A vida acaba em Tango

Um cheiro alcoólico. Aspirálcool das minhas narinas. Meus olhos são desconhecidos para o ambiente, tal como os olhos alheios findam incógnitos de forma recíproca. Uma a uma cada alma tinha uma vida por trás daquelas aparências. Temos. Todos. E é, vou dizer que fingimos mesmo ter essência, nessa aparessência. Fingidouros medíocres somos nós. Ainda assim, mesmo dentro dos confins desse mundo que eu desconheço ser, eu tinha que estar atento, olhos voltados para o futuro.  Cada vez ficava mais perigoso eu permanecer, mesmo quieto, naquele lugar. Mas que diabos de maleta pesada essa! Êirra, só mais essa noite, só mais essa noite. Prometi para minha própria consciência que a noite de hoje era data marcada para eu sumir do existir. Tardava demais. Não queria fugir da realidade, visto que eu estava sob uma linha tênue de algo que ainda me prendia àquele lugar. Guardada. Maleta embaixo da mesa. Meus olhos atentos, famintos por um prelúdio de tragédia fechavam apenas quando eu via a figura daquela intrigante e corriqueira paixão. Vem ela aí.

Os brios momentos, as causas sonhadouras, êixa, essas coisas precisam de palavrear não! Gestos finos, zelosos, calmos sorrisos ternos bastam para dizermos prosas de mil páginas com juras de amor. Minhas mãos frias, da preocupada empreitada, do perigar que eu tinha, tornavam-se quentes, senfim de paixão. Direi, ô, direi que sou um camarada que afundou os olhos como um amásio certo. Minha certeza eu abraçava naquele salão. Eu teimo em delongar prosa com palavras de narradas, mas que fique claro meu silêncio salientado. Nada. Coisa alguma. Nocalar. Meus lábios frisavam-se em contato daquela face, mas sem recostar nos libídios finais. Ai, é um silêncio de reciprocidade. O bar teimava em circundar-se como um mundo a parte de tudo que acontecia. Minha atenção. Não longe. Nenhuma ideia de longear pensadamente. O tango tocava. E meus olhos piscavam em vertigem de limpeza do ambiente ao ritmo das batidas. Não só. Batida dum batuque de peito. Coração sincronizava no ritmo das notas de amor. Ainda assim, eu precisava manter-me frio, calculista, absorto dos devaneios. Num canto do lugar eu podia ver aquela reconhecível figura. O do café.

A neblina soturna enevoava uma passada de recente passado. Minha passada. Madrugada. Era aquela hora em que as portas se abrem para que o nefasto aconteça. Minha presença calamitava calafrios. Ofegante, pulsação extrema. Silenciador angustiante, silêncio bruto rompido apenas pelo ecoar dos ponteiros de meu relógio de pulso que a cada tick me deixava com vontade de gritar, sucumbir-me àquela força negativa que tentava me dragar rumo à morte. Minha verve sábia ditava que as coisas seriam daquela forma dali em diante. Deixei para trás minha trama, minha traição. Meu signo de nova vida. Mas trairagem, 171, essas calúnias só vem das miudezas lícitas, permitidas. A permissividade do que eu fazia? Ausente. Tais negócios mórbidos, tais sujeiras que trazem benfeitoria do dinheiro. Minha negociação era vender o tráfico para quem traficava. Fazer do ruim, bom negócio. Empresário do submundo, seja lá como queira chamar. Entendeu? É, nem vou ligar se ficar com desdém de querer glorificar-me como bom homem. Nunca fui bom. Os que agenbem, se bendita me permita a opção literária direta, benfodem. Olha, me escuso de mais justificâncias. Ademais, meu sangue pulsava, venosava-se para fora junto com minhas entranhas. Mesmo depois de golpe certeiro, atirado em armadilha feita por mim, alguém me seguia. A maleta estava em minhas mãos. Santa vida, meus pés latejavam naquela hora! Eu devia ter caminhado uns dez quilômetros, no mínimo. O frio, intenso da madrugada, incansável invernar interno. Os passos apressavam-se. Corre, corre! Assim foi o que eu pensava. Mas minhas energias faltavam; faltava até fôlego para continuar a ser vivo. Afasto pensar existencial. Céus, precisava pensar em algo! Pois veja, sou mesmo homem calculista. Analisticamente. Situação virava como um imenso diagrama numérico. Lembrei da cafeteria. Fui, era no caminho.

Silêncio. —“Um expresso, por favor.” —. Meu ser cafeinado. Que o café despertasse minhas forças interiores. Ácida bebida revirou meu estômago. Náusea, vertiginoso momento ficava num liame da questão se era de trago amargo ou do desespero (porque os anciões sabem como nos envelhece esse tipo de preocupação). Minha posição era de um monge, ficava meditadamente com olhos de soslaio em canto de porta. Abriu. É. Nem preciso dizer. Foi-se findando um calafriar, um êxtase frívolo. E agora Drummond, sou eu seu José? No canto da camisa suja pelos pingos de garoar da noite, pude ver nas vestes do homem aquele broche. Nem duvidações tinha mais! Era daquela Liga dos Alfaiates. Dos que eu dissera que fiz enganações. Mas tinha culpa. Ôxe, não turbo minha guilta por isso não viu! Vixe, longar. Era historiar longo isso. Ué, pensa comigo. Quiçá minha vida fosse deveras tranquila. Sossegada. Eu ganhava meus trocos (e que bons trocos hein!). E, olha, vou é falar uma coisa, esses esquemas do ilícito seguradamente protegem nossa alma. Porque quisera eu deixar para trás bonnum status quo? Em Roma os brocardos das glosas já diziam o destino daqueles que versari in re ilícita. —“Outro expresso, por favor.”—. Tinha que esperar a movimentação dele antes de qualquer atitude imprudente minha. Oê, eu estava afundado nessa lama do caos das leis margeadas pelo poder paralelo. Só que ó, pera aê, nem era por isso. Meu coração sopesava tranquilamente o perigo. Os sábios levantam-se cedinho, bem cedinho. É que a luz do sol de primora guia para as colinas da razão. Os vagos, vaziadores de mente, translocados da vida, acordam sempre ao meio-dia. Tanto tempo perdido antevieiro e tantas cegadas pelo sol forte deixam ser dominado pelo movimento diletântico que é ser controlado. No fundo. O homem sentou-se no cantoposto meu. Tempo clockeava, eis que eu escutava ainda no fundo dos ecos mentais o ponteirar em meu punho. Céus, tinha uma goteira ali no meio da cafeteria que estava me deixando num arrepiar gatunado. Minha respiração foi ficando mais forte, ritmada em soluços frenéticos. Eu tinha olhares tridimensionais: um no semblante de homem, ler na face rija um prelúdio para antecipação; outro na mão que ficava embaixo da mesa (outra tinha um expresso, esse maldito ainda tivera o café servido antes do meu). —“Perdoe, senhor, mas a máquina quebrou e estamos passando seu café no coador.”—. Minto. Só bidimensão. Nem ia dar tempo mais, por isso cerrei os olhares para segundo café vindouro. Outra vez aquele gotejar da infiltração do teto fazia barulho. As gotas tinham intervalos longos, tinham sido dois gotejares até então. Tempo um de servir-se, tempo outro para observar. Nada. Aquela madrugada estava quieta. Internamente eu ouvia gritos, vozes da minha vontade desesperadora. Sabia que na terceira gota era tudo ou nada. Não caía, meu sinhô, aquilo parecia infinitar tempo. Aí, eu vi a mão escondida tentar avançar em movimento. Paf. O barulho da terceira gota foi ensurdecedor. Eis que eu só vi o café daquela outra xícara fundir-se em rubro negro. Os estilhaços de porcelana voaram no ambiente e vi só homem pender para trás com a cadeira. Atirei primeiro, por óbvio. Corri. Deixei na mesa os trocados do café. Minha alma ainda era boa, apesar de tudo.

Não! Não pode ser! Não tem como aquele homem ser o mesmo que o daquele dia. Vê, eu tenho as memórias claras. Clarifiquei-me com as lembranças. Só que corpo moribundo nem vi depois. Ei, ei, eu atirei certeiro, nem tinha como! Eu dançava aquele tango, aquela música com um significado profundo. A letra dela era minha vida. Por una cabeza, todas las locuras. Eu poderia ter feito Direito, Medicina ou até um bacharelado em qualquer outra ciência. Doutor Roberto de Almeida. Seria um nome importante socialmente. Só que perigar era um gosto próprio. Um gostontológico. Esse era meu ser no real, no palatável mundo. Eu olhava o rosto daquela mulher com quem dançava. Ah, Camila. Foste tu tão bela, porque, hein, porque foste tu tão bela? Eu sou atraído pela leveza das coisas. Eu planava sob o chão enquanto dançava com aquela mulher. Nossos filhos seriam tão belos! Eis que minha casa teria imenso jardim. Oculto querências pelas jardinagens. Minha terapia. Um garden amplo, em que eu pudesse me jogar entre as folhas caídas de ipês e sonhasse, divagasse em qualquer outro mundo, quiçá me importaria ser chamado de louco, transviado da vida, ou qualquer coisa do gênero. Importava eu ter o barulho das crianças correndo, ver as folhas revoarem em meu rosto, pois ao meu lado eu estaria de mãos dadas apenas com ela.

Qué importa perderme
Mil veces la vida
Para qué vivir.

A causa que eu dançava era a mesma que me fazia perder mil vezes a vida. Olha, foi ela, só por ela! Nosso amor, tão impossível ao mesmo tempo! Ela era esposa de um dos grandes chefes da organização. Oh, senhor, foi tudo tão rápido! Eis que as trocas de olhares evoluíram para cariciares profundos, posto logo que a equação resultou destituto de minha consciência. Que a razão queime no inferno! Que os kantianos morram desiludidos da vida. Se não me resta amar, de que adiante viver para sonhar? Êirra, nadica de nada! Foi concordância mútua, juras recíprocas que eu calorava em verdadeiros motes para minha nova vida. Cansei do perigo. Melhor. Tem perigo maior que amar assim? Hum, Niezstche que o diga. Namor. Direcionamento só no caminho, nas estradas longas dos cabelos negros daquela minha pequena Camila. Senhores leitores, que se faça agora a espada do julgamento. Sei que fui homem de deslocação do certo. Ora, mas a gente tem sempre nossa hora de redenção! Pois bem, deem-me essa chance! Tal espírito, tal sinestesia, meus sentidos queimam em fogueira clamando por piedade do destino para que eu não precise olvidar meus momentos findos em paixão. Eu rodopiava o salão com ela e ainda nenhum de nós tinha proferido palavralguma. Homem longe. Nem. Não podia ser ele.

Olhava meu time. Nenhumora. Impacientava-me com os olhares daquele ser misterioso no canto. Podia não, podia não! Só que certezar das certezas de que matei eu nem tinha. Aí eu fico nesse abismo entre um acerto positivo ou um erro no caminho. Aquele homem volta um sorriso para mim. Ceús, minhas mãos voltaram a enrijecer novamente. A maleta estava intacta escondida sob a proteção de uma mesa próxima a nós. Vagarosamente, nas lentidões múltiplas das ações de homens que tartarugam, a mão esquerda foi levantando. Fixou uma posição de pistola imaginária para minha direção. E sorria. Movimentava gatilhosamente, engatilhada imaginária. Paf, paf, paf. Quase procurei um sangue pulsando de oco feito em corpo. Dor era psicológica. Nervos estaziavam em sentir um futuro incerto, incógnito. O rosto, eu não conseguia lembrar da fisionomia do caboclo! Eis que aquela era noitescura, neblina que oculta. E sentou na cafeteria longe. Suficiente. O bastante para deixar-me com memória em embaçação. A mão direita foi levantando em mais um movimento timerizado nos segundos lerdos. Não! Oh, lorde, era isso que eu temia! Eu vi a faixa envermelhada. E sorria agora cada vez mais certo de que era meu momento de ser ceifado. Arregalei as pupilas, estremeci os joelhos e me senti de forma despida em público. A bala barrou em mão e não matou meu perseguidor!

Era quase hora, pelo menos. —“Camila, temo que corro perigo.”—. E minha fala foi só essa. Os olhares antes românticos cessaram-se em intermináveis e fustigantes oculares preocupados. —“Eu sei.”—. Oh, tão sábia como eu, tão certa. Minha mulher sentia assim como eu o clima sombrio do lugar. Um elo, uma ligação pétrea entre nossos corações, assim queria explicar aquilo. Era até irônico estar tocando um tango em exato momento. Há os que dizem ser música dos momentos fúnebres, tais que os passos sensuais, a caminhada que mostra ser o andar da vida, termina no inevitável. —“Temos quinze minutos até o aeroporto, nosso voo logo sairá.”—. O fim, de fuga. Fugir para longe com a incomensurável quantia e finalmente viver no meu garden. —“Eu temo, meu querido, que a passagem é apenas para um.”—. Surpreso. Calcei as sapatilhas da surpresa, eis que eu vi, oh porque! Eis que eu vi só agora! Olhei por detrás daqueles cabelos negros, de meu conforto inexplicável, mas dessa vez tentando segurar-me para não cair. Fui cambaleando de forma animalesca, como qualquer bicho que tem vida tirada no cativeiro para abatedouros. Não, eu fui logrado! E de forma tão bela. Doía meu peito perfurado por faca certeira, de morte certa. Pois vi, só percebi agora, as falsas juras para que ela fugisse com todo o dinheiro. O homem do café, quando olhei para trás, morto. Tinha faca e bala por debaixo das sensualidades dela. Certezei mesmo. Ninguém sabia. Oh, céus, nosso destino é implacavelmente certo. Meus leitores, eu vos perdoo, da mesma forma que perdoo a mim mesmo. Eis que não duvido se também caísse nas armadilhas de amar. Quando eu cerra meus olhos, não tenho nada mais a narrar. É, mas a filosofia é certa: os homens nascem com o amor, vivem para o amor e, que fiquem certos, irão morrer por amor. Termino com o som de  Gardel sendo última memória:

Y risueña mujer
Que al jurar sonriendo
El amor que está mintiendo. 

Marco Aurelio Souza Mendes

Marco Aurelio Souza Mendes

Nascido na cidade de São Paulo, em 1994, atualmente cursa o bacharelado em Direito na Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Atua no meio literário com o pseudônimo de Aurélio Mendes. Possui uma coletânea de contos publicada pela Editora Multifoco chamada Pensamentos Singulares (2013) e uma novela política pela Editora Subsolo, Abapanema: o lugar das coisas ruins (2015). Em processo de editoração de sua terceira obra, "A manhã de J.H. e outros contos" pela Editora Subsolo, fruto da aprovação pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura (2015).

2 Comentários
  1. Cara Maria Clara, fico agradecido por apreciar meu olhar criterioso sobre o mundo que nos redoma. A vida termina mesmo em tango, pois por vezes é traiçoeira com nosso destino. Nem sempre, mas a perspectiva que o texto quer abordar é justamente essa. Ficção, mas quiçá não poderia ser real? Acho que aí reside a beleza de literaturas como essa, em que nos permitimos confundir a realidade do crível com uma ficção do possível.

  2. Querido autor,

    Adorei como narra a história começando pela forma que compreende o amor e o tango como complementos um do outro. Segundo minha interpretação de uma simples leitora, vejo que tem um olhar muito criterioso e observador sobre os dramas e conflitos da vida cotidiana e até mesmo da sua própria utopia de se entregar a alguém comprometido, o que nos faz culpados e ao mesmo tempo deslumbrados com a possibilidade de viver esse amor de fato. Através da comparação de algo proibido, a principio, com o ritmo intenso e traidor do tango traz a nós leitores a real sensação de um fato como esse, o que torna um belo romance. Espero que escreva mais sobre tal assunto e possa nos embalar com comparações tão fictícias e reais ao mesmo tempo. Ademais, boa sorte em novos romances e composições.

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