Exposição Figuras de Luciana Arslan

Excepcionalmente, neste mês, publicarei na minha coluna um texto de outra autoria.
Marco Pasqualine de Andrade escreveu uma crítica sobre a minha exposição que estará aberta até o dia 30 de abril .
Este texto é o melhor convite que posso fazer a todos os leitores do Página Cultural, para que visitem a minha exposição na Galeria de Arte Lourdes Saraiva Queiroz – Oficina Cultural.

Luciana Arslan – Figuras

por Marco Pasqualini de Andrade

A figura. Segundo o Dicionário Houaiss, substantivo feminino. Forma exterior, contorno externo de um corpo, traços gráficos que representam alguém ou algo (real ou imaginário), imagem que acompanha um texto, forma vislumbrada, símbolo, alegoria, ideia.
A figura acompanha a trajetória artística de Luciana Arslan. Formas densas, gravadas, matéricas, compostas por linhas insistentes, por vezes “sujas”. Anotações gráficas dos processos de pensamento e a plasmação de sensações em formas. Bordados rudes em leves tecidos. Acima de tudo, desenhos, compostos de imagens e grandes “vazios”, no frágil papel japonês, ou carregados de tinta, e dispostos sobre placas de fibra de madeira.
O hibridismo das imagens é flagrante. Há uma empatia e gosto por certos imaginários desconexos: livros pedagógicos voltados à mulher, estampas e filigranas turcas, esquemas anatômicos e de movimento de corpos para a dança. O fantástico emerge de modo natural, como decorrente de estados de alma em transe, ou um transbordamento emocional incontrolável e contínuo.
Por vezes, nos vem à mente afinidades inevitáveis: Leonilson, Frida Kahlo, Louise Borgeois, David Salle. Natural para um artista cosmopolita. Referências fortes que construíram repertórios e paradigmas originais, que se entrelaçam no rizoma contemporâneo e compõem camadas de textos significantes, disponíveis, embaralhados. Difícil precisar se é possível o código, ou se estamos diante do incomunicável e incompreensível.
Que quer nos dizer Luciana Arslan? Haveria um fio de lógica discursivo que nos desse uma pista de suas intenções? Seria suficiente raciocinar sobre a complexa condição da mulher e de suas relações vitais? Estamos diante de um paradoxo entre a cultura ancestral e o clichê pós-moderno?
Mais do que afirmar, incitar ao percepto. Afinal, é necessário o mergulho da imagem no líquido real. A experiência única, mesmo decorrente da ideia, do conhecido, do memorial. A sujeira é imprescindível, pois nos indica que a utopia não é possível. O silêncio, o vazio, o branco não existem. Mas há o foco, o timbre, a forma.
Sobretudo, há a rede de linhas, que interligam corpos, entranhas, figuras. O fluxo talvez seja a chave: mancha que se espalha e fagocita o que está ao redor. O arabesco e a espiral do ornamento são ganchos, armadilhas de prender , assim como os pelos, cabelos, novelos. Mas também o vômito, o sangue, as excreções viscosas e pegajosas, que mesmo em situação de repulsa são também sedução.
Nesse emaranhado, a significação só pode ser de síntese. Nada de leituras diacrônicas e lineares. Nada de pré-juízos. Contemplação e gozo. Permanecem as figuras.

expoarslan

Luciana Arslan – Figuras
Visitação: até 30/04, 2ª a 6ª, das 12h00 às 18h00
Local: Oficina Cultural
Praça Clarimundo Carneiro, 204
Fone: (34) 3223-4996

Luciana Arslan - Artista e pesquisadora, reside em Uberlândia, onde é professora do Departamento de Artes Visuais da UFU e responsável pelas ações educativas do Museu Universitário de Arte de Uberlândia-MUnA.

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2 Comentários

  1. “Formas (…) matéricas”; “linhas insistentes”; “plasmação de sensações”; “clichê pós-moderno”… que seria das artes plásticas não fossem os neologismos…

  2. Muito bacana a iniciativa. Com certeza algo que vale a pena ser visto.

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