A primeira médica brasileira

Nomes como Machado de Assis (1839 – 1908), Castro Alves (1847 – 1871), Lima Barreto (1881 – 1922) e Chiquinha Gonzaga (1847 – 1935), nas letras e nas artes; Tobias Barreto (1839 – 1889), Rui Barbosa (1849 – 1923), Luís Pereira Barreto (1840 – 1923), Alberto Santos Dumont (1873 – 1932) e Carlos Chagas (1878 – 1934), na filosofia, política e ciências, e muitos outros, representam bem o espírito progressista que chegou ao Brasil no final do Século XIX e início do Século XX. Essa vanguarda cultural e progressista, no entanto, ainda encontrava forte resistência por uma considerável parcela da sociedade brasileira de então. Pode-se afirmar, com baixo risco de erro, que a maioria deles não teve a sua obra compreendida em vida e, tampouco, após a morte. Para muitos desses visionários, quando o seu pensamento, sua obra e sua arte passaram a ser objetivo de estudo, o seu momento histórico já havia sido superado, restando apenas um olhar piedoso para o passado, por parte daqueles que nem sequer compreendem o seu próprio momento.

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Um relato de Tobias Barreto ilustra bem as afirmações acima. Trata-se de um episódio descrito no texto “Educação da Mulher” (1879), no qual Barreto propõe um projeto de lei, na Assembléia de Pernambuco, favorável à instrução feminina. Na sua argumentação, Barreto defende uma mulher, não identificada, que pleiteava o reconhecimento de sua condição prática de médica. Sabe-se apenas que a jovem exercia com competência funções médicas de alta complexidade e era filha de Romualdo Alves de Oliveira, conforme registrado no próprio texto. Na verdade, a defesa de Tobias Barreto é dirigida a todo o gênero feminino, ao qual ele próprio, seguindo uma tradição iluminista, designava por “o belo sexo”. O texto publicado por Barreto é a transcrição da Sessão da Assembléia de Pernambuco, no dia 22 de março de 1879. Em determinado momento, ao tomar a palavra, Tobias Barreto (1977, p. 328) se dirige à Assembléia e, após uma apresentação retórica, apresenta a causa:

Eu ouso pois confiar na boa causa que trato de defender, e do culto rendido às excelências do belo sexo, ouso confiar, repito, que poderei também contribuir com algumas verdades, seriamente meditadas e francamente expressas, para arredar desta assembléia a imensa responsabilidade de um pecado imperdoável contra o santo espírito do progresso, de um crime de lesa-civilização, de lesa-ciência, qual seria sem dúvida o de ficar aqui decidido, barbaramente decidido e assentado, que a mulher não tem capacidade para os misteres científicos, para os misteres que demandam uma alta cultura intelectual.

Entre os argumentos, Tobias Barreto cita o fato de que a Europa já havia conferido vários títulos de medicina a mulheres. “Foi em dezembro de 1867, que na Europa se deu, em ato solene, o grau de doutora em medicina por uma universidade célebre, a universidade de Zurique” (BARRETO, T., 1977, p. 332). A mulher em questão é a russa Nadeschda Suslowa, citada por Barreto (ou Nadezhda Suslova, segundo outras fontes). O jurista segue a sua defesa, citando um grande número de mulheres médicas na Europa, desde então. Além disso, Barreto recorre também ao passado, citando o nome de muitas mulheres que se dedicaram à filosofia e à ciência, desde a Antiguidade.
Apesar de todos os seus esforços, Tobias Barreto não obteve êxito, conforme ele próprio esclarece, em texto publicado, originalmente, em 1881:

Este projeto, que teve apenas o succès d’estime [sucesso de crítica] de passar em primeira discussão, continha a ideia da criação de um estabelecimento público de cultura literária e profissional para as moças… […] julgaram-no objeto de deliberação por mera condescendência; e tanto assim foi, que um ano depois, quando eu não era mais deputado, fizeram-no cair em segunda discussão, por ser um projeto… desponderado e até imoral. (BARRETO, 1977, p. 320).

O projeto de Tobias Barreto foi arquivado, pois, para a época, era uma ameaça à ordem e aos costumes. E demorou quase uma década para que o Brasil pudesse conhecer a sua primeira médica. Trata-se da gaúcha Rita Lobato Velho Lopes (1866 – 1954), que em 1887 tornou-se a primeira médica brasileira e a segunda latino-americana. Ela iniciou os estudos em medicina no Rio de Janeiro e depois se transferiu para a Bahia, local em que concluiu a sua formação. A tese defendida por ela teve o tema: “A operação cesariana”.

Era essa a situação da Ciência e dos Direitos Civis no Brasil de então. Não é difícil perceber que o país ainda não havia “entrado” na modernidade e a pergunta que fazemos é a seguinte: “Conseguimos superar esses fantasmas conservadores do passado, ou eles continuam a nos assombrar, só que de maneiras diferentes?”.

Notas:

BARRETO, Tobias. A questão do Poder Moderador e outros ensaios brasileiros. Petrópolis: Editora Vozes, 1977.

Imagens:

Tobias Barreto / Rita Lobato Velho Lopes (http://www.cienciaecultura.ufba.br/)

Obs. Parte deste texto está em minha tese de doutoramento intitulada: “Uma Geofilosofia do cotidiano e dos lugares: modernidade e representações no (e do) trem de passageiros na região do triângulo mineiro” (IG – UFU, 2015).

Paulo Irineu Barreto

Paulo Irineu Barreto

É escritor e Professor do IFTM. Doutor em Geografia Humana e Cultural e Mestre em Filosofia Política e Social. Pesquisa e escreve sobre Cultura, Educação, Filosofia, Geofilosofia, Geografia e Política.

1 Comentário
  1. Aos que se interessarem pelo tema, recomendo a leitura de outros dois textos, que apresentam outros pontos de vista sobre a “primeira médica brasileira”. Em um desses textos consta, inclusive, o nome da filha de Romualdo Alves de Oliveira, citado por Tobias Barreto. Trata-se de Josefa Águeda Felisbela Mercedes de Oliveira, a jovem que não conseguiu validar os seus estudos de medicina, na ocasião. Além disso, apresenta-se o nome de Maria Augusta Generoso Estrela, como a primeira médica brasileira, embora ela não tenha se formado no Brasil, mas sim nos EUA, em 1881.

    http://itarget.com.br/services/itpack3.1/uploads/sgp/arquivos/Josefaagueda.pdf

    e

    http://www.academiamedicinasaopaulo.org.br/biografias/91/BIOGRAFIA-MARIA-AUGUSTA-GENEROSO-ESTRELA.pdf

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