Acorda-te

Tem uma forma de dizermos acerca da pessoalidade: nem é nome, nem sobrenome, nem foto particular. Lembrança. As pessoas têm manias de lembrançar de tudo por duas maneiras: esquecendo ódios e sonhando na vontade assassina ou numa forma doce como os pais cantam para seus filhos dormirem em paz, porque há sorrisos que nos trazem uma presença que completa. Ele estava parado numa rua suburbana comum, no meio dia ou no meio de um dia, na anteposição cerceada do incerto. As buzinas misturavam-se aos passos, uns gritos de ambulantes e cada um com seu olhar que tinha significância do momento passado. Ele não. Dorizava uma pontuante enxaqueca com forma mórbida, porque debruçava-se num calafrio de nem mesmo saber o que fazia por lá. – “Deve ser aquela maldita ressaca.” −. Mas nosso personagem não havia alcoolpassado momento. Daí que a gente para por uns minutinhos e fica só observando. Quem nunca fez isso? Tem um transe momentâneo no videar diuturno. Passo tempo mais perto de devanear do que sendo eu mesmo em meio a hipocrisia que é extirpar um ser e fingir ser. Quiçá deveras pensa diferente? Não minta, pois vos tenho como amigo, e do feitio dos amigos eu tenho que ter sinceridade: não se pode ser feliz vivendo. Uma meta feita de alcançar impossível. Quisera eu no dia de ontem cumprido um ou outro item de uma lista supermercada para dizer que risquei dois centésimos do achismo de boas virtudes e recompensas numa prateleira. Nem é assim. Farmácia nolada em esquina fica uns dizentes com prosas de que até tentaram: deram o nome de Lexotan. Só que eu prefiro ser errante no meu furgão sem destinação. Não vulgarize resposta agora, não vulgarize! Pensar um pouco benfaz para o ego deixar ser livre um pouquinho e escolher o modus operandi que tem mais afinidade com sua alma. Esqueça o proselitismo dos bárbaros que tentam encarcerarmos com a moral! Eu pouco deixo um tabu ser fruto do controle de meu próprio ser. Algumas vezes escapa-me esse controle, mas tento mesmo viver da forma como bem entendo. When I find myself in time of trouble/ Mother Mary comes to me/ Speaking words of wisdown, let it be… Havia aquele som no fundo de ele estava fronteado sem reação. Foi andando. Na verdade, não havia muito o que fazer quando se há um apagão daquela forma e só um embrulho no estômago, e que dificilmente seria medo. Foi beindo, da forma que os ventos queriam soprar e levar rumo ao incerto. – “Céus, meu estômago parece que vai explodir!” −. Caminhou alguns passos na avenida movimentada pelo rush daquele começo de tarde e um sol costando o caminho e queimando as ideias. Precisava de um café, um pão na chapa e um suspiro sentado. Essas coisas fazem bem para tirar o sangue morto que venoseia conosco. Olhou para uma padaria que ficava na esquina da frente, botou a mão nos bolsos e percebeu que tinha uns trocados tão misteriosos como a forma em que viera parar naquela avenida ao meio dia. –“Um expresso e o misto na chapa, por favor.” −. Recostou firme naquele banco e ficou de redeolhares. Já disse que as pessoas passam a acordar e deixam junto aos seus lençóis seus desejos. Não? Ora, talvez não tenha entendido de forma clara o que eu narrei por entre as palavras passadas. Fica agora o entendimento. E não, não, eu não sou autor que vai ficar de explicações sobre o que escreve. Quando o faço, é porque achei a necessidade pertinente. – “Seu café tem um gosto, prove-o.” −. Oras, mas gosto de café, não seria isso. Aquele líquido cafeinizante que não nos permite cerrar nossos olhos frente ao cansaço. Não. Ele palatava um gosto estranho, nunca antes provado, e sentia como se aquilo não pertencesse à realidade. Ou não seria ele o irreal naquele inóspito ambiente? Dorestranhas. Porque o coração dele ora ansiava por querer lembrar de onde viera, ora queria apenas abraçar uma possível nova descoberta: ele se sentia bem; embenhar-se daquele momento era a única coisa que queria. O café tinha um gosto, ora se tinha! Adjetivações são poucas em nossos dicionários para que possamos ter a goza das palavras daquele momento. Eu vou contar. Que se podia enxergar a virtudização de cada ente que estava naquela cafeteria. Hein, quer saber mesmo? Ele sabia, sim nosso personagem estava vendo as perspectivas de cada serzinho que fazia glosas internas naquele meio de tarde. A vida e a morte são faces próximas da mesma moeda, andam juntas como cônjuges inseparáveis, viu. Eixa, um senhorzinho com o jornal e noticializava o íntimo querendo saber das boas novas. Boas longes, novas ruins. Próximo da morte, mas tão vivo! Acostumava-se a enveredar pela compaixão, eu sei. Vejo pelas suas vestes, pelo seu porte, pela sua presença e voz calada que não ousa falar, e bate forte dentro daquele peito. Temos todos essa voz. Os anos já giraram as rodas daquele senhor em inúmeros volteares. Momentos. As peças que conjuntamente chamamos isso de existência. Para aquele homem, existir já está quase sendo um passado, outrora que beira o passo ao fim e o além. O gosto daquele café, um momento. E ele reconfortava-se na cadeira e reclinava profundamente, afundando num abismo de si para si, de dentro para algo mais denso ainda. Era vivo o velho jornaleiro porque ainda conseguia sorrir apesar do fardo que carregava em suas costas, eu via isso. Beiramente ao lado, a morte pode ser conjunta de metáfora e andar sempre à procura de um drink. Ao que alguns olham para eles mesmos e se veem vazios nessa mundificância que chamamos de sociedade. Cruzam-se as pessoas umas com as outras sem um abraço. Eirra, como é que se arrasta elo sozinho sem a corrente toda? Enquanto as coisas vão deixando de ter um momento significativo, uma vontade de construir e preencher as lacunas; enquanto os homens cerceiam zumbídicos as próprias vontades e recolhem-se cabisbaixos, com feitio de medo e solidão, vão pairar rumo ao submundo do próprio cárcere. O homem sendo seu próprio lobo, vai acabar se alimentando da própria alma pelas desídias nutridas, pelo passado lembrado sem futuro, pelo viver desamado. As mãos vazias, frias e um corpo sem um resquício de sentimento, devorado pela cobiça, egoísmo e desesperança, vai chamar a morte para uma vodka com suicídio; e gelo, por favor, pois a frieza nunca é demais. Levantou da cadeira, quase fundido, por vias de que se sentia de certa maneira mais leve que o usual. Tombou com um flautista na rua, pedinte de uns trocados pela arte de sua canção. Oh, doce som. Tenho parte afinada para a flauta e piano, por vezes que gosto de ouvir uma batida tão próxima quanto aquela que vem do coração. I’d rather be a forest than a street. Marcou o trecho junto ao som tintilante da moeda que deixou junto ao chapéu do flautista. As ruas são vazias, impessoais, desnudas da virtude dos homens que sonham. Muito cinza. Nublagens afastam-me de quem realmente sou. Ele olhava para o céu e via que escurecia, formando nublagem de chuva. É que os céus têm vontade de chorar pelo desprezo. As ruas abrem veredas secas, caminhos simples, retos e que impossibilitam-nos de traçarmos nossa própria poesia de viver. Por isso eu prefiro ser uma floresta, cheia dos arvoredos que sombreiam um campo de infinitas possibilidades. As veredas da floresta nos permitem versar livres, são cheias de vida e estão abertas para nossas próprias rimas. Seu olhar pairava sobre o horizonte em sua frente, olhando fixamente para um ponto como se estivesse vendo seu próprio destino. Ele queria acenar, queria fazer algum gesto. Tudo ainda era tão confuso. Olha, as coisas emaranham em nossa mente, em nosso corpo, enlaçam-nos com dúvidas a todo momento, todo instante. Ele queria porque queria ter essa descobrição de como viera parar lá, de onde viera, por que estivera lá naquele momento. O estômago roía seus vértices de certezas. Isso é viver. Então assim a dúvida acirrava-se cada vez mais, por vias de que, deixa eu dizer bem pormenorizado, que não se tinha um meio certo para dizer se aquilo era forma de dúvida corriqueira ou uma passagem para um mundo estranho. A garota misteriava sublime nos bancos de uma praça em que a avenida desembocava. Eu me deixo flyar nas nuvens quando pensamentos obtusos tomam conta de mim. Debaixo das formas de vida, existem tantas quantas formas idênticas da morte. Ele hesitava de ir, sentar-se ao lado, porque um não sei porque dizia para ele ir até lá e esquecer das coisas passadas. Sabe o que tem entre um instante e outro? A eternidade. Nossos olhos piscam e o que foi agora se tornou ontem, e nosso presente não é nada mais que um passado. Nós vivemos em que? Vivemos cerrados em planos que traçamos sempre para um amanhã. Nunca vi, e quiçá nunca se poderá ver esse amanhã. O futuro não se compoutadoriza nessas formas de escrever formulamente. Ah, a tópica dos homens não são mais que destópicas… Êirra, olha cada singular ser que perambula por aquela cidade. Anônimos. Uma multidão de anonimar para que possamos nunca ser perseguidos e sempre sermos fruto de algo esquecido. Esquecem antes de tudo de amar, sonhar e viver. Não tem que rimar, é apenas para ser verdade. É a morte, que conquanto os homens buscam por certezas, doutrinas prontas e causos bons e ruins para seletivizarem o que é o certo e o errado, passam muito mais perto de colocarem a data de nascimento no mesmo ponto que a certidão de óbito. Por isso eu digo que a vida e a morte andam sempre juntas, casadas sem possibilidade de um divórcio, e a sociedade enquanto processo fica assim: acreditada em promessas que a faz seguir por becos diletânticos e desacreditada em ser uma própria distinção, já que ela deveria ser livre. – “Merda, meus documentos e dinheiro, mas que dia é esse!” −. Pois é, que nas delongas narrativas não foi apenas do defluxo de minha consciência que segui adiante sem um prazo ou termo. Ele atentava-se para achar respostas para bem talvez ser menos pergunta e mais sentença pronta. Daí veio um batedor de carteira e sumiu com tudo: documentos, dinheiro, relógio. Esperança. Isso ele ainda não havia achado. Correu uns cem metros sem fôlego, porque doíam todas suas juntas e partes do corpo. Doía tudo mesmo, principalmente pensar. – “Dia ruim?”’ −. A garota dos verdes olhos foi quem indagou, sentada naquele banco de praça. – “Eu acabei de ser furtado. Não tenho mais meus documentos nem dinheiro, e ainda estou tendo um dia que é difícil de explicar.” −. Deu-se conta apenas naquele momento de que parou bem de fronte para o banco que estivera observando desatento quando fora atravessado pelo batedor. Pois sabe, nos perdemos em muitas realidades a cada minuto do dia. E olha, nem é de ser estranhomem. Passam os flashes de coisas que fizemos e deixamos de fazer, ou seja, passam muitos fragmentos de tempo em nossos sentidos e percebemos que fomos muito menos do que poderíamos ser. Nem é gostaríamos, que isso já ia longe demais. Nem vemos nosso próprio potencial. – “Mas você ainda está aqui. Isso que importa. Você ainda sente. Dias difíceis, o que é facilidade se o que fica mais longe do presente. Você parece estranho e fala até de uma maneira diferente.” −. Eu acabei de fazer um exercício e peço que façam o mesmo: coloquem a mão em vossos peitos. Dois minutinhos já suficiente. Forteada. Mas ele colocava a mão sobre um vazio inexplicável. Isso fora o mais estranho e que o deixava cada vez mais amedrontado. Sentia só uma coisa agora: que tinha que estar ali, por alguma razão. A gente quer razoar a todo tempo, né? Buscamos razões para estar nos lugares como se precisássemos de um motivo para viver. Tão menos poética isso! Encontrar uma resposta para um verso escrito que quer causar-lhe lágrimas ou deixar-lhe uma dor que importou para o eu-lírico é tão igual quanto querer dar respostas para todas formas de se presenciar nas situações cotidianas. Enquanto se faz isso, dessente o prazer que pode lhe ser dado. Uma pergunta pode valer muito mais que uma certeza. – “É engraçado, eu estava pensando em vir justamente até aqui falar com você, mas não sabia o motivo.” −. – “Eu sei. Seus olhos me dizem o que seu coração aponta.” −. – “E o que seria?” −. – “Que você se sente sozinho” −. Passado longe do estranhecimento que viria a acometer qualquer normalidade que beirasse a situação, porque os dois calaram-se pelo tempo prosseguinte e sorriram de uma forma despreocupada e tão calorosa como se já fossem íntimos de longa data. A luz é sempre feita para encontrar sua parte de escuridão e preenchê-la. Não olhe para trás. Tem situações que valem a pena não serem vistas de forma completa, e deixar algumas coisas no limbo passado faz bem para nós. Eu já me deixei de ser coisificado para prosseguir como eu bem entendo pelo mundo. Ele teve uma sinapse nervosa de algo parecido naquele momento pensando em ‘quem sabe não é melhor só seguir e deixar de se embrulhar de forma doentia por uma obsessão de como fora chegar lá’. Tinha um sentimento bom pulsando em dentro de si. – “Está com tempo? Gostaria que fosse comigo visitar um amigo. Ele está muito doente no hospital, sabe como são essas coisas, né?” −. E o que ele poderia dizer. Tempo era tão relativo que uma desídia era poder pormenorizar quanto tempo tinha para cada coisa dessa vida. Tempo para o amor, tempo para a amizade, tempo para felicidade. Mas tempo para os homens resumia-se mesmo só para o dinheiro. Entre um tempo e outro há o mundo e entre um mundo e outro há um espaço. Entre um espaço e suas partes, ele existia. Plasmado no vácuo ia indo em direção aos sonhencontros. Mas ainda estava perdido. Não sabia se aquilo era uma vida, múltiplas delas, ou um encontro com a morte; essa é única. Degosto. Se debruçava em prazear por aquele momento, pelo desconhecido com uma desconhecida indo rumo a um lugar inesperado pelas viradas. Mas se sentia tão pertencente àquilo que sublimava-se de forma extasiante. –“São as simples coisas, pois você nunca irá vê-las ou descrevê-las com uma plena certeza, só que saberá que elas sempre estarão por perto e sentirá prazer nisso. O que é um verso de poesia se não um fragmentozinho de sentimento? Enxerga? Hein, pode ver?” −. Ei, eu posso, eu certamente posso. Um dia fui querer colocar no papel uma certa experiência melancólica que estava tendo, juntamente daquele cabernet savignon. Tinto e escuro como o rancor que passamos por algumas situações da vida. Então fiquei leve, levíssimo. Causei espanto até em mim mesmo. O papel pesava, era uma torrente inesgotável de lágrimas sofridas. Cada gota, um verso. Viu, ixa! Viu, né? Assim ele desceu daquela cabina de táxi e viu a moça sumir pela porta do hospital. Normalmente entrou. E era como se as coisas que importassem agora fosse apenas o momento e de alguma forma ele sabia que não era pessoa desse tipo. Que pessoa ele era? Um pragmático talvez? As coisificantes podem ir adjetivando ao longo do curso de vivermos, e vai ser assim de agora em diante. Enquanto ele não sabe, também não sei. Posso deduzir, claro. Vamos discutir apenas o momento: todo aquele embrulho de início da narrativa sobre um sorpresar ansiante de querer se colocar num positivismo existencial passou. Leve momento, mas passou. Então andou e andou e andou porque percorria muita mais que uma escada: o infinito. No ponto em que as coisas não podiam ficar mais singulares, ele abriu e sentiu não um cheiro etílico, de formol e um silêncio vindo das paredes brancas. Tinha um sol tão forte! Aos pés calejava uma terra com muitas histórias de sofrimento e o cheiro mesmo era da poeira, da aridez e de seu próprio sangue. Estava no meio de um sertão e no fundo via apenas um mocambo com árvore de sombrância na pitada da palha.
(Fim da Parte I – Continua…)

Marco Aurelio Souza Mendes

Marco Aurelio Souza Mendes

Nascido na cidade de São Paulo, em 1994, atualmente cursa o bacharelado em Direito na Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Atua no meio literário com o pseudônimo de Aurélio Mendes. Possui uma coletânea de contos publicada pela Editora Multifoco chamada Pensamentos Singulares (2013) e uma novela política pela Editora Subsolo, Abapanema: o lugar das coisas ruins (2015). Em processo de editoração de sua terceira obra, "A manhã de J.H. e outros contos" pela Editora Subsolo, fruto da aprovação pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura (2015).

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