A Popularidade de Lula
Na última semana, o candidato da coligação PSDB/DEM à presidência da república, José Serra, resolveu endurecer o discurso, assustado pela vigorosa ascensão da candidata governista, Dilma Roussef, mostrada nas últimas pesquisas. Entre as declarações mais relevantes, as que mais repercutiram foram as críticas dirigidas ao presidente da Bolívia, Evo Morales, acusado de colaborar com o narcotráfico, e ao governo brasileiro, por manter relações cordiais com aquele. Ao que parece, a avaliação dos coordenadores da candidatura Serra é a de que a tática anterior, de poupar o atual governo e fazer uma campanha propositiva, revelou-se ineficaz. A mudança de tom do candidato parece obedecer a uma nova estratégia, talvez a de tentar desconstruir Lula e os supostos méritos de seu governo, por avaliarem que, com o passar do tempo, a imagem de Dilma se associará cada vez mais à do presidente.
Se for esse o caso, a tarefa de Serra será difícil, quase desalentadora. Talvez Lula seja o político mais popular de toda a história da República. Desde a redemocratização, em 1985, os presidentes que passaram pelo Planalto – Sarney, Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso – nunca chegaram a mais de 36% de aprovação ao final de seus mandatos. Embora não tenham existido pesquisas de opinião como as atuais para o período anterior a 1985, os mais sérios candidatos ao patamar do atual presidente, que, após oito anos de governo, ostenta 80% de aprovação, seriam Floriano Peixoto, Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek.
A popularidade do marechal Floriano nunca chegou a ser testada em eleições, mas as manifestações públicas de solidariedade que recebeu, quando a Marinha rebelde bombardeou o Rio de Janeiro, em 1893, foram suficientemente efusivas para não deixar dúvidas de que ela era real. Formou-se um movimento político em torno de sua pessoa, integrado por militares e classe média, para quem o marechal simbolizava valores como coragem, honestidade e patriotismo. O nacionalismo febril dos florianistas foi satirizado por Lima Barreto em seu romance “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, em que o personagem título, de fala pomposa e beletrista, chega a propor a substituição do português pelo tupi como língua nacional. No entanto, o apoio ativo a Floriano talvez tenha se restringido à capital da República, pois a maioria dos brasileiros vivia imersa nos grotões do interior, pobre e analfabeta, submetida ao mandonismo dos coronéis e sem qualquer possibilidade de formar juízo crítico ou influir sobre a política institucional.
Ao final do Estado Novo, em 1945, Getúlio Vargas era, sem dúvida, o político mais popular que o Brasil até então conhecera. Os benefícios sociais e a legislação trabalhista concedidos ao longo de seus quinze anos de governo são a explicação para as multidões que se reuniam nas ruas durante os comícios queremistas. Também explica a vitória do inexpressivo Eurico Dutra, apoiado por ele nas eleições presidenciais daquele ano, e para sua própria eleição para o Senado por dois estados e para deputado por outros sete. Cinco anos depois, ele voltou à presidência com 53% dos votos. Contudo, é possível que a popularidade de Getúlio não tenha ultrapassado o patamar dos votos que recebeu em 1950. Ao longo de seus três anos de governo democrático, a inflação, as greves e a oposição cerrada feita pela imprensa, forças armadas e Câmara podem ter contribuído diminuir sua aprovação popular que, apesar de tudo, nunca lhe faltou totalmente, como o provam as comovidas manifestações nas ruas das principais cidades brasileiras, quando de seu suicídio.
Juscelino elegeu-se com 36% dos votos nas eleições de 1955, numa época em que não havia segundo turno. A despeito do otimismo geral que imperou durante o seu governo, em virtude do aumento dos investimentos e empregos, terminou-o com a economia em dificuldades e tomada pela inflação. Embora tenha conservado certa popularidade, não foi expressiva o suficiente para ser transferida para o seu candidato nas eleições de 1960. O marechal Teixeira Lott, como se sabe, foi vencido por Jânio Quadros.
No quesito popularidade, nenhum outro nome que tenha ocupado o cargo de presidente da República resiste à comparação aos três citados anteriormente, e menos ainda a Lula. Em 1902, ao terminar seu mandato, Campos Sales foi vaiado pelas ruas do Rio de Janeiro. O desastroso governo de Hermes da Fonseca foi ridicularizado pela imprensa e em quadrinhas populares, as quais diziam que o presidente tinha a urucubaca, isto é, era azarado demais. Artur Bernardes governou sob quase permanente estado de sítio. Fez-se prisioneiro no Catete, de onde quase não saía por medo das manifestações populares e da rebeldia violenta dos tenentes.
João Goulart tinha o apoio dos operários organizados e de alguns grupos de classe média, mas provavelmente não tenha gozado da mesma popularidade entre os setores mais pobres e menos organizados da sociedade. A prova foi a resistência popular pífia, quase inexistente, ao golpe militar de 1964. Não há como incluir os presidentes do período militar nessa comparação, pois eram mais temidos do que admirados. É impossível saber o que havia de espontâneo nas manifestações organizadas pelo regime.
Por que Lula é tão popular? O principal motivo, sem dúvida, são os avanços obtidos pelo atual governo no campo social, em especial a ascensão de um quarto da população pobre à classe média. É entre essas pessoas, especialmente das regiões mais carentes do Brasil, que se encontra o apoio mais entusiasmado ao presidente. Mas há também algo mais simbólico do que material nessa popularidade. O aspecto mais notável dela é que permaneceu infensa à hostilidade aberta de órgãos de imprensa como as revistas Veja e Isto É, os jornais Folha de São Paulo, Estado de São Paulo e a Rede Globo, como se a população fizesse ouvidos moucos a tais críticas. Não me refiro às críticas à política econômica ou social, ou à corrupção, como no caso do mensalão, mas aquelas que mal disfarçavam o preconceito contra o operário Lula, “pouco preparado” para o cargo que ocupa.
Um ótimo exemplo foi o artigo publicado na Folha e assinado por Otávio Frias Filho, proprietário do jornal, no dia 16 de março. Otavinho deixou-se trair quando escreveu que “os Estados Unidos influem e se intrometem nos conflitos do Oriente Médio não para pavonear seu peso mundial, como parecem supor nosso simplório presidente e seu trêfego chanceler”. Este jovem homem de imprensa, que herdou o jornal do pai, não consegue esconder seu profundo desprezo pelo presidente-peão. Como durante a campanha presidencial de 2002, quando Otávio Frias, pai, convidou o candidato Lula para almoçar na Folha. Durante o jantar, Otavinho perguntou a Lula se, ao longo dos últimos anos, havia se preparado adequadamente para ser presidente, uma vez que não possuía diploma universitário. Lula, ofendido, se levantou e foi embora. Quando ia tomar o elevador, foi abordado por Otávio, pai, que pediu desculpas pela atitude do filho.
Acredito que críticas como essas, de fundo demofóbico, contribuíram muito para aumentar a popularidade de Lula. Reforçaram a imagem de homem do povo, odiado pelos ricos e, por isso, alguém em quem as pessoas simples podem confiar. Uma imagem muito diferente da de Floriano, o soldado que nos defendia, da de Getúlio, o pai bom que nos provia, ou da de Juscelino, o gerente otimista para quem podíamos entregar nosso negócio.
Uma das fotos de Lula que, para mim, terá maior força simbólica, no futuro, foi feita por um paparazzi na Praia de Inena, Bahia, onde o presidente passou o último reveillon com a família. Nela, Lula aparece ao lado de Mariza, de chinelo, bermuda e camiseta cavada, carregando uma caixa de isopor na cabeça, certamente cheia de latinhas de cerveja. A foto foi reproduzida pelos jornais e revistas que citei anteriormente, para escárnio, acompanhada de comentários sobre a breguice farofeira e o suposto destempero alcoólico do presidente, na ingênua suposição de que, assim, contribuiriam para o seu desgaste. Contudo, o efeito sobre a popularidade de Lula foi o oposto: todos os que fazem churrasco no final de semana, acompanhados de suas caixas de isopor, sentiram-se confortados ao ver que “um de nós” está lá, na presidência da República.
Luís Bustamante
Luis Bustamante - Médico pediatra do Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia, doutor em geografia pela USP, professor de história do Colégio Nacional e autor dos livros "A Oeste das Minas" e "Triângulo Mineiro, do Império à República".
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Pessoalmente, eu acho que essas pesquisas não refletem a realidade. Isto, porque na eleição em que Lula foi mais bem sucedido, não ultrapassou 60% dos votos. A sua candidata-poste, mesmo depois de dois anos de propaganda governamental e privada, que ultrajam a legislação, onde o presidente afirma que ela é a sua candidata e a única capaz de dar continuidade aos seus projetos, no cenário mais favorável, alcançou 42%, que não se manteve. Por isso, acredito que a popularidade do presidente, seja de no máximo 60%.
Ainda assim, 60% é um patamar muito alto para um presidente, cujo governo foi um dos mais corruptos da história do Brasil, com seis ministros demitidos por envolvimento em casos de corrupção, 40 pessoas ligadas ao governo denunciadas no STF, entre outros crimes, por formação de quadrilha. Sem contar a incompetência, o aumento dos gastos públicos, o loteamento de cargos por motivos políticos, obras inacabadas, caos aéreo, infra-estrutura deficiente e muito mais.
O que explica então, uma popularidade tão robusta? A meu ver, pelo menos três razões principais:
1) Manipulação e propaganda enganosa. Desde que assumiu o governo em 2003, o governo Lula não se cansa de espalhar mentiras, manipulando a população com dados que não são verdadeiros. Espalha inescrupulosamente que “pagou a dívida externa e agora empresta dinheiro ao exterior”. Na verdade, o que ele pagou foi o empréstimo de 30 milhões que o país tinha com o FMI, que é muito diferente da dívida externa, que continua gigantesca.
2) Ignorância política da maioria da população. A grande maioria dos brasileiros não entende nada de política, pois não lê jornais e quando lê prefere ler sobre futebol, horóscopo, variedades, etc. Por esta razão, acreditam nas bobagens e mentiras que Lula e o PT espalham. A poucos dias, ouvi uma conversa entre alguns lulistas. Um dizia:
- O Lula pagou a dívida externa do Brasil e agora empresta dinheiro.
O outro falando sobre Fernando Henrique, dizia:
- FHC ao sair da presidência recebera convite para trabalhar em dez países, dos quais, preferira os EUA, onde teria sido “ministro da guerra.”
Continuando com os ataques ao PSDB, um outro lulista esbravejou:
- O Serra quer aumentar o mandato presidencial para cinco anos, para ficar dez anos no poder! Ele ignorou o fato de que a proposta de Serra é primeiro acabar com a reeleição. Também, não levou em consideração que quem tentou aumentar o mandato presidencial foi o PT, pois o deputado Virgílio Guimarães (PT-MG) tentou um terceiro mandato para Lula.
3)Oportunismo de alguns “movimentos sociais e sindicais” e de alguns políticos.
Alguns movimentos como a UNE, a CUT, a Força Sindical, o MST e alguns políticos se calam quanto a corrupção e a incompetência do governo Lula e até as apóiam, simplesmente porque são beneficiados por este governo. Se o mensalão, o caso Waldomiro Diniz, O caso Lulinha, os cartões corporativos, os dossiês, as orgias de Palocci, etc, tivessem sido protagonizados por integrantes do governo FHC, essa gente teria pintado a cara e saído às ruas, gritando: “fora FHC!”. Não me lembro de ter visto eles gritarem “fora Lula!”. Pelo contrário, defendem-no com unhas e dentes.
Acho que já passou da hora da oposição desmascarar o lulismo, mostrando o que de fato Lula fez, quais são os seus companheiros (Fidel, Ahmadinejad, Chavez, Evo Morales, Sarney, Renan Calheiros, Collor, etc), os números verdadeiros do PAC e as mentiras que Lula e o PT têm espalhado desde 2003.
Em poucas palavras: parabéns pelo texto. E eu acredito na popularidade de Lula, assim como acreditei nesse governo e sigo acreditando no que está por vir. Viva o BRASIL!