Acorda-te II

E a poeira ela enchia os olhos. Vazio. Seco. Que o sol queimava mesmo era de surrupiante vontade depressiva próxima da morte. Olhou para os dois lados e percebia que a porta de ferro fundido e o cheiro de éter etílico do hospital tinham dado lugar ao seco fim de mundo de uma porteira para o além do sertão desconhecido. Tinha menos cheiro de vida e mais cheiro de morte aquela terra. Ninguém arredorizava naquelas horas por aquelas bandas. Oxê, calma aê. Nem sabia mesmo onde que estava. Daí que nem mirava olhar certo para direção nenhuma. Pois aquele dia já nascia confuso, incerto, incoerente com o mundo real das pessoas sensatas. Por um momento achava-se parado no subúrbio dos acontecimentos citadinos, imiscuído no meio de diferentes formas de existir, das barulhagens cheias de significados, e agora estava preso ao silêncio. O vento batia em seus ouvidos em cântico moribundo e sinistros, porque terra seca afeiçoa com a desesperança. Ora essa, sabe o que tem de próximo entre a vida e a morte? Contarei. O que mais intriga é que as duas coisas são tão próximas e parecidas que até assustam. A diferença é que uma, a morte, a gente só consegue ver, porque assiste os outros partirem para onde quer que acreditam; a outra, a vida, a gente pode sentir. E quanto mais a gente sente, mais descobre que se está vivo. É assim que as coisas funcionam. Bem simploriamente, mas é assim. Não sou douto das filosofias do oculto, que me perdoe leitor se viera por aqui na espera de dialogar perante o nexo entre a vida, morte e nós mesmos. Troque essa leitura para um Niezstche, ele soube enfeixar prosa de profundição ousada quando conversou com Zaratustra. Ele andou, andou, andou, andou, andou, andou, andou, andou. Um verbo só, mas enfatizei repetidamente para mostrar que só fez isso em narrância. Lá era um infinito para o nada. Não importava para onde ia. Essa era a verdade. Importava o porquê de ir. As perguntas fazem uma flexão mais nobre aos homens do que nossa atitude de querer sempre respostear sobre tudo. Procurava algum vestígio de certeza no meio da aridez mórbida do lugar, algum indício de vivacidade, alguma alma que pudesse pelo menos dar um copo d’água. Ele sentia sede, mas não tinha certeza se era água para curar.  Daí que foi indo mais um pouco e ouviu umas cantigas ao fundo que soavam como benditados sertanejos.

Quando amanhece
Até parece que o sertão
Com alegria
Vai despedindo a escuridão
E a passarada
Em renovada, tão contente
Alcança o espaço
Num grande abraço a toda gente

Deixa eu puxar um fôlego, que ás vezes a narrada vai num pensamento só ou fragmenta-se ordenadamente. Nem a organização tem espaço certo, quiçá então minha escrita terá algo cunhado numa ritmância certa. Hora vou fluxar pensantemente, hora vou seguir narradamente nas pausas. Essa vai ser hora de pausa. Entendeu? O nosso homem estava encismado com o som que vinha lá de diante. Então apressou passada para chegar até mais perto. Já sentia um cheiro de palha queimada. Tinha um velho mocambo pitando o palheiro recostado num arbustivo. Ele se aproximou e viu que tinha uns negos de roda cantando a canção. Velho nem saía da posição. Cansado com seu palpebrar parado, sem rumo, mas inquieto por dentro. Nosso homem estava com brusca vontade de gritar. Veio assim, do nada. Tiveram já? Ah sim, entendo, é algo comum mesmo. O desespero é que provém desse tipo de coisa. Foi indo mais próximo, mas gaguejava em silêncio. Iria dizer o que? Que do mundo que estava mundificando nem era o mundo que costumava mundificar? Ora essa, que conversa de louco! Pois haveria daquilo sinhô achar que nosso homem fosse daqueles lunáticos. Mas ó, quem vive em terra assim, de miséria já feita no nascimento, fica doido mesmo é de pensar que único bem que tem para carregar no lombo é o destino! – “Sinhô aceita, hein? Tem mais uns pitos de palha no meu bolso.” −. Daí que veio aquela vontade de pitar um maço todo e se afundar nas canceragens do pulmão, porque nada mais restava para aquele homem do que morrer. – “Não, eu não fumo.” −. Sabe, do dia para noite ás vezes a gente começa a pensar em que nos causa bem ou mal e o que vai nos levar direto para o fim. E por que ele pensava nisso? E eu lá sei, hum?! Tenho minhas inferências de uma ponta de certeza, mas a concretude nem ouso ter. Pode ser que seja luz divina, aviso de que coisa vem para o futuro. Mas pode também nem ser, porque as mesmas crendices de Deus podem ser as mesmas do Diabo. Vai de quem você quer dar oferenda. – “Arrê, cê perde assim coisa boa, mas é cê quem manda viu. Diacho de tempo da secura, da mais nada nesse diapasão nosso. Ó, tinha vez que aqui fazia verdume senfim. Aí uns dia vinha pé d’água que marzava tudinho tudinho. Só que agora as coisas são assim, são secas. Se morre cabra aqui em terra, enterra esquecido porque aqui não existe. Cê pode vir de perguntância se tenho nome. Mas de que adianta? Viu, aqui as cobras surrupia lentamente nossa alma. As cobra são gente, mas as gente são mais cobra que gente humana. Vem com picadura para fazer de caboclo morto, viuvinha de puta e as terra de fazendão. Tudo morto, tudo morto aqui.” −. O que não se entende é que as pessoas jogam com a sorte no escuro. Enquanto levantamos todos os dias não sabemos o que nos espera ou aguarda por detrás da penumbra oculta do quadro teatralizante que é viver. Ele sabia que uma ideia maior estava por trás daquilo. Ora, que segunda das normalidades se abre um hospital e cai-se em terra desconhecida? Beirava entre o onírico e o palatável, eis que a vida tem gosto que varia da morbidez até de morangos silvestres (esses são tantas coisas boas que me eximo de enumerar). Recostou seu corpo em sombreado junto ao sinhô espichado e surrupiou algumas ideias daquela poeira envolta. O coração de um homem margeia um universo do desconhecido e sabe se lá que diabo a vida tem para surpresar nossos entes. – “Olha, cê tem sabidura que vai ter de escolher, né?” −. Aquelas palavras não tinham muito sentido. E viu, nada ainda tinha sentido para ele. Talvez até para você que lê não tem muito sentido. Dificilidade de escolha das palavreadas certas, mas é até lunática narrativa para autor, eis que eu já lhes confirmei: só narro por onde sei. Os pensamentos, as interioridades, as vontades poéticas de cada personagem eu quero deixar que aflorem pouco a pouco, assim até eu vou descobrir. Pasmem, mas é assim. Nosso protagonista sabia que tinha uma escolha por trás de tudo. Sabe igual dos caminhos de filosofia oriental, como um monge budista ou etc? O acaso é mais específico do que podemos ter anseio imaginante acerca dele. Meio que o silêncio é resposta para todas as perguntas. Que é, hein, que é que você acha que move mais os moinhos e monjolinhos das fazendas do tempo? Quando se tem dúvida responde-se um milhão de falsas incertezas com a palavra; enquanto estivermos vivos, a graça é nunca saber uma só resposta. Eu cresci nesse meu tempo, e digo a vocês que quando olho para meu pretérito eu ainda consigo me enxergar no hoje. Como é possível? A gente enquanto esmiúça o que nos acontece, vai vertiginando e indo em direção para o amadurecimento. Ninguém nasce fruta madura do dia para noite. O caboclo ali sabia bem disso e viu no silêncio daquele homem uma forma dele pensar na relação do que ocorria naqueles momentos. Dias, horas, minutos, segundos, sei lá quanto tempo tinha se passado desde o rise up repentino naquele subúrbio de metrópole até agora. Importava ele entender que o sol não nasce e se põe num fato assignificado. O mundo precisa de luz para florescer com suas ideias. O mocambo velho pitando o palheiro embalava então em cantiga poética.

Meu pequenino horizonte
era dia e noite para meu amor.
Meu sertão, um dia me conte
como é que se cura dessa dor?

Nessas terras sem tem fome
e a amargura é o único alimento.
Meu sertão, porque é que some
a esperança e alenta só o sofrimento?

Corre os sonhos lá no rio, de sul a norte,
das cheias das lágrima,
mas nas nascentes o que brota é a morte.

Eu sei que um dia vai virar mar…
Meu sertão, não peço esse sonho grande,
porque eu só não quero partir sem amar.
 

− “O senhor sente sede?” −.

− “Ó, sedência de que, afinal? Essa secura vai até o inenxergável. Mas eu sinto sede de beber coisa que água não dá. Essa minha secura não vai da bebida nem. Ai, as vezes as coisas perdidas fazem uma falta do tamanho do infinito! Então a gente se recolhe tartarugado, alma fica murcha e vamos desistindo até de viver. Vivo sentado aqui, olhando para o nada, que nada vai mudar.” −.

− “Mas essa sede, como é que se cura assim? Você dizer assim faz entender que a morte vale mais que a vida, de que nós, por quaisquer escolhas que façamos, estamos destinados a cair numa viela do inoportunismo e do arrependimento. Só que eu não sei, não sei mesmo. Fui extraviado do meu mundo de alguma forma, porque essa realidade que eu vivo parece não me pertencer. Só que de alguma forma, de algum jeito, eu vejo que os dois mundos são interligados, conexos entre si por uma escolha minha. A vida não é tão bela quanto a morte; é bem mais. Estar vivo é poder ter certeza que ainda há chances de cantarmos em realidade as poesias do nosso coração. Eu visiono, e sou sonhador com muitas promessas. Se eu morrer, quem é que vai realizar essas promessas?” −.

− “Vai então embora e ruma para o universo. As coisas que vivemos podemos até nem lembrar, mas foram vividas. Estão lá dentro as memórias que importam. Não essas que a gente vê como filme menteando a consciência. É daquelas memoriazinhas presentes nas vontades de abraçar e ser como flô junde palmeira enrolada. Dá aquela vontade imensa de poder ser visto por uma pessoa, numas coisa que chama de amor. Cê tá me entendendo?! Porque eu, êixa, sou velho demais para ficar filosofando vontades. Então eu cerro os olhos, pito um fumo e espero mesmo alguém vir me buscar. Mas cê, ó, cê tem chance de escolher. E vai ter uma hora!” −.

Cortaram a conversa e os buritis espalhados uns barulhos de tiro, que assustaram até mesmo os viventes d’outro lado daquele terreno. Ele se levantou, e olhava para trás identificando um grupo de jagunços apontando para sua direção, com espingardas empunhadas no lombo, gritando. – “Arrê, pega aquele cabra, é ele mesmo que tem de morrer!” −. Uma náusea foi vultuando sua visão e a realidade parecia girar, girar, girar, girar, infinitamente. Tonteava fundo e não conseguia ao menos achar fôlego para correr. Um mal estar súbito juntamente da volta daquela enxaqueca tenebrosa do início de caminhada na metrópole. –“Céus, porque outra vez isso.” −. Imaginem, pensem, vislumbre a situação. Ponho parênteses para que vocês possam deixar suas reações adiante por aqui (                                                                                   ). Eu sei, sinto assim, num frenesi de perguntas como “mas que diabos essas dorizações repentinas”. Conto com a parcimônia de vocês, e com fôlego também, eis que se quisermos decifrar necessitaremos acompanhar a corrida de nosso personagem. Escondeu-se nuns arbustivos próximos, vomitou até as entranhas e seu coração pulsava quase para fora do corpo. Estava quase estendendo a mão para morte, cansado daquilo tudo e com a esperança de que fosse apenas um sonho fugaz da realidade e que tudo voltaria ao normal. Mas sentia que estava preso naquele utópico tempo com um propósito e que não poderia contar com mais ninguém além dele para descobrir os mistérios que redomavam a situação em que se encontrava. Via o velho gritando a todo momento: − “Cê vai ter de escolher, cê vai ter de escolher logo!” −. E aquilo ele ansiava para descobrir o que e quando. Tinha certeza que era uma escolha entre a vida e a morte. As metáforas apresentadas jamais são deixadas em vão. A respiração foi ficando cada vez mais ofegante. Mesmo com a visão embaçada, conseguia distinguir logo a frente um bar, e pela janela via a figura de uma mulher que lembrava muito a garota que conheceu naquele parque de tempos atrás e que estava levando-o para o hospital. Correu e tomou forças para chegar até lá, eis que vislumbrava uma ponta de explicação para tudo. Tombou em umas pedras no chão e quando percebeu, ao momento que caía, alvejou-se alguns tiros em suas costas. Tomou impulso junto ao impacto para abrir a porta que estava perto e saiu rolando ao chão, batendo com a cara no balcão, ficando imerso a um apagão despertado por uma voz feminina.

− “Ei, ei, está tudo bem? Estava quase chamando um médico, você ficou pálido e começou a suar frio desde que sentou aqui. Daqui a pouco vamos poder visitá-lo, é que ainda não nos deixaram entrar.” −.

Um silêncio, um cheiro de éter etílico e as paredes brancas. Na lateral um cartaz de uma enfermeira que pedia silêncio. – “…” −. As reticências expressam um sentido de indignação, de raiva e ódio misturados. Procurou até por marcas de bala e até o rastro de sangue. Ali era o hospital de outrora e estava ele sentado num banco da sala de espera, deitado como se não houvesse nada de anormal na situação. – “Eu vou buscar um café, deve ter sido um mal estar corriqueiro mesmo.” −. De que adiantaria tentar explicar. Quiçá fosse mesmo uma só realidade, um devaneio lunático e estivera ele numa situação inusitada visitando um desconhecido com uma desconhecida familiarmente conhecida, mas sem saber de onde. Ele se levantou, e foi em direção a máquina de cappuccino mais próxima. Pegou o café e olhando ao redor, não notava nada de anormal ou diferente, exceto pelo fato de que percebeu que envolta de si e na sola de seu sapato havia poeira, terra seca e suas roupas cheiravam a palha queimada.

(Fim da parte II. Continua…)

 

 

 

Marco Aurelio Souza Mendes

Marco Aurelio Souza Mendes

Nascido na cidade de São Paulo, em 1994, atualmente cursa o bacharelado em Direito na Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Atua no meio literário com o pseudônimo de Aurélio Mendes. Possui uma coletânea de contos publicada pela Editora Multifoco chamada Pensamentos Singulares (2013) e uma novela política pela Editora Subsolo, Abapanema: o lugar das coisas ruins (2015). Em processo de editoração de sua terceira obra, "A manhã de J.H. e outros contos" pela Editora Subsolo, fruto da aprovação pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura (2015).

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