A Filosofia está na fila

Aconteceu outro dia, no restaurante da escola em que lecionava. Cantina de estudantes migrantes; funcionários a dobrar o período de trabalho; professores com carga a não permitir a ida ao lar para o almoço, enfim, toda sorte de arreados pelo relógio. Até mesmo alguns ociosos afinal, que mérito teria os que se desdobram em “n” atividades não fosse o fiel dicotômico do ócio?

Pois sim, ainda eu a mear o almoço, sem a pressa do próximo horário, podendo exercitar a observação, quando o que há de gente na fila para o acerto da conta chama-me a atenção. Atenta-me não a fila em si, a qual, como a qualquer brasileiro, causa-me desconforto, mas ao que a língua viva em sua extensa sabedoria vulgar denominou de “carteirada”.

Vejo a Química com soluções nada ortodoxas, a Física em movimento acelerado e não uniforme, a razão Matemática em razões apropriadas, até mesmo a Geografia precipitada e alguma História contada. Todas cobertas por justificativas acertadas nos ponteiros do relógio. De todas as matérias presentes apenas a etérea Filosofia aguardava, na fila, imolada em sua integridade subjetiva e na dos quais lecionava. A Filosofia ensinava ética na fila.

Pior: um Professor negro de Filosofia. O mesmo cujos ascendentes diretos tanto lutaram pelo respeito a si, como próximo, e pela igualdade de direitos. O que implica diretamente na ausência de privilégios. “Mas trata-se apenas de uma fila”, diria um; “não reside aí certo exagero?”, diria outro – Lembre-se: trata-se de uma escola.       Seria a ética disciplina exclusivamente filosófica?

Encontra-me ele, pois, espectador impassível, portanto cúmplice, e dirige a mim o sorriso tênue da complacência negra de Sophia. Abnegação que mesmo eu, mestiço que seja, consigo alcançar. Então aperto os lábios em mudez, arqueio a sobrancelha em espanto contido, e baixo meus olhos negros em desculpas.

PS. Fui informado mais tarde que chegou ele à sala de aula com três minutos de atraso. E se desculpou com seus alunos.

Guimarães Lobo - Discípulo errático de cinco perfeitos: Um Anjo Torto a me guiar pelas ruas, Um Anjo Pornográfico dos buracos das fechaduras, Um Machado sarcástico a cortar sem ter sangue, Um Poetinha inzoneiro das penas do mangue, E de um Chico brasileiro, feminino como luvas de boxe.

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1 Comentário

  1. Excelente, Lobo!
    Classificaria o ocorrido como uma questão de educação. Ou da falta dela. Isso até se adquire ao longo da vida, mas costuma se sair melhor quem já nasce com ela, o que não depende de condição social, econômica e muito menos da cor da pele, que diga-se de passagem, por si só não determina a etnia do indivíduo. Questão de “berço”, atributo que o professor que chegou atrasado à sala de aula demonstrou possuir. Simples assim.

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