Fernanda Amaro apresenta Andare Spasso

Talvez a chave para adentrarmos a exposição Andare a Spasso, de Fernanda Amaro, resida no desejo de lermos seu Travelog, constituido de materiais que partilham algumas impressões desencadeadas por um deslocamento intercontinental. O estímulo para se refletir sobre a geografia contemporânea e seus rebatimentos na corporeidade dos habitantes das cidades encontra-se alinhavando a conjunção de roteiros que os olhos da geógrafa nos dão a presenciar.
A enunciação de um discurso geográfico em meio a processos artísticos coloca-se justamente na experimentação da consistência das convenções mais clássicas da geografia, enquanto uma manipulação de pontos cardeais e invenção de desvios, roteiros e deambulações. Tomando a deambulação como procedimento de investigação espacial a presente exposição propõe construir um relato de expedição a partir do infraperceptível, algo possível de apontar a relação de afetos com horizonte tectônico que nos é comum.
A trama de uma infrageografia, vetores que convergem para as sensações que escapam de tornarem-se coordenadas estáveis, nos levam de encontro a fragmentos. Infrageografia que se sedimenta processualmente, notas sobre roteiros errantes, envolvendo-se no abrigo da linguagem performativa que nos impede de separar a proposição artística de conteúdo geográfico.
A prática da vinculação de geografias experimentais, corporificadas e sensoriais pode ser percebida em trabalhos anteriores de Fernanda Amaro, como a vídeo-dança Enveredados: experimento cinestésico-geográfico, em parceria com Castor Assunção, que integrou a exposição coletiva Do Local ao Lugar em setembro do ano passado na Galeria Ido Finotti e outros trabalhos anteriores de dança contemporânea, improvisação e performance em espaços públicos, quando se constituía membro do grupo de dança contemporânea Maria do Silêncio dirigido por Wagner Schwartz.
Na academia, realizou intercâmbio entre a Universidade Federal de Uberlândia e a Universidad Autónoma de San Luis Potosí, onde cursou um semestre de Antropologia. Fato que a impulsionou a viajar pelo sul do México e Guatemala. Desde então, realiza a pratica da escrita em caderninhos, que são uma mescla entre diários de campo e livros de artista, além da fotografia que sempre a acompanhou nos seus deslocamentos. Mas foi sobretudo em intercambio posterior para a Escola de Bellas Artes Artes da Universidad Politécnica de Valencia, Espanha que lhe produziu uma subjetividade singularizada pelo modo de enunciar seu corpo em paisagens extrangeiras.
Em Valencia, Amaro cursou o atelier de Escultura como Comportamento com o professor Bartolomé Ferrado, contemporâneo e parceiro dos membros do movimento Fluxus, além das disciplinas Direção Fotográfica para Cinema e Vídeo-arte.
As imagens de transeuntes anônimos retratados no Marrocos sem permitirem-se estancar perante a fotógrafa indicam um relato sobre o tempo dedicado ao ato fotográfico. Um instante e o sujeito fotografado escapa no fluxo ordinário e cotidiano das ruas. No período histórico em que nos encontramos, este em que arriscar-se no campo das práticas performativas transparece urgente, a geografia fabricada por estas fotografias expõe-se enquanto espectros, corpos fugidios, que também tomam para si o gesto ambulante, desafiando a fotógrafa a perceber seus corpos desfocados sob borrões, marcando passos.
A “Pequena História da Fotografia” escrita por Walter Benjamin nos ajuda a compreender que estamos a presenciar um modo de relação com as imagens, que se difere bastante da ontogênese da fotografia, num contexto em que se demandava do sujeito fotografado a lentidão e a pausa. Já nas fotografias digitais que Amaro encaixa intencionalmente no microcosmo de uma reminiscência, o ato fotográfico usa do movimento do outro como ignição do dispositivo visual, explorando em que medida podemos reverter a reprodução das imagens. O modo de expor fotografias constituídas na relação anônima entre fotógrafo e modelo, que brotam enquanto sintomas do fluxo associado às imagens digitais, usando de um suporte datado de outro período da fotografia, os monóculos, fazem parte do jogo cognitivo que a performatidade instala no âmbito da exposição.
Enquanto um dispositivo infrageográfico, arquitetado, sobretudo de princípios sensoriais que se organizam numa linguagem fragmentaria por ser processual, borrando a fronteira entre arte e geografia, a exposição se completa com a poesia concreta que nos rodeia, os objetos achados que amplificam uma sinalização delirante que cada dia que passa esquecemos de nos orientar através dela: um objeto-rizoma entre a rua e o rio nos retorna ao fluxo vago e deambulante, liquidez de coordenadas, desvio de referências objetivas.
Já no vídeo Labirinto acompanha-se uma ação de Amaro em parceria com Fabrizio Postetad na Praça Catalunya, em Barcelona. Este vídeo partilha o relato da confecção de um micro labirinto em um território marcado pelo consumo imediato oferecido pelo turismo. A marcação sobre o solo da praça vai, gradualmente, instalando a possibilidade do desvio e da deambulação num espaço de corpos em consenso pela passividade. Esta ação urbana aponta uma influência do trabalho de uma das pioneiras da performance na Espanha, a artista Esther Ferrer. Percebemos que a construção de infrageografias também decorre em apropriação do outro, este horizonte apresenta-se como um desafio de integração da prática performativa ao cotidiano nos espaços públicos.
Escrito por Thiago Costa, performer e urbanista.
Serviço
Exposição “ANDARE SPAÇO”
Artista Fernanda Amaro
Abertura 27 de janeiro de 2011
Até 29/02/2012 – segunda a sexta das 12 às 18h
Sala de Experimentações Visuais
Casa da Cultura
Praça Coronel Carneiro, 89
Bairro Fundinho – Uberlândia/MG
Entrada Franca
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excelente! tramontana viaja para descobrir sua geografia