A manhã de J. H.

Quando acordou e se olhou ao espelho, viu um reflexo estranho, uma imagem distorcida de si e ofuscada frente ao brilho das lembranças daquele passado. ─ “Fosse talvez essa embaçação que dá nos olhos quando acabamos de acordar” ─. Mas a janela de seu quarto abraçava o sol o permanente, permitindo que aquilo que os olhos não veem estivesse estampado com nitidez translúcida. Estava acabando de acordar como no domingo passado, e no do mês anterior, e dos anos atrás, e de uma vida inteira. Um ser de meia idade ou meias vontades que acorda aos domingos bocejando um desejo por uma xícara de café e um momento de silêncio para que possa contemplar o que nos faz mais humanos e menos coisas. ─ “Os tempos mudaram, temos tão pouco tempo para nós mesmos que de tanto lembrarmos das horas, das obrigações ou do cotidiano sem graça, esquecemos que antes de tudo o céu é azul, o sol brilha e a natureza é repleta de presentes.” ─. Fosse como um túnel percorrido em nome da solidão, escuro e densamente frio porque não há referências, assim era om reflexo das meias idades e meias vontades de um espelho que dialogava com um futuro vazio. O medo do escuro começa nas criancinhas, por isso deixamos as luzes acesas dos quartos para mostrar que sempre estamos ali do lado. Mas os domingos são assim, dias excluídos dos compromissos da semana, dos apontamentos da vida com a vida para apontar a vida que vivemos. E assim os pensamentos fervilham porque os domingos são os dias dos gênios, dos loucos, dos poetas, dos dipsomanos, dos usuários ocasionais, das ressacas, dos imbróglios amorosos, dos dias que são dias para quem é incompreendido. Tristeza. Acaba-se no hoje que amanhã volta-se a ser segunda, e o que era distorcido nem reflexo possui mais.  ─ “Merda, esqueci de fazer compras.” ─. E assim ele descobre que estava sem café, pão e etc etc. Então apinhoou-se daquela brisa matutina e respirou uma caminhada quase que budista, em que os ladrilhos pisados tinham cada um uma direção própria indicando os nossos anseios. ─ “Dois e cinquenta só?” ─. Parou em uma banca, comprou o fresco jornal, papel ainda quente. Tirou as notas daquela carteira com as iniciais prensadas J.H. e tomou um ônibus rumo à região central. O estômago revirava numa fadiga de caminhar jejuado. Crise na Europa. Alta do dólar. Indicadores econômicos. O país talvez possa crescer, quem sabe. Era domingo. Ainda assim, as notícias sempre as mesmas e as preocupações sempre as mesmas. Pensou em Tutancâmon, nos egípcios, mas aí viu que seria melhor ir até os Fenícios. Intrigava sobre quando se tornou importante ter seu rosto cunhado em um metal. ─ “Ah! Fosse talvez os Romanos, eles inventaram quase tudo daqui.” ─. E percebeu que a história é um complexo de repetições de comportamentos que muito embora falados, não significassem completamente nada. Foi então que abriu a janela daquele circular e picotou a papeleta fresca e observou calmamente aqueles picotes se esvoaçando com o vento da manhã. Um momento de tranquilidade passava naquele ato, em que rasgar o jornal era o desejo de estilhaçar as desvirtudes e as incongruências pessoais e admirar apenas o fato de estarmos livres para sermos quem quer que queiramos ser. Então percebeu que a vida tornava-se cada vez mais volátil, insipiente, e tão rápida quanto a passagem daquele ônibus que tumultuava a paisagem do entorno deixando aquilo tudo oco de sentido e como vultos iguais. Fosse melhor descer. Preferiu encarar a enjoeira que crescia e nauseava seu corpo. Parado ele via que contemplar a vida passar com suas singularidades era muito melhor que correr para um ponto fixo. Assim aquele domingo estava cada vez mais próximo de tornar o homem frente ao que ele é. Ele estava turbulado de crenças prontas e que seu maior medo de nunca mais enxergar uma decência própria era de que todos seus dias se tornassem segundas-feiras idênticas com o cotidiano de hora marcada e prazer adiado. Quando Fernando Pessoa escreveu sobre uma Tabacaria, bem acho que queria nos dizer que enquanto vivos somos feitos de sonhos, mas que esse mundo não nos permite sê-los, apenas desejá-los. ─ “Um expresso e um pão de queijo, por favor.” ─. Naquela minúscula confeitaria encravada no meio das business pedras ele então entrou e firmou-se em querer seu café. ─ “Lamento, estamos sem café já fazem dias. Parece que houve um problema com as lavouras, algumas greves, e todas essas altas que nos afetam.” ─. Ele nem sabe se a garçonete falou tudo isso, porque depois de “não ter café” quem sabe imaginou aqueles diálogos prontos de economistas e cientistas políticos que acham todas as culpas e nenhuma causa. Só ouviu “Temos chá”. Mas era a mesma coisa que pedir amor e só dizer que se pode trocar com amizade. Essas coisas do coração são insubstituíveis. De que adianta ter raiva, ódio ou rancor, ali era o mundo em que vivia e seus olhos cada vez mais deveriam se acostumar a assistir os dias assim com maior naturalidade. Algumas pessoas não se contentam em permanecer assim. Fosse talvez ali que surgissem as melhores inspirações. Mas o dia mal havia começado, a náusea já estava deixando-o cambaleante e se a única opção era aceitar chá e até mesmo torradas (há certos problemas com os laticínios também), de uma forma ou de outra precisamos saciar aquilo que nos consome. Porque hoje é domingo e o amanhã não tem paz.

Marco Aurelio Souza Mendes

Marco Aurelio Souza Mendes

Nascido na cidade de São Paulo, em 1994, atualmente cursa o bacharelado em Direito na Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Atua no meio literário com o pseudônimo de Aurélio Mendes. Possui uma coletânea de contos publicada pela Editora Multifoco chamada Pensamentos Singulares (2013) e uma novela política pela Editora Subsolo, Abapanema: o lugar das coisas ruins (2015). Em processo de editoração de sua terceira obra, "A manhã de J.H. e outros contos" pela Editora Subsolo, fruto da aprovação pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura (2015).

Sem comentários; deixe o seu:

Seu comentário é importante!

Your email address will not be published.

Você pode usaratributos e tags HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>