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A Serbian Film – o filme proibido

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Censurados em diversos países – inclusive no Brasil – o longa “A Serbian Film – Terror sem limites” chocou até os mais inabaláveis espectadores e suscitou acaloradas discussões sobre a censura e a liberdade de expressão artística.

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Pela primeira vez em anos, um filme foi censurado no nosso país. Após ação movida pelo DEM, a Justiça mandou apreender a cópia que estava no Rio de Janeiro para um festival de cinema. Depois, o Ministério da Justiça, atendendo à pedido da Procuradoria da República em Minas Gerais, suspendeu os trâmites para dar ao filme classificação indicativa. Isso, basicamente, é a mesma coisa que proibir a exibição do filme, já que, sem a classificação, os cinemas não podem exibir o filme, sob pena de multa.

Não é a primeira vez que isso acontece a A Serbian Film. No Reino Unido, o Conselho de Classificação Indicativo Britânico fez inúmeros cortes no filme e tirou uma sequência completa, de mais de quatro minutos, apenas para classificá-lo como apropriado para maiores de 18 anos. O filme também foi banido da Espanha.

Mas, afinal, o que há de tão grotesco nesse filme de terror? A reação que ele estaria causando seria alguma forma de revolução cinematográfica? Ou apenas é um sinal de que ele usa de violência gratuita para se promover?

A Serbian Film – pedofilia, incesto e necrofilia… para dizer o mínimo

O filme conta a história de Milos (Srdjan Todorovic), um ator pornô aposentado, tendo dificuldades em sustentar sua família. Eis que surge Vukmir (Sergej Trifunovic), que faz uma proposta irrecusável: uma quantidade de dinheiro suficiente para garantir a aposentadoria de Milos, se ele concordar em fazer um último filme – um filme sem limites, em que Milos não terá controle das cenas em que vai participar.

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Obviamente, as cenas vão tornando-se gradualmente mais pesadas. Estupros, tortura e violência extrema permeiam o filme. Em muitas cenas, Milos faz sexo com crianças, incluindo (pasme!) um recém-nascido. Em outra, decapita uma mulher durante o sexo, continuando o ato com o torso-cadáver.

Segundo os que chegaram a ver o filme, as cenas não são gratuitas, mas parte de um contexto maior. Thomas Ashley, diretor da Invisible americana, afirmou: “É chocante e perturbador, mas a verdade é que trata-se de um filme bem feito. Tudo que acontece no filme tem um motivo, para conduzir o espectador à próxima parte da história… Já vi muitos filmes de terror, mas nenhum me afetou como esse.”

Nos olhos de muitos, ainda, o filme seria uma metáfora para a situação da Sérvia – como o próprio título sugere. Depois das guerras balcânicas dos anos 90, os fantasmas da nação ainda não foram todos exorcizados. O longa é cheio de referências a corrupção e a degradação do instituto familiar.

Reações pelo mundo

As cenas do filme causaram reações inojadas mundo afora.

Na Inglaterra, o filme foi banido do festival Frightfest, especializado em filmes de terror – e depois submetido a uma série de cortes, o que gerou uma polêmica discussão sobre a liberdade de expressão. Na Espanha e na Noruega, foi totalmente proibido. Na Alemanha, o laboratório que fez as cópias da película destruiu tudo após ver o conteúdo.

Nos EUA, durante uma exibição para convidados, um distribuidor de filmes americano levantou-se para deixar a sessão, sentindo-se muito mal, e desmaiou. Diversos outros convidados alegaram sentir fortes náuseas e sensação de desmaio durante a exibição do longa. Ainda assim, no EUA o filme foi liberado.

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Censura no Brasil

Não, A Serbian Film não é inédito no país. Ele já foi exibido em festivais em Porto Alegre e São Luís.

A polêmica em torno do longa começou com sua seleção para o Festival Fantástico do Rio, que, tendo em vista as reações ao filme no exterior, decidiu fazer uma sessão reservada para a exibição. O patrocinador do evento, então, decidiu cancelar a apresentação.

Quando uma nova sessão do filme, no cinema Odeon, estava para acontecer, uma decisão liminar da 1ª Vara da Infância e da Juventude do Rio de Janeiro proibiu sua exibição na cidade, pelo longa fazer “apologia à pedofilia”. A proibição, restrita ao Rio, virou nacional quando o Ministério da Justiça suspendeu os trâmites para dar classificação indicativa ao filme. Isso porque, sem a classificação, as salas de cinema não podem exibir o longa.

Momento FalaCultura: sobre a censura e a expressão artística

A última vez que ocorreu no Brasil um caso de censura prévia foi em 1985. O filme era Je Vous Salue, Marie, do diretor Jean-Luc Godard. E o motivo foi religioso.

Desde então, nosso circuito de cinema estava livre da censura. Até esse ano.

Não estou me referindo a A Serbian Film, mas ao simpático curta brasileiro Não quero voltar sozinho, que conta a história de três pré-adolescentes na descoberta de sua sexualidade. O filme foi censurado, há um mês, no Acre, por pressão de lideranças religiosas.

E o que isso tem a ver com A Serbian Film?

Simples. Que, com casos de censura absolutamente subjetivos, baseados em preceitos de moralidade, abrem caminho para novos casos de censura. Onde fica o limite entre o que é tolerável e o que não é? Como o Estado poderá selecionar o que o público pode ver, ou pior, o que o artista pode produzir?

Criticar a censura de A Serbian Film não é equivalente a defender o filme. É criticar a abertura de um precedente para que controle-se o que pode ou não ser dito. Aliás, proibir a exibição do filme é proibir as pessoas de não gostarem do filme, de discutirem seu teor, de criticarem sua construção.

Afirma-se que A Serbian Film exibe cenas do protagonista cometendo um crime. E quantos filmes não fazem o mesmo? Clássicos como O Poderoso Chefão e Laranja Mecânica exibem cenas de violência e crimes. Até filmes mais bobos, como Velozes e Furiosos, exibem cenas de “rachas”, que são crimes. Qual seria o critério?

Em suma: proibir a exibição de um filme, baseado em critérios subjetivos, é abrir precedentes para proibir muitos. Como argumentar contra a censura de, digamos, Não quero voltar sozinho, e concordar com a censura de A Serbian Film? Deve haver uma linha traçando o que deve ou não ser proibido? E o cidadão deixará que o Estado decida por ele onde situa-se essa linha?

Copiado e colado do site “Fala Cultura”.

Página Cultural

Para contribuir com ideias, sugestões e informações, use o e-mail: pagcultural@gmail.com.

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Comentários (4)

  1. Lucas disse:

    O filme é fraco e te prende somente pela expectativa de ver na cena seguinte a próxima bizarrice. Aos poucos se nota que a principal intenção do autor é chorar, e não fazer uma obra cinematográfica. Uma pena, pois o roteiro não é de todo ruim.

  2. Rodrigo Dias disse:

    Já tinha ouvido falar do filme, e agora só me deu mais vontade de assistir…
    Não deve exisitir censura! Viva a liberdade de expressão!!!

  3. Fabio disse:

    Nossa…

    A principio não havia pensado nas consequencias disso. Um censura abre a porta para muitas outras.

    Realmente eu tenho discernimento para decidir o que vou assistir ou não. Assim, tudo deve ser permitido de ser produzido.

  4. Antonio Kuntz disse:

    Em breve, mais um DVD de sucesso nas prateleiras prum filme que é, basicamente, uma crítica política. Sim, é muito mais um protesto ao estado geral de Sérvia que um filme contra os costumes. Moralista ao extremo – pra quem assistir até o fim – é mais reticente e subliminar que outros filmes já consagrados como Paixão de Cristo de Mel Gibson e Império dos Sentidos de Nagisa Oshima. A censura prévia é a pior das censuras, sempre se baseia na ignorância.

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