A terceirização da vida

Por Alessandra Leles Rocha

É! De fato os ponteiros do relógio teimam em correr descompensados e o nosso tempo para as obrigações cotidianas se esvai sem piedade. Mas será que isso é o suficiente para terceirizarmos a vida?

Parece loucura, mas não é! Sobretudo, e particularmente, nas camadas mais abastadas da população o fenômeno de se contratar pessoas especializadas para a realização de tarefas, os chamados “personal”, têm ganhado destaque. Da prática esportiva à organização de malas e armários, esse novo ramo da prestação de serviços, dentro de um novo contexto sócio-temporal, resgata os antigos hábitos servis e escravagistas – os quais os detentores do poder de outrora necessitavam de pessoas para o cumprimento de ações simples do cotidiano – e surge para dar mais tempo livre a quem os contrata.

O subterfúgio funciona como uma máscara protetora que afasta o indivíduo de encarar suas próprias responsabilidades; já que muitos justificam o serviço, pagando a peso de ouro, como não sendo próprio para alguém de seu nível social realizar. Além disso, o tempo ocioso adquirido não reverte em grandes benefícios ao seu detentor; ter alguém sempre à disposição para lhe satisfazer os desejos e necessidades torna a vida entediante, monótona. Está aí mais um exemplo perigoso da posse do vil metal! Posso porque tenho, sem a devida análise se esse poder é realmente necessário. Também não se faz para si; mas, é mera ostentação para os outros, um tipo de redenção para o crônico complexo de inferioridade que no fundo acomete os grandes poderosos.

Não tardará o momento que essa distorção se agrave tanto que terceirizaremos o papel de pai, mãe, filho, filha e etc. e, então, alcançaremos o máximo da solidão. Estaremos paralisados, sem razão para sonhar, para lutar, para conquistar o mundo em suas mais delicadas frações. Viveremos num universo sem cor e sem graça, com gosto de fastio. Passaremos pela vida, sem desfrutar dela o bom e o mau, o feio e o belo, o doce e o amargo, porque o dinheiro comprou algo que jamais deveria estar à venda.

Alessandra Leles Rocha - Natural de Uberlândia, Minas Gerais, onde se graduou Bacharel em Ciências Biológicas (2000) e Mestre em Geografia / Área de Concentração: Análise, Planejamento e Gestão Sócio-Ambiental (2003), pela Universidade Federal (UFU).

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