Do artifício à arte – ofício

Após sofrer um acidente com fogos de artifício e perder a mão direita, Gancho se viu impossibilitado de seguir como metalúrgico. Desde então, dedica-se a inventar e executar artefatos de couro.

Criou suas próprias ferramentas de trabalho, adaptou uma máquina de costura e construiu outros utensílios apropriados à sua criação, pesquisou material e cunhou uma nova profissão: artesão de acessórios de couro para o corpo.

Sua especialidade são cartucheiras com volumes, cores, texturas e formas variadas; peças inéditas que carregam uma estética neo-hippie, (poderia ser neo-tropeiro aqui), das mais contemporâneas.

Suas cartucheiras são como uma segunda pele: descem pela perna, expandem-se pelo quadril e remodelam o corpo de quem usa. Algumas possuem desenhos pirografados, como uma tatoo, outras simplesmente mesclam diferentes tipos de couro.

Os adeptos da cultura trance são os que mais adquirem suas peças.

Os tranceiros praticam o amor à natureza, o exercício da tolerância e promovem grandes festas ao ar livre ambientadas por música lounge, eletrônica e indiana, como a Sansara Trance Festival de Minas Gerais . Nestas festas o conforto é essencial e as cartucheiras úteis para carregar o celular, o cigarro e uma barra de cereais enquanto se dança .

Soldados da paz. Tranceiros. New Cangaceiros. Naturebas. Artistas. Motoqueiros. Neo-hipies. Cawboys. Designers. Sertanejos. Agroboys. Peões. Artesãos. Hypes. Psicodélicos.

Visitar a loja – ateliê do Gancho em Uberlândia pode se converter em uma experiência de ordem estética . Observar a sobreposição e o patchwork de couros variados e seus grafismos, ou a decoração da loja que inclui uma pequena coleção de quepes de exército, pendurados no canto da parede, proporcionam uma quebra na rotina do olhar. Um estranhamento que pede contemplação. O próprio Gancho sempre é muito receptivo ao olhar “desinteressado” e gosta que os visitantes de sua loja “degustem suas peças”.

[1] Rua Santos Dumond , 517 , sala 5 . Na Galeria do Teatro Rondon Pacheco , telefone 91240611.

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Luciana Arslan - Artista e pesquisadora, reside em Uberlândia, onde é professora do Departamento de Artes Visuais da UFU e responsável pelas ações educativas do Museu Universitário de Arte de Uberlândia-MUnA.

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2 Comentários

  1. Vou ter que dizer aqui, de novo, pq adorei esse seu artigo, Luciana.

    Gente desatenta e reclamona tem em toda parte, aqui em OverLand não é diferente. Às vezes é necessário um olhar paulistano como o seu para revelar à própria cidade suas riquezas, despercebidas pela maioria dos nativos que só fazem dizer que aqui não há nada, não há possibilidade de nada, que nada acontece ou acontecerá. Acontece que cada um fala do que tem – o vazio vem de dentro pra fora. Um conteúdo só se revela quando encontra outro.
    Obrigado e continue, por favor.

  2. Que bom é ver você vendo! Uberlândia: pessoas e lugares tão reveladores! A generosidade do seu olhar, não cabendo apenas em si, transborda na multiplicidade, na diversidade, sem perder o foco, a linha, e as tantas figuras reveladas em sua lente/palavra. Lembro de Merleau-Ponty: “Ver é mover-se”. Nesse seu novo movimento de vida, sua visão parece revelar e tornar mais consciente um pedacinho a mais desse grande corpo chamado Brasil. Se o olhar do outro confirma nossa Identidade, nesse seu diálogo corpo-c-idade, algo cresce e amadurece em ambas as partes. Obrigada, Luciana, por nos permitir participar de longe, vendo, sentindo…

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