A Michele e a Correnteza da Vida

Dentre as tantas historinhas da vida da minha pequena Michele, a maioria se perde nos labirintos do dia a dia, nos meandros das minhas atribuições cotidianas, nas curvas desse rio chamado vida, que a tudo arrasta e em cujas curvas muitas vezes se enroscam as coisas verdadeiramente importantes da nossa passagem por este planeta azul.

Hoje uma coisa muito importante aconteceu, e seria só mais uma a ser carregada rio abaixo se eu não me decidisse a registrá-la aqui, agora, por escrito, para que sobreviva a mim e talvez à minha própria filha.

Hoje, 11 de junho de 2014, por volta das 6h30, quando a Vanessa terminava de aprontar a Michele para que eu a levasse à escolinha, houve um atrito entre as duas. “Coloca o casaco, filha, tá frio”. Ela não quis colocar. “Como não? Vai ter que pôr, sim senhora!”. Não queria de jeito nenhum, puxou o bracinho. A Vanessa insistiu. A contenda esquentou até que a Michele, numa feiura incomum, se irritou e jogou o casaco no chão. Desavença armada. A Vanessa emburrou, magoada com aquilo, e a Michele saiu comigo sem dar tchau pra mãe, um bicão enorme.

No carro, indo pra escola, eu a olhei pelo retrovisor e disse: “Olha, filha, o que você fez foi muito, muito feio. A mamãe tinha razão de querer que você pusesse o casaco, e você além de fazer malcriação, foi embora brigada, e você sabe muito bem que isso a gente não pode fazer”.

Ela não disse nada. Deixei-a na escola e fui para o escritório.

A Michele sabe muito bem por que “isso a gente não pode fazer”. É que temos um acordo lá em casa, e o combinado é que nunca ninguém sai ou vai dormir brigado com o outro, porque a gente nunca sabe se vai acordar, ou se ao sair pela porta vai voltar pra casa e ter uma segunda chance. E isso é uma coisa forte pra ela.

Por volta das 9h30, a Vanessa me ligou.

“Cesar, você não imagina! A Michele chamou a Maria Helena, a coordenadora da escola, e disse pra ela me ligar e me dizer que ela estava muito arrependida de ter feito má-criação e saído brigada de casa. A Maria Helena me disse que é a primeira vez na carreira dela que vê uma menina de 6 anos ter uma atitude dessas, e me deu os parabéns pela filha sensível que temos. Acredita?”

Pronto, está registrada essa bela historinha da Michele. Pelo menos essa a correnteza não vai levar.

Cesar Cruz

Cesar Cruz

É paulista da Capital. Nascido em 1970, escreve contos, crônicas e artigos, além de fazer consultoria e revisão textual sob encomenda. Tem 4 livros publicados: O Homem Suprimido, Scortecci – 2010; A Idade do Vexame & Outras Histórias – 2011, A Invasão dos Horácios – 2013 e Território Conquistado – 2015, todos os três últimos pela Pontes Editores. Blog: Os Causos do Cruz.

1 Comentário
  1. Espetacular! Em casa também fazemos quase isso, o negão (apelido do meu filho Lucas), vira e mexe nos beijamos, qualquer hora tô levando risco de levar uns supapos por alguém poder pensar outra coisa, pois o beijo em público a todo momento, detalhe, já está com quase 1.80m e dezoito anos, mas é mais ou menos isso, com a Soraia também, discutimos e 2, 3 minutos depois já era, a vida tem de ser assim, o respeito, carinho e amor superando a tudo de forma imediata, é um bom e sério exercício da vida, temos de vencê-lo a qualquer custo.

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