A Tragédia lhe Beija ao Som de Rolling Stones

Quando a noite cai, a face oculta das sombras toma a forma de todos os desejos insólitos e atrozes que os homens escondem durante a claridade das manhãs cotidianas. “Aqui, esse lugar está bom”. O ambiente possuía aquela penumbra noir, de que o corriqueiro do underground tinha prenúncio de uma tragédia. We may still have time/ We might still get by. A batida daquela guitarra clássica dos anos 70 tinha o mesmo ritmo que o palpitar de seu coração. “Aproveita quando for chamar o barman e troca a música do jukebox, não está criando o ambiente agradável”. O balcão era feito de uma madeira tão bem polida que explicava a alta classe que frequentava aquele pub. Opiários de prata e lustres ourives, como a preciosidade dos privilégios dos poucos que se aproveitam de muitos. Num canto esgueirado o casal tragava o ópio de seus cigarros enquanto noutra ponta as vozes vinham de sorrisos cínicos e diálogos vazios. As pessoas falam demais. Um cansaço pesava sob minha coluna e eu tentava recostar-me naquela poltrona de veludo, como se fosse corrigir a escoliose. Douto engano! Despertador é uma chave enganosa que nos tira da realidade imergindo num denso pesadelo. “Mais um de sempre, senhor?”. Era o barman, que se aproximou ao ver que tanto meus olhos quanto meu copo estavam vazios. Da sua própria forma, tentava preencher os vazios que acometem um homem. “É sempre assim, tão difícil para ele escolher uma única música decente naquele jukebox!”. “O senhor parece não se afeiçoar muito com classic rock.” “Não, não! Definitivamente não é isso. Se fosse assim, não seria tão assíduo frequentador daqui. Perceba, é como se eu fosse ler um Joyce na espera de um Bukowski”. “E não é isso que fazemos todos os dias?!”. Qualquer expressiva observação da realidade que fosse descontraída cairia de forma leve para quebrar o clima de tragédia anunciado pela passagem do tempo engarrafado em destilados. Um relógio feito de doses. Aquilo me fez pensar na inobstante forma da busca pelos prazeres. O cotidiano é menos simplificado pelo apego de seus usuários em um utópico objetivo. A realização é uma utopia de dois passos que a cada um percorrido soma-se mais dois. “Oh a storm is threat’ning/ My very life today”. “Bravo, finalmente! Faça um sinal para deixar o Stones. Essa é a música”. O barman levantou o indicador da mão direta, sutilmente. Era como se fosse uma ordem, e que o subordinado já tinha noção do próximo passo. “E então, o que vai querer, o de sempre?”. “Ah, agora podemos começar a noite. Sabe, tem muitas coisas que quero, tantos desejos desde os intrauterinos. Mas nada se resolve, eu vejo a realidade todos os dias se dissolvendo entre os meus dedos”. Estava frio. Desde o crepúsculo, temperatura caía e havia previsão de uma nevasca. Atípico para aquela época do ano. Não me importava, porque as tempestades eram parte de minha alma. O caos dorme junto da calma abraçando-o como um apaixonado adolescente. Tão ingênuo que seria possível dormir com os dois juntos! Havia um ciúme entre as duas faces da mesma existência. Os dois amantes inevitavelmente brigariam um dia. As faces opostas traziam escolhas diferentes. O estado de paz mental eu deixaria para Buda. Aqui na Terra eu tinha uma síndrome problemática de sentir prazer em brincar com o perigo. “Tão fria está a noite, que vou querer aquilo para que me esquente”. “Ah! O senhor refere-se àquela brunette? Ela tem um semblante melancólico, aparenta ter tido um inoportuno desentendimento”. “Sim, seus olhos não mentem. Aliás, os olhos são nossas janelas. A verdade esculpe-se através de nosso olhar. Podemos esconder a face do pecado, mas nunca sua essência. Se quer descobrir a essência de alguém, escute bem: torne a mergulhar nos olhos de alguém, é como entrar na porta de outro Universo. A dose de Daniels, cowboy”. Volvendo-se ao balcão, preparava com extrema delicadeza a bebida. Lembre-se do que narrei antes: o tempo ali era contado em gotas de doses. Foi-se metade nesse ínterim. “Gimme, gimme shelter/ Or I’m gonna fade away”. Tão difícil escolher nosso destino! Trato de vos desafiar a dizer que nunca encontraram um prelúdio de dilema diante de vossas existências. Oh, esse querer em ser todos os sonhos e não poder ser nada! Era um Álvaro de Campos cotidianamente. Janelas do meu quarto,/ Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é”. Sabidamente o poeta anunciava nossa insignificância diante da imensidão da vacuidade do Universo. Os dias anteriores aconteceram no Coliseu entre os dois gladiadores da escolha. Os negócios andavam bem, a fluidez dos ganhos corria como além do esperado. “Tem algo que me intriga. Lembra-se daquele filme, Os bons companheiros?”. Já naquele ínterim do primeiro tempo da dose destilada, meu comparsa achegava-se para recostar na poltrona ao meu lado. Há de frisar: tudo muito rápido, volátil, telemático. E a realidade não era tão diferente. “Eu sei o que quer dizer. É como se fôssemos os personagens do outro lado da trama. Mas acho que de bons companheiros já nos distanciamos bastante. Estamos mais para um De Niro em Cassino. Quem vai julgar a culpa de uma traição da melhor forma se não o juízo divino? Eu só faço aquilo que me mandam, porque eu me importo se vou ter espaço para chegar em casa e dar aquele trago junto do destilado, ouvir o sussurro dócil da Brigite e acordar mais um dia para repetir tudo”. “Eu não acredito em Deus. O momento de quando Niesztche chorou é quase um espelho de mim mesmo. Se a vida for uma jornada, o nosso eterno retorno é na moléstia de nossa própria consciência”. O barman trouxe a bebida. Segundo tempo então. O swing dos raffles fez-me levantar e calmamente caminhar por aquele salão. A troca de olhares com o mistério nos cabelos em sombra daquela brunette ousava-me a decifrar a instiga do momento. Um gole, metade do copo, terceiro tempo. Era um momento de quatro atos, e dessa vez os passos tornaram-se um pouco mais tórridos naquele salão, tanto os meus quanto d’outro que estava comigo. Tornava-me a aguardar um único sinal enquanto observava o ambiente. Já coloquei minha mão direita por dentro do terno cinza de linho enquanto a esquerda alcoólica afagava o Daniels. “It’s just a shot away!”. A tragédia anuncia-se com ato mais primoroso de confiança. A sentinela virtuosa recostou proximamente a um dos homens que a acompanhavam e tornou a beijá-lo como se a lembrança do dia que conheceram a paixão fosse o ditado de seu adeus. Os dois homens que acompanhavam perceberam o movimento de adieu sobre a linguagem. Quarto ato. E assim a guitarra de fundo era surda com os tiros que saíram dos coldres das armas que eu e meu parceiro guardávamos abaixo daquele linho de gala. The Moody Blues substituiu o Stones anterior. “Nights in white satin, never reaching the end/ Letters I’ve written, never meaning to send/ Beauty I’d always missed,/  with these eyes before”. Cômica coincidência, a longa digressão sobre os olhares parecia estar resumida num único refrão. Até mesmo na Máfia as coisas funcionam com pitacos de sentimento. As portas se fecharam, a dose acabou e o tempo esvaziou-se de sua forma de ser. Nada surpreso, aquilo era o cotidiano. O barman com seu balde e esfregão limpou o sangue empossado ao lado do balcão e lustrou a madeira para não perder o sublime brilho. A morte empodera os homens que se sentem oprimidos por uma realidade que os aprisiona e não permite que sejam os tantos desejos que escrevem em linhas mentais. Quanto ao que fiz, ao menos por um dia materializei o que Pessoa desejou na Tabacaria: “escrever esta história para provar que sou sublime”.

Marco Aurelio Souza Mendes

Marco Aurelio Souza Mendes

Nascido na cidade de São Paulo, em 1994, atualmente cursa o bacharelado em Direito na Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Atua no meio literário com o pseudônimo de Aurélio Mendes. Possui uma coletânea de contos publicada pela Editora Multifoco chamada Pensamentos Singulares (2013) e uma novela política pela Editora Subsolo, Abapanema: o lugar das coisas ruins (2015). Em processo de editoração de sua terceira obra, "A manhã de J.H. e outros contos" pela Editora Subsolo, fruto da aprovação pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura (2015).

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