A cadência secreta do samba

Por Alessandra Leles Rocha

De fato não gosto de Carnaval. Não gosto desse Carnaval pretexto para todo tipo de excessos e insanidades que na verdade, para ser o que é, nem precisaria de quatro dias no calendário para existir; qualquer dia estaria de bom grado. Entretanto, me fascina e emociona o Carnaval que faz da via pública um palco de espetáculo. Sim! O maior espetáculo da Terra que orna de encanto e magia aquele que faz e aquele que assiste.

Trata-se de uma fabrica de sonhos a transformá-los em divina realidade. Esses operários do imaginário talvez nem tenham consigo a consciência de que nessa missão apontam para suas comunidades a maior arma do progresso: a cultura. Cada feixe de ideia conduz essa gente à leitura, a pesquisa profunda, que lhes trará as informações decodificadas do enredo escolhido. É certo que nem todos acompanharão de perto essa etapa inicial, mas de forma indireta estarão recebendo doses de cultura importantes para que suas mãos e braços possam traduzir a genialidade criativa de uma linguagem não verbal. Impressões e compreensões de gente simples; mas, que tem no Carnaval, a mola propulsora na ampliação de seus conhecimentos e de suas habilidades artísticas.

A apresentação de arte e cultura, gestada distante do requinte e do luxo dos teatros e casas de espetáculo, se agiganta além da essência. É a arte além dos limites! Lixo transformado em luxo, sem desperdícios. Criatividade à flor da pele, inventando e driblando quaisquer inconvenientes. Beleza que nem o dia, nem a noite, nem o sol e nem a chuva hão de ofuscar. Detalhes reais e fictícios, segredos que os olhos e a mente não conseguem decifrar. Esse Carnaval representa o trabalho com desenvolvimento de mão de obra altamente qualificada, a geração de renda, lazer e turismo dentro e fora das comunidades, a comunhão do garimpo intelectual realizado na estruturação do enredo com o restante da população que muitas vezes desconhece o assunto, a exaltação da diversidade cultural e artística brasileira diante dos olhos estrangeiros que vem conhecer essa face do país.

Não há como não se render! Nesse palco sem cortinas, cujos artistas se dão além dos ensaios; o Carnaval justifica sua existência. Aprendemos sobre a vida no repique da euforia que ela mesma quer exaltar. Personagens, histórias, personalidades, fatos; o ontem, o hoje e o amanhã saltam dos livros para nos dar as mãos e nos fazer abrir os olhos. Depois de tantas pesquisas, que nem nos demos ao trabalho de fazer por conta própria, a experiência pede passagem para nos conduzir pelo que dizem os confetes, as serpentinas, as alegorias e os adereços. Durante quatro dias, alheia a nossa vontade, a cadência secreta do samba derrama sobre nós uma avalanche de conhecimento que de alguma forma nos faz sair diferentes, ou pelo menos com a mente mais ampliada.

Alessandra Leles Rocha - Natural de Uberlândia, Minas Gerais, onde se graduou Bacharel em Ciências Biológicas (2000) e Mestre em Geografia / Área de Concentração: Análise, Planejamento e Gestão Sócio-Ambiental (2003), pela Universidade Federal (UFU).

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