A Direita Ruge

Por Luís Bustamante

No último dia 15, o candidato tucano à Presidência, José Serra, acusou o governo Lula de promover uma “frenética partidarização do Estado brasileiro e de criar uma república sindicalista”. Quando isso foi dito antes? O termo “república sindicalista” foi criado em 1953 pelos políticos da UDN, pouco depois da reforma ministerial de Vargas. Naquela ocasião, o governo desgastava-se com a alta inflação e uma onda de greves. O presidente, na tentativa de resgatar o apoio dos trabalhadores, nomeou João Goulart, político próximo dos sindicatos, como ministro do trabalho. Entre outras medidas, Jango anunciou, em fevereiro do ano seguinte, um aumento de 100% para o salário mínimo. Foi o que bastou para que a direita udenista e militar urdisse a tese da “república sindicalista”, um suposto plano getulista/trabalhista de instalar, no Brasil, um governo controlado pelos sindicatos e inspirado no peronismo, ante-sala da comunização do país.

A tese da “república sindicalista” foi reavivada pela direita udenista-militar entre 1963 e 1964, quando Jango, já então presidente, anunciou as Reformas de Base. A denúncia da suposta conspiração ganhou contornos de histeria coletiva, com o apoio da grande imprensa – especialmente os jornais Tribuna da Imprensa, de Carlos Lacerda, O Globo, Estado de São Paulo e Folha da Manhã, hoje Folha de São Paulo –, do clero católico conservador e de setores do empresariado. Parte da classe média urbana também se deixou influenciar pela gritaria direitista e passou a temer o improvável cripto-comunismo janguista. Todos conhecemos o desfecho dessa história, ocorrido em 1º de abril de 1964.

A ressurreição da “república sindicalista” na fala de Serra é sinal de mudanças de rumo e de tom na campanha oposicionista. Em fevereiro, a coligação PSDB/DEM tentava emplacar a idéia de que a biografia, experiência e competência do tucano, comparadas às da petista Dilma, favoreceriam o primeiro. Mas o discurso da candidata governista – a de que sua eleição seria a continuação do governo Lula, que conta com 80% de aprovação popular – teve mais sucesso, e alimentou a subida da petista nas pesquisas entre fevereiro e julho. Nas últimas duas semanas, o comando da campanha tucana resolveu apostar numa nova idéia, a de que a vitória de Dilma significaria a vitória do PT e seus radicais chavistas, castristas e comunistas.

A capa da revista Veja de 14 de julho – uma apavorante hidra vermelha petista, soltando fogo pelas ventas, com as garras sobre a manchete: “o monstro do radicalismo: a fera petista que Lula domou agora desafia a candidata Dilma” – evidenciou a guinada para a direita da campanha demo-tucana. Um dia depois, Serra proferiu o discurso da “república sindicalista”, e há dois dias, o vice de Serra, Índio da Costa, acusou o PT de manter ligações com as FARC colombianas e o narcotráfico. A declaração do deputado do DEM foi confirmada por Serra e amplamente repercutida por manchetes do Estado de São Paulo, Folha de São Paulo e o Globo, ontem e anteontem.

Em curso, há uma tentativa de criar pânico, de gerar uma histeria macarthista sobre a fantasia de uma Dilma radical comandando uma “república sindicalista” castro-chavista. A ressurreição dos velhos fantasmas da direita brasileira se deve menos à desesperança frente às chances de Serra, e mais à ausência de um projeto oposicionista consistente. Ante a falta de alternativas, resta-lhe a retórica ideológica.

Trata-se de um desespero semelhante ao que assombrou o lacerdo-udeno-militarismo em 1964, ao constatar o crescimento do PTB a cada eleição e no interior do movimento sindical. Naquela época havia, para a direita, a alternativa do golpe, algo que, felizmente, desapareceu do cenário político brasileiro. Não por falta de quem queira fazê-lo, mas pela solidez das instituições democráticas. Volta e meia, pipocam ameaças de putches brancos, ao estilo hondurenho, vindas especialmente de setores da magistratura. Há três dias, por exemplo, a procuradora Sandra Cureau ameaçou cassar a candidata Dilma e o presidente da República porque o último citara o nome daquela na inauguração de uma obra do PAC. A procuradora mostrou-se bem menos diligente quando, no dia seguinte, o governador paulista, Alberto Goldman, elogiou Serra num outro evento. Tais intimidações, contudo, não devem ser levadas a sério.

O detalhe irônico é que o candidato tucano, hoje algoz, já foi vítima da teoria da “república sindicalista”. No comício da Central do Brasil, no dia 13 de março de 1964, Serra, então presidente da UNE, estava ao lado de Jango quando ele anunciou o início das Reformas de Base. Após o golpe militar, Serra teve de se exilar, assim como centenas de outros brasileiros. Ao retornar, com a abertura política, em 1979, Serra se filiou ao PMDB. Nos anos 1980, foi um dos fundadores do PSDB, um partido que, em seus primórdios, contava com figuras como Mário Covas e Franco Montoro e se identificava com a social-democracia européia. Por toda essa trajetória, seu discurso atual, carregado de ranço direitista, não deixa de ser surpreendente.

Luis Bustamante - Médico pediatra do Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia, doutor em geografia pela USP, professor de história do Colégio Nacional e autor dos livros "A Oeste das Minas" e "Triângulo Mineiro, do Império à República".

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1 Comentário

  1. Ótimo texto! Esclarecedor.
    Parabéns.

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