A viagem

As árvores eram vultos verdes que passavam frente aos seus olhos e as pedras, e as flores coloriam o caminho. Eram seis, estavam em grupo de dois nas motocicletas. Um deles guiava e o outro ia à garupa. Sandro estava na garupa de um rapaz que ele havia conhecido minutos antes de começar a viagem. Era um menino calmo e silencioso, nunca levantava o olhar e estava sempre circunspecto, envolto em um manto de pensamentos que diziam respeito apenas a ele. Estava ansioso para voltar aquele lugar, por isso havia aceitado ao convite que lhe haviam feito. “Vamos ao rio hoje à tarde. O pôr do sol de lá é maravilhoso”. Ele aceitou, e foi, mas não sabia que seria levado por um estranho. Ser levado por um estranho num caminho por ele já conhecido era como ser guiado dentro da própria vida por um ser que não entendesse os desejos que lhe moviam, as vontades que lhe impulsionava para qualquer coisa.

Quando subiu encima da moto, certo presságio o percorreu a espinha, mas depois que o automóvel passou a se movimentar, esqueceu tudo aquilo, e era como se tivesse entrado em um túnel do tempo que lhe levasse para percorrer os meandros do seu âmago.

O vento era como uma tempestade a invadir-lhe os ouvidos. Tomava-lhe o corpo, e se ele não se segurasse com presteza acabaria sendo deixado para trás. Não tinha a menor vocação para se manter equilibrado sobre aquela motocicleta. Seria mais fácil montar um dragão, se dragões existissem. Mas naquele momento era como se eles existissem e montá-los era realmente mais fácil que se equilibrar na garupa de um automóvel como aquele. Por que diabos havia aceitado aquele convite, voltar aquele lugar, e todas aquelas lembranças que o acometiam, e avelocidade com que aquele rapaz se locomovia. Ao menos ele tinha certa destreza com o automóvel. Desviava de pedras, não caia em valas. Aquele era um caminho realmente difícil, as pessoas desistiam de vislumbrar o por do sol do rio, pois chegar nele era como atravessar um campo de batalha. Talvez atravessar um mar de monstros fosse mais fácil que chegar a algum lugar por aquele caminho.

Olhou para o lado. Algumas arvores rasteiras se estendiam pelo chão, e apesar do sol quente e da sensação térmica infernal, a grama estava verde, e os animais corriam pelos pastos, gordos, e haviam ainda algumas arvores maiores, pomposas – pés de umbu que outrora dariam belos frutos. Eles voltariam ali, ah, voltariam, e arrancariam aqueles frutos, e os chupariam ali mesmo. Chupar umbu e se lambuzar era como beijar. Quando criança, ele se lembrou, que chupava umbu e imaginava estar beijando alguma mulher. Naquele tempo a inocência era o que havia de mais belo nele. A sua mãe não gostava quando ia a mata arrancar aquelas frutas, imaginava que ele podia ser picado por uma cobra, por um escorpião, ou por qualquer outro bicho venenoso dessa espécie. Mas ele não tinha medo, na verdade às vezes tinha medo, e ia para a mata com certa repulsa do lugar. No entanto ele não temia bichos peçonhentos, ele tinha medo de outras coisas. A natureza para ele sempre fora um lugar místico, e fazer parte do natural era correr um grande risco. Era por isso que depois de determinado período da sua vida começou a pensar que os homens viviam em sociedade para evitar os perigos da natureza. Era por isso, pensava ele, que se criavam todas aquelas regras sociais que impediam o homem de ter contato com o que havia de mais natural neles.

Havia algo de horrendo que se escondia por aquela beleza que se estendia por todas as coisas. Sempre que ia a mata escondido da sua mãe lembrava-se da história que lhe contou uma vizinha cigana. “Lá perto de casa, morava um tal de seu Zé. Seu Zé não tinha medo de nada, mas certa feita ele se encontrou diante de uma situação horrível. Sabe, as pessoas não acreditam muito nisso, mas eu sempre acreditei, até já vi, mas seu Zé. Seu Zé matava os bichinhos sem dó nem piedade quando ia caçar, mas a natureza se vinga daqueles que não são bons para com ela, e tem aquele ser, a Caipora. É um bicho malvado, por isso que índios sempre cultuaram a natureza.E eu. Eu também cultuo a natureza. Pois, Seu Zé, matava os bichinhos, mas certo dia, a Caipora se vingou, e fez com que ele se perdesse na mata. A mulher dele que temia essas coisas também, veio me pedir ajuda. Eu disse que era só levar um maço de cigarros de fumo pra mata que Seu Zé logo voltava pra casa. Ela fez isso, não deu meia hora e o homem estava em casa são e salvo. Quando chegou, chorava feito criança, disse que na mata viu coisas surpreendentes e tenebrosas. Havia muita beleza, mas havia muito horror. E disse que nunca mais, nunca mais mesmo, ia matar bicho só por diversão”.

Por isso, ele sempre temeu a natureza, e se lembrava daquilo quando ia a mata. Quando um dos seus amigos, com o badogue matava algum bicho só por diversão ele o repreendia, por que sabia, sempre soube, há algo de místico na natureza. Há algo de fantástico. Na natureza se escondem todos os segredos da humanidade, tudo que a humanidade precisa saber sobre si mesma está na natureza.A mãe criadora. Pensava que se deus existisse, haveria de ser a natureza. Tinha certeza, que por trás da face natural do homem, havia algum mistério, e tinha medo. Encontrar essa face significava entrar em contato com algo que poderia resvalar horror ou alegria

Naquele momento, montado sobre aquela motocicleta, via o mundo em cores riscadas. O caminho era longo. Ainda demoraria a chegarao seu destino. As suas lembranças eram como uma tempestade. O vento que lhe roçava a face fazia-o chorar, estava muito forte. O rapaz que guaiava a moto corria demais. Sentiu medo. Era desnecessário correr daquela forma. Poderiam cair e se ferir, o caminho era extremamente complicado. No entanto, ele não poderia demonstrar medo. A sua masculinidade tinha que sobressair-se. Aquele era um momento delicado, o momento que ele precisava provar alguma cosia para si mesmo. Alguma coisa que ele não sabia o que era. Mas aquele caminho o impelia a ação. Era como se ele estivesse montado em uma quimera que lhe levaria em direção ao ponto chave de sua vida, aquele momento em que todas as coisas se resumem em um único instante e se perde a certeza de tudo para ganhar uma nova certeza, um novo motivo para seguir adiante.

As nuvens brancas pareciam segui-los. Identificou no meio do caminho uma pequena lagoa cercada por algumas galinhas d’angola. Ah, que criaturas engraçadas, andavam de um lado para o outro completamente desengonçadas. Algumas bebiam da água do rio, outras corriam por entre a mata e atravessavam as cercas e iam parar no caminho de cascalho. Uma dessas chegou a atravessar a estrada quando a motocicleta que Sandro estava chegara bem próximo. O rapaz que guiava a moto teve que desviar e Sandro quase foi jogado sobre a cerca. A tragédia quase aconteceu, e aquele momento, aquele momento de esplendor e de encontro que Sandro procurava não aconteceria.

De repente a motocicleta parou. O caminho havia chegado ao fim. A viagem havia terminado. Mas Sandro ainda não via o rio. Ele buscava com o olhar enxerga-lo, mas nada, ele não estava ali. Um dos amigos que haviam chegado numa das motos que vinham atrás disse que o rio estava um pouco ceco e que eles teriam que andar mais um tanto pra encontrar um lugar que ainda tivesse água.

Sandro caminhou junto com os outros no intuito de encontrar um lugar onde o rio ainda corresse. Eles caminharam, caminharam, mas não chegaram a lugar algum. Então aquela vertigem tomou Sandro, e o medo de estar se deparando com a face de horror da natureza o fez tremer. Naquele momento ele imaginava que poderia estar passando pelo impossível, entrando em contato com mistério que une todas as coisas ao fantástico. O rapaz que guiava os outros pelo caminho em busca de um lugar onde ainda corresse o rio desaparecera no meio da mata. E quando olhou para trás de si, Sandro percebeu que os outros que o seguiam também haviam desaparecido. Mas como? A poucos minutos estavam todos ali. Parado, ele percorreu com os olhos todos os lugares ao redor, e percebeu que estava no meio de uma espécie de circulo cercado por uma mata densa, com alguns mandacarus com espinhos enormes e outras plantas dele desconhecidas. Estava perdido, estava acabado. Como aquilo havia acontecido? Não sabia. Apenas tinha caminhado, e tinha a certeza de que seguia os seus amigos, tinha a certeza de que estava sendo guiado por alguém. Era como se de súbito certo momento de loucura o estivesse acometido e ele houvesse se perdido. Era como se ele estivesse perdido dentro de si mesmo, e aquele circulo no qual havia se fechado o impedisse de encontrar-se para tocar a sua face misteriosa de esplendor ou horror.

Mas não, ele estava perdido na mata, e era como, era como se tivesse caído numa das armadilhas… Ele não queria pensar naquilo, ele não queria dar o braço a torcer e ter certeza de que aquilo era possível. Mas é como se ele estivesse caído numa das armadilhas da Caipora.

Voltou a lembrar da vizinha cigana que havia lhe contado aquela história.

“Certa vez eu mesma a vi. Era como uma índia de pele avermelhada, e tinha longos cabelos ruivos que lhe tocavam os pés. Sua figura não dava medo, mas quando tentei pronunciar qualquer palavra que fosse para ela, ouvi aquela risada, aquela risada demoníaca que poderia ser escutada em qualquer lugar do planeta. Pareciam que aqui dentro do meu peito uma espada de ferro me perfurava, e em minha cabeça um eco como gritos de horror se reproduziam. Fora a pior risada que ouvi. Por sorte estava com um pacote de fumo no bolso da saia, e deia a ela. Só assim ela me deixou ir embora”.

Sandro estava completamente desesperado. Subitamente enquanto tentava atravessar a mata fechada que o cercava, ouviu aquela risada, e era como se um violino desafinado rasgasse a sua alma e o fizesse chegar ao inferno. Ele ficou tonto. Sua visão foi tornando-se escura aos poucos, e ele foi deixando-se abater por certa pachorra. Seu corpo foi tomado por uma languidez inexplicável, e antes que ele caísse e estivesse completamente demasiado, viu aquela imagem a sua frente, aquela imagem como a que sua vizinha contara. E uma ultima vez ela sorriu, e ele desmaiou.

Sandro fechou os olhos, e quando abriu estava caído no chão, com o rapaz que o levava na garupa tentando reanima-lo. Então se lembrou do que realmente havia acontecido. Quando uma das galinhas d’angola atravessara a frente da moto, eles haviam desviado e caído. O rapaz da frente conseguiu não se ferir muito, mas Sandro caíra e bateracom cabeça.

Havia sonhado que chegara ao rio, e o rio estava seco. E aquela pedra. E aquele ser, parecia tão real. Os seus amigos estavam ao seu redor, preocupados. Quando ele levantou, todos agradeceram ao deus e tentaram colocar ele novamente sobre a moto para leva-lo pra casa. Entrementes Sandro não queria ir embora, algo dizia-lhe que ele precisava ver aquele por do sol, ele precisava chegar ali, e nada nem ninguém o impediria de vislumbrar aquilo. Depois de muito insistir, os amigos dele resolveram que não teria mal algum em leva-lo para ver o sol se pôr.

Sandro na garupa do rapaz desconhecido fora levado para o encontro com o rio.

Chegaram ao rio, e lá estava ele a correr, e o sol, debruçando sua face sobre a face das águas. Sandro buscava divisar por ali a pedra que tinha visto antes. Procurou, procurou, e encontrou. Aquilo era estranho, e a sensação de que o que havia vivido era real, também era forte e estranha.

Enfim o sol se pôs, e um sentimento agonizante cresceu dentro do seu peito. Então todos se colocaram nas suas motos e foram embora. Sandro na garupa de um dos rapazes, pensou em como a vida era misteriosa e em como os instantes se dissolviam uns nos outros repentinamente, mas que por um momento, em que ele não sabia como nem quando, ele viveu duas vidas em uma só.

 

Marcos Welinton Freitas

Marcos Welinton Freitas

Baiano do Bravo/Serra Preta. Graduando em Economia pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Escritor: poeta e contista.

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