Arremesso de anão

Tudo bem que é humilhante, mas é bem pago. E por pagarem bem, fica mais fácil você aceitar e se acostumar com a coisa. É estranho, nos primeiros tempos, você permitir que qualquer marmanjo te pegue pelos fundilhos e te arremesse o mais longe que puder como uma bola de boliche (para quem não sabe, o objetivo do jogo é lançar o anão o mais distante possível da linha de arremesso, numa disputa que envolve dois ou mais participantes).

Além do desconforto, há sempre um certo grau de risco envolvido. Teve um dia que fui parar no pronto-socorro, por conta de um sujeito que, ao invés de me arremessar pra frente, me jogou pro alto. Depois de voar a uns cinco metros de altura, acabei caindo fora do colchão de amortecimento e fraturei duas vértebras. É doído, admito, e aterrissar de mau jeito faz parte do negócio. Porém, quanto à grana, não tenho do que reclamar.

Em algumas regiões surgiram variantes da prática, como o arremesso em cesta de basquete. O duro, nessa modalidade, é quando a gente fica girando no aro até ser encestado. Você cai zuretinha no chão, e antes que possa recobrar os sentidos já tem outro globetrotter te encestando de novo. Pior ainda é se resolvem arriscar um arremesso de 3 pontos e erram. Aí é punk, porque ou você despenca no chão da quadra antes de chegar à cesta ou dá aquela cacetada na tabela. Uma vez a porrada foi tão forte que espatifei o vidro. E quem ganhou 3 pontos fui eu – na testa.

Conforme as disputas vão acontecendo e conquistando espaço na mídia, a prática vai ganhando cada vez mais adeptos. Quando é campeonato mundial, são necessários muitos anões para arremessar, e todos tem que estar exatamente com o mesmo peso, para a disputa ficar equilibrada. Antes de começar a prova, alguns anões são postos pra vomitar ou esvaziar a bexiga, enquanto outros são forçados a engolir quantidades industriais de leitoa assada, cupim, boi no rolete e outros tira-gostos frugais. O juiz da prova fica enfiando comida na nossa goela e botando a gente na balança, até atingirmos o peso certo. Depois já começa a prova, não dão nem dez minutos pra fazer a digestão. É desumano, mas regiamente remunerado.

Outro atrativo da profissão é que ela acaba te abrindo um extenso network, o que inclui novas oportunidades de business. Um bom exemplo é a Dwarfs Throw, uma rede de franquias de casas noturnas especializadas em arremessos de anões, com matriz na Austrália. Embora não estivesse na qualidade de franqueado, e sim de anão arremessável, para mim foram quatro anos de realizações, amizades, gargalhadas… e hematomas, evidentemente. Mas valeu muito a pena: ganhava o mesmo que um senador em Brasília, incluindo as verbas de gabinete. O dono da franquia, um “armário” de 2,15m, já era meu parceiro de outros tempos, quando eu e ele nos apresentávamos em um circo mambembe. Éramos uma dupla: o maior anão do mundo (ele) e o menor gigante do universo (eu).
Antes disso, trabalhei por oito intermináveis meses como roto-rooter humano em tubulações de esgoto de Kansas City, numa rotina um tanto quanto desgastante, insalubre e mal paga. Mas tudo bem: temos que passar pelo purgatório para chegar ao paraíso.

Foto: http://www.vice.com/pt_br/read/uma-introducao-ao-arremesso-de-anoes

Marcelo Sguassabia

Marcelo Sguassabia

Redator publicitário, pianista diletante, beatlemaníaco desde sempre e amante de filmes e livros que tratem de viagens no tempo.

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