A dança no tempo da maturidade

“…o Festival mais deu do que recebeu da cidade. Há reconhecidos esforços no sentido de devolver ao evento a amplitude que ele já teve um dia”

Começou 28 de outubro a 21ª versão do Festival de Danças do Triângulo. 21 anos (excluindo aqui aqueles em que o evento não aconteceu) seria um número para a reflexão sobre a maturidade. Um dos maiores acontecimentos culturais de Uberlândia chega à idade adulta ainda buscando pelo seu crescimento e pela vontade de retornar à visibilidade e mobilização que já teve um dia.
Comparando ao similar de Joinville, com o qual já esteve equiparado em nível de tamanho e de qualidade, Uberlândia sai hoje perdendo. Não no sentido dos esforços empenhados e do esmero na apresentação de conteúdos, mas no fato de a cidade não responder da mesma forma que a turística catarinense. Por aqui, ao contrário de lá, a cidade não “respira” dança no período do evento.
A lógica manda que uma proposta cultural dessa magnitude mobilize a todos: o comércio busque os apelos visuais e estéticos para se compactuar com a arte e atrair consumidores; a vida noturna se altere para acentuar a dança e evidenciar a arte; profissionais autônomos criem propostas paralelas que caminhem junto com a programação oficial; a cidade, enfim, entre em um movimento cujo ritmo seja a importância deste encontro de bailarinos e a formação de plateias que ele poderia desencadear.
Isso por aqui, lamentavelmente, não acontece. Durante todo esse período, o Festival mais deu do que recebeu da cidade. Há reconhecidos esforços hoje no sentido de devolver ao evento a amplitude que ele já teve um dia.
Quando há quase três décadas a associação de escolas de dança da cidade teve a iniciativa de promover este encontro, a ideia já nasceu grande. Vale destacar aqui a importância que as diretoras Elizabeth Brito e Lizette de Freitas tiveram no contexto. Beth ainda milita na área. Lizette, já falecida, foi uma das grandes pioneiras do setor. Por ela passaram os principais nomes da dança em Uberlândia, hoje veteranos que se tornaram multiplicadores das sementes que ela plantou. E que perpetuaram para as novas gerações valores e conceitos que ela disseminou.
E nisso reside a importância do Festival. Em prolongar a vicissitude da dança. Em arremessar com passos largos para o futuro os movimentos que traduzem a vulnerabilidade do ser. Como o ser, o Festival também é vulnerável. Há um exército de agentes culturais tentando garantir a sua longevidade. Só falta agora a população “respirar” o que a arte propõe. E na coletividade buscar a sincronia dessa respiração.

Carlos Guimarães Coelho - Jornalista e produtor cultural. É autor de duas obras: “Crônicas do Interior - Retratos de Minas” e “Nau à Deriva - A História do Teatro em Uberlândia (1908-2012)”, esta última ainda no prelo.

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