo Administrativo:

PLANEJAR – ORGANIZAR – DIRIGIR – CONTROLAR

Na cozinha um outro cartaz traz o aviso:

“ESTAMOS A 32 DIAS SEM DESPERDÍCIOS”

A operação desenvolvida pelo Félix e pela Mirian, depois de uma montanha de livros técnicos de administração lidos durante a gravidez, é digna de virar case de sucesso na Universidade. Nada é feito sem uma rigorosa metodologia. Presenciei a cena que segue de queixo caído, recostado no batente da porta. Diante de um dos nenês, que tem a bundinha erguida com a mão direita enquanto a fralda suja é deslizada com a esquerda, a lixeira vai sendo aberta com a ponta do pé para receber o descarte, que é fechado em 5 segundos pela Mirian com as pontas do indicador e do polegar, num processo que faz a fralda suja virar uma trouxinha que me lembrou um bem-casado tamanho família, e que logo voou vitimada por um certeiro peteleco para dentro do lixo. Enquanto isso acontecia, o Félix, com uma mão, depositava a fralda limpa sob o nenê, enquanto com a outra sacava da embalagem duas, apenas duas unidades de lenço umedecido, que depositava na mão direita já estendida da Mirian; segundos depois, tudo limpinho, o Félix fazia o talco chover sobre o bumbum na medida exata de 2g por centímetro quadrado, de uma altura calculada de 1/5 de metro, deixando tudo pronto para o fechamento final da nova fralda, numa dobradura origami feita pelas hábeis mãos da Mirian. Tudo realizado em 29,3 segundos. Então o nenê 1 é imediatamente retirado e o nenê 2 é colocado sobre a base, enquanto o nenê 3 se alinha, e tudo recomeça, como numa linha de montagem da Toyota.

Depois eles me explicaram: a lei é dividir as tarefas economizando energia. Movimentos e tempo são testados e pré-cronometrados, no mais puro Sistema Taylor Made. Os processos instaurados pelos meus amigos são de dar inveja ao Max Weber e ao Henry Ford.

Saímos de lá encantados, não só com a eficácia sistêmica dos processos como com a beleza da Larissa, da Giovanna e do Henrique, que, alheios a tudo isso, logo estarão correndo loucamente pela casa, no auge dos 3 anos, jogando tudo pelo chão.

Aí sim eu quero só ver que livros os meus amigos lerão pra conseguir controlar essas ferinhas! Quem sabe o Sun Tzu?

Cesar Cruz

Cesar Cruz

É paulista da Capital. Nascido em 1970, escreve contos, crônicas e artigos, além de fazer consultoria e revisão textual sob encomenda. Tem 4 livros publicados: O Homem Suprimido, Scortecci – 2010; A Idade do Vexame & Outras Histórias – 2011, A Invasão dos Horácios – 2013 e Território Conquistado – 2015, todos os três últimos pela Pontes Editores. Blog: Os Causos do Cruz.

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