A Afogada

Ao som de Yann Tiersen: “La noyée”.

NO INTERVALO, ENQUANTO todos se reclinavam aos ouvidos uns dos outros em constantes comentários sobre as apresentações, aproveitou, puxou-a a si, e deu-lhe o último beijo. Os dois lábios como rios em chamas. Em suas mentes apenas o gosto doce das bocas ardentes, a grande lona ao fundo, como céu, iluminava seus rostos unidos e aquele malestar no peito, coração a mil…

Pai dela na terceira fila, bigode comprido, barba por fazer, defensor dos clitóris familiares, olhar ameaçador, família dominante na cidade, tratou de providenciar seu afogamento no espetáculo seguinte enquanto o respeitável público dava urras de frenesi no show do mágico.

Por um instante enquanto seus olhos abertos viam o fundo do riacho que ladeava a grande lona, pensou que a tinha ali também ao seu lado. E a ida, cuja imagem terrível ele tinha pintado antes como um quadro de Bosch, foi tão tranquila quanto sua chegada. Relaxou os músculos que se debatiam na água. Os jagunços olhando e rindo como animais sem razão. Desceu até o leito do rio e se incrustou na pedra, âmbar, fóssil, no para sempre.

Dia seguinte pairava a moça sob a face das mesmas águas, como Deus, no princípio…

Do livro “O circo”, no prelo pela EdUFPE.

Mário Filipe Cavalcanti

Graduado em Direito pela Ufpe, advogado, escritor, autor dos livros de contos Comédia de enganos (Penalux, 2013) – Semifinalista no Prêmio Sesc de Literatura 2014 – e O circo (EdUfpe, 2015), colunista das revistas Samizdat e Página Cultural e colaborador do site Homo Literatus, já saiu pelas revistas Flaubert e 7faces. Leitor voraz e pianista retraído, é ainda algumas coisas mais e também absolutamente nada. Conheça o Blog .

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