A libertação da barbárie
24/10/2009 - Alessandra Leles Rocha.
“Retirantes”, de Cândido Portinari
Por Alessandra Leles Rocha
Reza o dito popular “Errar é humano, perdoar é divino”. Cada vez mais, o ser humano opta por entregar à alçada dos entes superiores e abstratos a nobre tarefa do perdão.
São tantas as limitações, conscientes e inconscientes, presentes no comportamento humano que o indivíduo não consegue exercer naturalmente essa ação. Seja consigo mesmo ou com o próximo, sublimar o erro e ofertar “a outra face” parece tarefa quase impossível.
Perdidos nos conceitos e valores da sociedade, calcados em uma realidade nada exigente por ética e moral, as pessoas parecem querer que de fato o valor do perdão sincero e reflexivo seja totalmente exterminado, dando vazão ao erro, presente em sua própria natureza, em doses generosas e repetitivas.
É o que exibe a política nacional, por exemplo. Quinhentos anos de erros, deslizes, inverdades sucessivamente ocorridos e sem nenhuma demonstração de vergonha, culpa ou lampejo de preocupação com a opinião do cidadão comum. É como se o poder os munisse de tamanha superioridade que nada, nem ninguém, tivessem que os perdoar ou que seus atos pela gravidade merecessem perdão.
Por isso, as novas gerações se distanciam cada vez mais do perdão e edificam uma muralha individualista que só conseguem enxergar a si mesmas. “Eu não perdôo porque o outro não me perdoou também.” ”Perdoar por quê? Ele (s) vai (ao) repetir de novo!” “Feriu os meus direitos, então eu não perdôo mesmo!” Esses são argumentos frequentemente ouvidos, infelizmente.
Pode parecer pouco ou banal, mas no fundo a falta do perdão é sem dúvida o grande estopim dos conflitos mundiais. É a priorização do individual frente ao coletivo, a guerra dos egos que divide ao invés de unir, a diferença entre tolerância e alienação.
Há muito que se perdoar, se refletir, se redimir diante da vida! Há que se despertar na alma o desejo de se liberar das origens bárbaras, da defesa “olho por olho, dente por dente”. Há que se entender de vez o peso do valor em se perdoar e ser perdoado. É certo que erramos muito e ainda o faremos mais vezes ainda; mas, para tudo há limite e a necessidade de transformação. O perdão nos liberta, nos eleva e nos aponta à evolução.
Alessandra Leles Rocha - Natural de Uberlândia, Minas Gerais, onde se graduou Bacharel em Ciências Biológicas (2000) e Mestre em Geografia / Área de Concentração: Análise, Planejamento e Gestão Sócio-Ambiental (2003), pela Universidade Federal (UFU).
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