Anatomia do Centauro

A tarde debruçou-se sobre a grama do campo. Admirou-se com a imensidão da paisagem, aquela imensidão que lhe impingia uma liberdade forjada acima da moral do homem. Os cavalos se aproximavam rapidamente da sua pessoa, galopavam como feras ensandecidas. Cavalos demoníacos, consumido cada instante de liberdade que lhes cabia. A liberdade repousa na ignorância. Por não terem sabença da sua condição estúpida estavam livres do próprio julgamento que fariam de si, se a razão lhes fosse uma realidade. Extremamente cansado de estar ali apenas observando, Gilberto se levantou e foi até os cavalos que haviam parado ante a sua imagem e que correram quando o viram se aproximar. Desejando com toda a veemência da sua paixão pelo objeto, ele correu juntamente com os cavalos, tentando alcançar a liberdade impossível que era dádiva apenas dos seres não pensantes. Tropeçou em uma enorme pedra que estava posta ao seu caminho e caiu.

Da metamorfose

Quando caiu, Gilberto identificou na pedra o obstáculo, como todo o homem que identifica nas coisas da vida as barreiras que os impedem de alcançar os próprios objetivos. Desconcertado diante da própria fragilidade enquanto animal pensante, absurdamente fraco, terrivelmente improvável a sua força, ele se envergou e encontrou a possibilidade da metamorfose na própria acusação da razão perante a sua ignorância buscada. A ação retroativa do homem fora buscar a sua animalidade. Dispôs-se a focar em suas características mais mórbidas, para achar a si mesmo. Toda a revolta contida se libertou no ato da afirmação da fera que morava em seu interior. Pouco a pouco ele foi cedendo a sua conduta e adquiriu parte da sua forma, como algo que lhe compunha. Forma essa extraída do momento da queda, no ato incontido da busca por libertação, do alcance da fera. Seria inteiro se se permitisse o arrebatamento, mas ele se conteve e tornara-se metade daquela que era a melhor parte do homem. O instante exigia que se afundasse em sua própria ignorância. Deixar-se levar por esse caminho era correr um risco. E só corre este risco quem está disposto a viver abertamente e carregar o peso da existência sem temer a verdadeira face que se esconde por trás da sombra. Temer a própria liberdade é o maior erro do homem. A falha repousa em não buscar a afirmação a partir da sua não humanidade. Ser é deixar de ser. É preciso perder-se para que possa se achar. A humanidade repousa no signo da animalidade. Ser homem é ser fera. Fora no ápice desse pensamento que ele se entregara. Abrira bem os braços e recebera aquela liberdade como se recebesse a chuva em meio a um deserto no qual caminhava há dias. Assim, tornara-se um centauro.

Da sua metade cavalo

Gilberto levantara-se da queda como se a própria razão da existência houvesse lhe derrubado. Empurrado para frente como um corpo que estava parado, todo aquele momento de ser pensante o impulsionou para um pensamento uno que lhe asfixiou da memória as causas e as consequências. Amarrado a sua própria imagem ele percebeu que aquele momento, o espaço de tempo entre a procura da liberdade, levantar-se e correr, e a queda canalizava toda a vontade de viver incrustrada nas brechas abertas no tempo para a sua figura. Abriu a boca como se exclamasse o próprio horror pela descoberta, pela vida que lhe escorria das veias e que fazia com que os seus membros se movessem, e a sua conduta se manifesta-se, levando cada parte de si mesmo a um momento de epifania que lhe parecia eterno. Fechou a boca como se caísse uma segunda vez, e deu-se conta da própria verdade que era a sua invenção, a sua maneira de tentar justificar os fatos que se sucediam em sua vida.

Os cavalos que corriam no campo miravam-no como se reconhecessem no seu olhar o mistério, a busca, a confirmação. Ele precisava ser salvo. Salvo da própria individualidade. O quê guiava aqueles animais era a própria incerteza de estarem vivos, a existência se confundia com o próprio ato de viver, e não pensar em como proceder diante de cada situação era a origem daquela liberdade, a origem de toda aquela terrível e prazerosa liberdade.

A nevoa acariciava-lhe a face. Nevoa? Nevoa vinda de dentro dele próprio, como toda aquela pachorra que lhe inquiria a resolução do mistério. O mistério estava aberto a sugestões. As ações vindas de fora, moviam os seus sentimentos, e o reflexo da sua imaginação, da construção corpórea da imagem do objeto, imaginação composta, foi-se pouco a pouco apoderando-se do seu âmago. Pego de surpresa como se fosse uma presa e não esperasse pelo toque, percebeu quê um dos cavalos viera até ele e parara atrás dele. Virou-se vagarosamente com a intenção de identificar aquilo que lhe perscrutava e adivinhou na forma do animal a confirmação do que ele era. Novamente como se tivesse a certeza da constatação do horror, abriu a boca e seu grito fora um silêncio tão insustentável que o animal assustou-se, relinchou e pôs-se de pé sobre as patas traseiras, olhando dentro dos olhos do homem afirmando a sua definição, confirmando a sua suscetibilidade, a sua própria imagem, como se refletisse no espelho ou no porta retrato a foto, a figura, a imagem.

Os sentidos do homem se abriram ao ouvir o relincho do animal e pouco a pouco ele foi se dando conta da forma que o tomava. Primeiro, sentiu como se as pernas ganhassem mais pelos com o passar do tempo, depois um enorme rabo confrontando a sua masculinidade rasgou sua calça deixando a mostra seu anus que sangrava, como sangrava seus olhos, sua boca, seus ouvidos. Oh, mas o quê acontecia consigo? E então caiu novamente no chão, e viu que seu corpo tomava a forma daquilo que ele mais almeja, a forma daquele que detinha a liberdade nas mãos. A dor que esfolava a sua individualidade exigia-o o grito e quanto mais ele gritava sentia a deformidade do seu corpo. Até que ainda caído no chão, deu-se conta da mudança que havia ocorrido abaixo da sua cintura, havia se tornado um animal. Havia se tornado um centauro.

Da curiosidade do homem

Doutor Frank o observava com curiosidade. Havia recebido a ligação às duas horas da manhã, e precisou imediatamente chegar ao laboratório para ter a certeza do que lhe falavam através do objeto eletrônico. Os olhos dos dois homens se encontravam enquanto Dr. Frank tinha a visão daquilo que era improvável se ele não estivesse vendo. No seu germe Gilberto ainda era um homem. A sua animalidade estava aflorada, parte de si era de uma liberdade constrangedora, outra parte se retraia em si mesmo não deixando a mostra quem realmente era. Mas ele por si só já estava a mostra. Metade homem e metade cavalo, aquela era a sua realidade agora.

Dr. Frank ficara terrivelmente intrigado com aquela figura. Não sabia ao certo do quê se tratava, talvez fosse mesmo um centauro como os das lendas gregas, ou talvez fosse apenas uma experiência que não havia dado certo. Em partes as duas teorias estavam certas. Em sua forma, ele era como o centauro das lendas gregas, em seu âmago uma experiência da vida que havia sim, dado certo, o quê contrariava toda e qualquer teoria do Dr. Frank.

O centauro era mantido preso em uma jaula enorme. Toda a sua liberdade fora um enorme fracasso, pois ao se dar conta de ter conseguido aquilo que almejara naquela tarde, Gilberto fora se mostrar aos homens no intuito de fazê-los querer serem como ele. No entanto o homem em toda a sua não-ignorância decidiu temer aquilo que não pode explicar, e então o centauro fora capturado e levado para um laboratório.

Durante a manhã Dr. Frank se aproximou de Gilberto tentando manter algum contato com ele, mas o centauro estava enclausurado em sua própria derrota, em sua inquietação que havia lhe abandonado. Dr. Frank disse-lhe algumas palavras, mas não obteve respostas, assim deteve-se apenas na observação e monitoração da criatura através dos aparelhos eletrônicos. Ele sabia o quê iria acontecer, os outros cientistas, muito provavelmente fariam uma autopcia naquele ser no intuito de buscar respostas para as suas indagações. Os homens matam para resolver seus mistérios, mas Frank era de uma corja de altruísta não muito comum no meio. O centauro percebendo a verdadeira face do Dr. Chorou ao se dar conta de quê naquele ser encontraria um amigo e uma forma de se libertar.

Os dias se passaram e o centauro permanecia preso naquele laboratório, até que chegou o momento. A fuga estava arquitetada. Frank sabia que tinha que libertar aquele ser, uma nova raça dentro da própria raça humana. Quando a noite chegou o centauro resignado em seu próprio sono acordara quando ouviu que alguém lhe chamava. Frank pediu para que fizesse silêncio e assim o libertou. A atrocidade não seria mais cometida.

Da raça criada dentro da própria raça

Eles viram o sol nascer juntos.

– Entregue-se como eu me entreguei, a isso chamo de liberdade.

– Como?

– Não se deixe levar pelos conceitos morais da humanidade, aqui, em nós – disse lavando a mão ao peito. – existe muito mais do quê eles supõem encontrar.

– Eu não sei… Eu não sei…

– Olhe para mim, eu sou um centauro.

Frank perdeu-se no olhar do centauro e como se buscasse naquele ser a sua própria liberdade, beijou-o inquirindo aquela forma o remédio para a sua humanidade. Depois do beijo, ao abrir os olhos, ele era também o centauro. Olharam-se como se a missão estivessem cumprida e viram o sol nascer juntos.

Buscada a liberdade eles iriam atrás daquilo que não tinha nome, eram dois, e por assim dizer começariam uma raça dentro da própria raça humana.

Marcos Welinton Freitas

Marcos Welinton Freitas

Baiano do Bravo/Serra Preta. Graduando em Economia pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Escritor: poeta e contista. Publicou os livros “Poesia proibida” (Editora Multifoco/RJ, 2012) e “Badalos do século XXI” (Editora Penalux/SP, 2013). Comanda o blog Para Lavar a Alma.

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