A suprema dança das orquídeas

“Não é possível não dançar.”
(Y. Yevtuschenko, poeta russo)

Deus é um dançarino. The lord of the dance, imaginemos. Sapateia mais que Michael Flatley. Deus está nas pequenas coisas e nos mínimos acontecimentos. Deus está nas grandes coisas e nos eventos monumentais. Deus é um marco, um começo sem fim. Deus também é um fenômeno. Olhe para você, aí, agora, prostrado diante do mundo todo! Somos o símbolo máximo da existência divina. Muitas pessoas já escreveram o que acabei de escrever. Mas eu jamais havia escrito o que acabei por escrever neste exato instante. Deu-me vontade.

Deus não construiu templos, não precisou nem precisa. Deus é um insetinho colorido que pousa em nosso antebraço. Deus é maravilha. Maravilhas, melhor dizendo. Melhor assim, no plural. Deus é a própria Beleza. Deus é o Belo. Deus é o Feio. Deus é. Deus sempre foi. Deus sempre será. Todo mundo um dia descobre a Deus, todo mundo um dia descobre um Deus. Todo mundo um dia se descobre. Todo mundo um dia pode se descobrir Deus. Todo mundo um dia pode achar que Deus é uma farsa. Deus pode ser ou não ser efêmero.

Eu conheci Deus num dia de muita angústia e solidão. Eu estava perdido no mundo, longe de minha família, longe de quem realmente se importava comigo. Num quarto alugado, numa cidade que nunca permitiu ser minha, ligando para uma alma salvadora qualquer que me entendesse debilitado, nem a senhorinha dona do estabelecimento-pensão podia ouvir os meus gritos de silêncio. Deus me apareceu naquele cômodo, na noite mais fria que já suportei. Deus me pareceu o Amor.

Depois do torvelinho noturno, eu era esperança e olhos fumegantes de amor pela vida. Deus me esbofeteou na primeira oportunidade que tivera. Depois da queda, levantei como um titã. Peguei o rumo e a estrada, pus a mochila nas costas e singrei caminhos de renovação interior. Foi quando aprendi a nunca desistir de nada, principalmente a nunca desistir de fazer bem ao próximo. Foi quando aprendi que se eu não fizer o meu passo, ninguém jamais o fará por mim. Deus estava me ensinando a dançar. Eu, que até então sempre havia sido duro de corpo, aprendia ali que a alma também possuía molejo.

Dali por diante, Deus estaria sempre sendo apresentado a mim, mesmo nas piores derrotas. Derrotas também nos dignificam, não é verdade? Deus havia se transformado em jardins e labirintos, em ruas sem perversidade, em distâncias superadas, em sorrisos profundos, em palavras sem opressão, em gostos os mais devidos, em fortalezas insubornáveis, em regras de liberdade, em metáforas reais, em corações para amar, em mãos para plantar árvores de Bem.

Soo clichê e não me importo com isso. Deus é também um clichê. A vontade que se transmuta em Bem, por sua vez, não é um clichê. É nisto que me assento. Deus é o Bach que escuto agora. Deus é a melodia de Bach. Deus é o dedo de Bach. O instrumento. A música. Deus é a possível dança que pode ou não ser dançada. Deus, como disse anteriormente, é um marco, um começo sem fim. Deus está onde menos esperamos. Deus sapateia mais que Michael Flatley, eis uma certeza. Deus dança, eu sei.

Germano Xavier

Germano Xavier

Mestre em Letras, jornalista profissional (DRT BA 3647), escritor e coordenador geral do Jornal de Literatura e Arte O EQUADOR DAS COISAS.

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