A pergunta

Era a primeira vez que lhe faziam aquela pergunta. A crueldade atingira-o como uma bala perfurando seu peito, indo o mais fundo possível, cavando um buraco desproporcional ao seu corpo. Aquela pergunta arrancara-o de si mesmo levando-o para a floresta negra dos contos de fadas sombrios. A sua incapacidade de se mostrar forte, de reagir perante o crime que fazia contra ele próprio. Não poderia admitir, teria que fingir. Lançara-o para ele, seu amigo Fábio, aquela pergunta, com a destreza de um jogador que lança os dados. Ele olhou para o telefone celular em sua mão, e por um instante pensou em desligar e não responder. Vontade que tinha era de aconchegar-se no mais profundo escuro da sua alma e sangrar até que o sangue lhe estancasse ou que estivesse exaurido. Prestou bem atenção a tela do objeto, a linha vermelha que o exigia o desligamento, os segundos sendo contados compulsivamente por aquela enumeração humana errônea. Ah, para quê havia aquela necessidade cortante no homem em querer enumerar o tempo? Marcar o inatingível com uma invenção sua tão supérflua, fruto da vontade que movia o seu egoísmo enquanto busca por algo quê não compreende e que afoga com otimização do tempo? Moveu vagarosamente os lábios como se procurasse uma resposta ou bebesse do etéreo das coisas em busca de uma explicação que lhe arrancasse daquela angustia quê de súbito o tomara.

Do outro lado da linha Fabio aguardava ansiosamente a resposta de Marcelo, e esperava no mais fundo do seu desejo que recebesse um sim. Era aquilo que sempre quis. Algo o tomava quando ouvia a voz daquele ser pelo telefone, quando apenas observava as mensagens que eles trocavam via Whatsapp. Mas as coisas haviam se tornado tão sérias entre eles. Ao menos da parte de Fábio que entregava-se aquele sentimento como nunca antes havia se entregado a ninguém, nem aos homens ou mulheres com quem havia deitado, nem no relacionamento conturbado que tivera com os pais.

Marcelo entristecido levantou-se da cadeira onde estava sentado e pensou em responder, mas algo nele induzia-o ao silêncio. Seu corpo parecia paralisado pelo veneno dos caóticos, pelo não querer quase quê fatal de não existir, deixar de ser. Imagem corpórea. As palavras que tentava balbuciar eram impossíveis de serem ouvidas. A sua ferida gritava mais alto que qualquer coisa que almejasse fazer, dizer. Aquele era para ele o segredo do verbo que ninguém ante o mistério da existência conseguiria resolver. O mistério do verbo se resumia ao estado em que se encontrava, um estado absurdo de transcendência, onde o tempo parecia ter parado, era mais que verbo pois ação alguma poderia arrebatá-lo de onde estava. Estava seguro de quê havia perdido uma batalha de eras contra si mesmo. Estava completamente ciente da sua fatalidade. Fatalidade imposta pela vida. A vida é uma brincadeira de mal gosto de alguém (ser ou algo) que gosta muito de rir, pois estamos diariamente interpretando uma comédia com ares de tragédia, e no fim, ah o fim!… sempre há o consolo primordial daquela que nos acalanta em seus braços frios e com seu beijo ressequido.

Fábio aguardava a resposta com a mesma ansiedade que uma criança aguarda a chegada do papai Noel em sua casa para entregar-lhe o presente de natal. Mas aquilo, tanto para as crianças, quanto para os adultos, alegando o conceito de vida e existência, tudo aquilo não passava de uma farsa. Ilusão criada pelo próprio homem para esquecer da sua miséria, da sua condição superficial, da armadilha que tinha a todo o momento que escapar. Por quê no seu intimo todo o homem tem a sabença de quê nada mais é que uma caça, pronta a qualquer momento para ser capturada e sacrificada. Pois a vida é esse jogo de engodos ao qual todos tem que se entregar, e se deixa-se seduzir é pego de surpresa pela punição que sempre há no fim do saboroso prazer com o qual se deleita. A vida é uma ferida exposta que sangra eternamente, brecha aberta na eternidade para que criaturas medíocres possam exercer o seu miserável peso de viver, e morrer. A morte é mais que uma salvação, viver é a única fatalidade. O homem com seus lábios intumescidos aguardava que o outro o respondesse, que o outro lhe dissesse aquilo que ele queria ouvir, o seu sentimento pelo outro apesar de lindo era movido pelo egoísmo. Os dois, mesmo Fabio amando, e Marcelo que não sabia do seu amor, eram movidos apenas pelo próprio bem estar, um almeja a presença do outro por que aquilo lhes trazia algum bem. Bem esse que para Fabio só poderia ser explicado através da palavra criada pelos homens chamada de amor, para Marcelo aquilo não passava de uma bela amizade.

Haviam dormido juntos no verão de 2012. Conheceram-se na faculdade num desses encontros, congressos, sei lá como se chamam. Amaram-se por uma noite e nunca mais se viram. O tempo passou, inerte, petrificado, e os vai e vens das ondas da vida o fizeram reencontrarem-se, mas havia o porém, firmaram apenas uma belíssima amizade. Neste ínterim em que ficaram separados e nunca mais haviam se visto, Marcelo desenvolvera um violento e intenso amor por outro homem, Pedro. Pedro era um rapaz complicado e não muito dado as artes do Banquete, a vida para ele era apenas uma grande orgia, e seu lema era viver cada dia como se fosse o ultimo. Não que estivesse errado em pensar desta forma, mas Marcelo desenvolvera por ele algo que estava muito além do conceito de vida ou de qualquer outro conceito ligado a divindades ou ao homem, e por mais que aquele fosse um sentimento atrelado ao homem, não lhe cabia buscar justificar nada que viesse daquilo.

“Você é o meu remédio”. Lembrou-se Marcelo daquela noite em que afirmara para Pedro todo o seu amor. Erro, o grande erro fora cometido. O homem em seu cerne tem medo daquilo que não compreende. A isso que chamam de amor não tem nome, tentam explicar, justificam, mas a sua verdadeira causa ou conseqüência nunca será sabida. O quê justifica o amor é o próprio ato de amar. Ser amado é conseqüência do quê a vida com sua vontade própria está disposta a ceder ao homem. A vida não é o período curto de existência a quê o homem é submetido, mesmo sem vontade, mas sim o grande mistério que cerca o universo, as estrelas, a lua, os movimentos da terra e dos outros planetas. A vida é algo que não pode ser pontilhado, assim como o tempo, e neste ponto a vida se confunde com o tempo e são um só, pois são feitos da mesma substância. “Eu não sinto o mesmo por você”. Respondeu Pedro como se exigisse de Marcelo aquilo que ele ainda não podia compreender. Como ele poderia recusar o seu amor? Coisa tão bela cantada por poetas durante eras? Como ele podia fazer aquilo? Como?

Recostara suas costas no espaldar da cadeira esperando a resposta que nunca vinha até ele. Seu corpo estremecia a todo o momento na expectativa do quê poderia vir de lá para cá. Ele fechou e abriu os olhos rapidamente e fez novamente a pergunta após um longo suspiro.

Marcelo arregalou bem os olhos e perguntou-se por que a vida era tão cruel. E aquele medo de ferir-se perpassou a espinha e ele chorou. Você não tem o direito de me perguntar isso, disse para si mesmo na intenção de ter dito a Fábio.

Fábio revoltara-se, como Marcelo poderia negar a ele uma simples pergunta. Arrependeu-se por um momento de ter pegado aquele celular, discado aquele número e precipitadamente ter perguntado “O quê você fará hoje à noite?” E aquela pergunta fora para Marcelo uma bomba que abrira abaixo dos seus pés um grande buraco e trouxera até si lembranças que ele queria que permanecessem esquecidas. Os dois, um com o coração pulsando violentamente outro se amargurando aos poucos, compreenderam-se. Fabio, antes que Marcelo tomasse a atitude o fez, repensou todo o seu sentimento que estava guardado no peito e desligou a ligação. Marcelo entendeu o que ele havia feito e compreendeu que por amor o outro havia dado o tempo que ele precisava, talvez tivesse sido a coisa certa a fazer, ou talvez… Mas agora já estava feito, ele só não sabia se aquela dor duraria uma vida toda ou apenas mais alguns dias.

Marcelo com a certeza de quê havia descoberto nada mais quê a necessidade de descobri-se, levantou-se de onde estava e foi até a cozinha e pegou uma garrafa de vinho que estava na geladeira. “Hoje, farei aquilo que a mim me cabe. Serei eu no mais doce segredo da minha dor e sangrarei até que eu fique tonto e perca a noção de vida e existência. Beberei”. Encheu uma taça com vinho e repentinamente, num átimo virou todo o liquido goela abaixo e pôs-se a chorar.

Marcos Welinton Freitas

Marcos Welinton Freitas

Baiano do Bravo/Serra Preta. Graduando em Economia pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Escritor: poeta e contista.

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