A indústria que não deveríamos ter

Talvez a crise que presenciamos hoje na igreja seja uma crise universal e não esteja presente somente nela.

Uma ocasião, uma funcionária manifestou-se indignada com os “padres pop” – aqueles que, sem constrangimento, freqüentam a vida noturna, consomem alguns copos de cerveja e usufruem da boa música popular brasileira. Carola, dessas que realizam bazar para a igreja e se confessam semanalmente com o sacerdote ao qual é fiel, mas com uma língua sempre muito afiada para comentar e julgar a vida alheia, maior indignação teve quando a revidei dizendo que aqueles padres eram mais honestos do que outros, aparentemente impecáveis, escondidos em uma sexualidade mal resolvida. Disse a ela que me soava hipócrita tamanho moralismo.
Nós, que somos ou fomos católicos, assistimos atônitos aos escândalos que envolvem a igreja. A maioria, pelo menos a que tenha passado por alguma militância religiosa na infância e adolescência, respira aliviada por não ter sofrido tais assédios. Não que isso aconteça em toda e somente na igreja católica. E não que a igreja toda deva ser crucificada pelas fragilidades e escorregões de alguns no exercício do sacerdócio.
A fé sempre foi algo que me comoveu. E quis conhecê-la em todas as suas instâncias. Da religião oficial do meu país aos centros espíritas, estes paralelamente quase uma oficialidade, passando por igrejas protestantes e até pentecostais, até entender que a religiosidade transformou-se em uma indústria, quase nunca confiável, com as regras, convenções, hierarquias e obrigatoriedade de receitas típicas de qualquer indústria.
O que deveria ser uma união em prol do desenvolvimento espiritual e social e, acima de tudo, da solidariedade humana, converteu-se em fonte de renda para alguns, esteio de preconceitos e justificativa de intolerância para outros e, o pior, em ambiente de desconfiança daquele que deveria ser o espaço do sagrado, o porto seguro de quem crê em Deus e tem esperanças nEle.
Talvez a crise que presenciamos hoje na igreja seja uma crise universal e não esteja presente somente nela. A omissão de pais e responsáveis não pode ser respaldada apenas pelo mau exercício de poder de uma autoridade religiosa.
Muitos pais confiam a terceiros, principalmente à escola e à igreja, responsabilidades das quais não deveriam se isentar. Todos atualmente parecem ter a necessidade de “ilhas de confiança”, para depositarem os filhos em alguns momentos, seja a igreja, a escola ou até mesmo os shoppings.
Os pais talvez precisem, mas não as crianças e adolescentes. O que elas merecem é simplesmente afeto e boa orientação. Com isso, elas não precisam de ilhas e sobrevivem bem a qualquer deserto.

Carlos Guimarães Coelho - Jornalista e produtor cultural. É autor de duas obras: “Crônicas do Interior - Retratos de Minas” e “Nau à Deriva - A História do Teatro em Uberlândia (1908-2012)”, esta última ainda no prelo.

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