A vida de genomas e de tráficos

É difícil compreender essa relação dicotômica entre a civilização buscando se expandir através da ciência e a infância perdida na marginalidade

Duas notícias da semana passada merecem destaque. Na América que conduz o mundo, o surgimento da célula artificial, talvez um dos procedimentos científicos mais importantes da humanidade contemporânea. No Brasil, no interior de São Paulo, uma quadrilha de traficantes é comandada por um garoto aparentando de 10 a 12 anos, conhecido como “poderozinho”.
Se uma nova forma de vida é conquistada a partir da manipulação genética, outra se esvai precocemente na marginalidade. É difícil compreender essa relação dicotômica entre a civilização buscando se expandir através da ciência e a infância perdida na marginalidade.
Enquanto garotos da classe média mal atravessam as ruas sozinhos, marginais mirins se tornam donos delas. E, nos laboratórios, cientistas promovem grandes descobertas.
Impossível negar que a célula artificial seja um grande passo na evolução do homem. A exemplo de outras descobertas, pode ser um passo para a sua involução. Construir uma célula a partir de um genoma montado em computador pode ser o ápice do início de uma nova era ou o começo do fim. Nesse limiar do risco, há semelhança entre a vida retirada do genoma e a bandida experimentada pelo garoto paulista.
O genoma traz a perspectiva para o bem e para o mal. Pode ser solução para problemas da humanidade ou estopim para a produção de armas de combate, por exemplo. Basta considerarmos que a propriedade intelectual está sob a tutela de um país que, no mesmo nível em que se coloca como defensor da paz, emerge em conflitos internos e externos que podem desencadear várias guerras. Uma guerra não muito diferente da promovida pelo pequeno traficante e seus comparsas. O consolo é a comprovação da história de que o homem, inserido em várias guerras, aprendeu com o tempo a evitar boa parte delas.
Não é a manipulação genética que devemos temer, mas o que será feito a partir dela. Os cientistas envolvidos não “brincam de Deus”, como alardeiam alguns: buscam novas perspectivas de existência e perseguem respostas para indagações de todos. A célula que surgiu do nada, do vazio existencial da informática, ganha formato ainda desconhecido e serve sabe-se lá pra quê, mas mostra um homem imperativo, capaz de promover grandes transformações. Se isso acontece nos laboratórios, pode também acontecer nas ruas de todo o país.
Por isso, somos obrigados a aplaudir este novo tempo. Por querer que as conquistas sirvam para o bem estar da humanidade e, até onde for possível, para o conserto dos estragos que ele próprio provoca no planeta e para trazer um mundo onde as crianças não se joguem para o mundo obscuro do tráfico.

Carlos Guimarães Coelho - Jornalista e produtor cultural. É autor de duas obras: “Crônicas do Interior - Retratos de Minas” e “Nau à Deriva - A História do Teatro em Uberlândia (1908-2012)”, esta última ainda no prelo.

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