A pele dela

a rua em sol. eu, sentado, distraído, olhando para a tela do meu aparelho celular. cidade pequena, ciberespaço imenso. intervalo de trabalho, relógio consultado a cada décimo de hora. ansiedade, desejo de voltar para casa. na banqueta da farmácia o tempo, apenas um detalhe. o balconista atendia os que queriam remédios para doenças sérias e inventadas. a menina ao fundo fechava as contas de energia e água dos moradores da pacata localidade. tapete sujo na entrada. o motorista do carro da prefeitura ainda não-chegado. o senhor que acabou de se aposentar lia os jornais do dia anterior. com gosto. as páginas de futebol, claro. o perninha dos jogos lícito-ilícitos passando de um lado para outro na calçada. a rua em sol, a majestosa igreja nas alturas da rua, o fuxiqueiro em plantão de olhos e orelhas. as mesmas personagens de todos-os-dias. dia sem vento. chuva-sem no céu. sem saber paixão no coração. desejo de parar com tudo. desejo de estagnar. mas será possível? picolé caro demais. sem almoçar passo a tarde e o começo da noite. volto de motocicleta para casa. perigo grande por três dias da semana. mas gosto do perigo. ladeiras na BR e o motor de baixa cilindrada. já viu no que dá? a estadual com cada buraco. imagine você. suspensão sofre. a coluna também. medo de piorar com os anos. medo de nada, na verdade. medo de ficar sempre na mesma. à deriva. medo de não amar o que há para ser. cabeça baixa. rua observada. nada acontecendo. trabalho cansando a cabeça. onze anos nessa labuta. dureza mesmo. notícias que desanimam. um ou outro homem ou uma ou outra mulher adentram o interior do estabelecimento. eu fico ali, recostado, mochila sobre a perna esquerda em apoio dos braços. aí uma senhora aparece arfando. respiração forçada. coitada, penso. sacola plástica na mão direita. blusa sem mangas de algodão, colorida. calça de linho cor escura. sapatinhos gastos. sem adereços mais. só umas rugas lindas. pele toda enrugada, linda mesmo. boniteza indiscutível para mim. descia da testa, lambia os olhos e como um córrego descia em correnteza vívida por sobre os ombros rotundos até as costas das axilas. fiquei contemplando tudo em silêncio. meus olhos próximos ao corpo dela. a pele dela diante de mim no espaço de seu cansaço. parada, parei. ficamos ali. ela me dizendo de seus motivos de esgotamento físico em poucas frases miúdas de prontidão típicas de quem chega. a pele dela, senhora antiga de para lá dos 60 anos. um encanto. pele de histórias. pele de sobrevida. pele de trama. pele de se empolgar, a pele dela.

Germano Xavier

Germano Xavier

Mestre em Letras, jornalista profissional (DRT BA 3647), escritor e coordenador geral do Jornal de Literatura e Arte O EQUADOR DAS COISAS.

Sem comentários; deixe o seu:

Seu comentário é importante!

Your email address will not be published.

Você pode usaratributos e tags HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>