Ana Clara e seus qualquer coisa

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Não, bolo não, é lobo, repete. “Bolo!”. Thrillher fez mesmo sucesso. E ela olhava pra tela como quem via o diabo. Mas, ali, o diabo era igual a um grão de feijão ou a um pedaço de cortina; interessante como o mamilo da mãe; difícil de aceitar como a falta de equilíbrio do corpo. Tudo era novo e qualquer coisa nunca era qualquer coisa pra ela.

De uma noite pra outra ela já sabia dizer o que eu era. Naquela hora, finalmente, abandonei o curso de batismo que fui obrigado a fazer. Ela sabia de mim, sem a necessidade de intermediários entre nós. Ali, entre bonecas, pacotes de fraldas e caixas de qualquer coisa, não havia religião nem peste, nem Deus até, porque ela brincando e me chamando de “padim” não era um milagre, era só uma graça, que me fazia sorrir.

Meu Wall-E de plástico, que fazia da escrivaninha uma coisa menos escrivaninha, virou o que tudo vira, um giro pra cá, um giro pra lá, põe na boca, depois no chão e é esquecido pelo próximo qualquer coisa. Não punha de volta no lugar, porque qualquer coisa que a fazia sorrir não devia decorar escrivaninhas.

Ela mal sabia andar e já tinha a convicção de que, se caísse, uma multidão pularia antes para salvá-la do abismo. Ela e suas pequenas epifanias, a nos mostrar que os nossos qualquer coisa se tornaram tão chatos e óbvios. Olhá-la era o jeito de escapar do tempo e da morte; de voltar do futuro. Era poder visitar um mundo que já habitamos e que só podíamos lembrar olhando os que agora seguram em nossa mão para subir um degrau ou entregar um biscoito babado.

Quando ela chorava, ríamos todos. Havia beleza naquilo também, como havia no seu tropeço, no seu cheiro azedinho, nos travesseiros ao acordar; na forma única com que ela sorria ao nos receber quando voltávamos de fato a existir depois do trabalho.

E quando ela partia, levava junto aquela multidão de alegrias. Levava todos os cuidados, os carinhos e passávamos a olhar para tudo como coisas quaisquer, novamente esquecidos de que tudo poderia ser uma quina perigosa pra ela. Voltávamos para nosso sono real, para o bip da máquina do cartão de ponto, para o bip da máquina do cartão de crédito e já não ouvíamos mais o bip daquele aparelhinho a nos avisar que ela havia despertado mais uma vez e queria sua mamadeira.

Ficávamos tristes, assistindo à televisão e, de vez em quando, com o olho no porta-retrato ao lado, só para tê-la, que fosse assim. Até o dia de ouvir o telefone anunciar que receberíamos visita. Só essa promessa, essa esperança aflita, já era capaz de fazer com que os bips lá fora, que nos calavam, fossem suportáveis de novo. Aguentávamos o peso de nós mesmos para ter a chance de dividir um com o outro a possibilidade de dar o colo a ela. E esperávamos a semana inteira, como os que esperam um presente ou uma cura.

A semana vazia virava um texto longo a ser lido apressado, pois o ponto final era ouvir o barulho do portão se abrindo e ver aqueles bracinhos pedindo o que são deles por sorte: o mundo, um abraço, até que a noite chegasse e trouxesse junto o leite quente, tão fácil de acalmar a pressa e a urgência daquela garotinha tão linda, que sugava, calma, a sabedoria que havíamos perdido.

O dia terminava. Eu, então, a colocava no colchão. E pensava que lá na frente ela também cresceria, teria homens e sexo, perdão e sonhos perdidos, como todos. Talvez desse a sorte de ficar velha e morrer feliz por ter tido uma vida cheia. Mas pensava nisso tudo de relance, porque antes que ela dormisse e sonhasse, sempre olhava pra mim uma última vez, apontava seu dedo pra um lugar que só ela sabia que existia e onde ficava, e dizia: “bolo!”.

Por Renato Cabral, pra você, baixinha.
@oruminante

Renato Cabral - Renato Cabral é ruminante inveterado. oruminante@gmail.com

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1 Comentário

  1. Renato, Olá !
    bom, não vou me estender muito , tenho 2 sobrinhas de 4 e 5 anos … irmãs… e me lembram muito a “sua ” Ana Clara , aliás, uma das sobrinhas se chama: ANA CLARA…
    Quando sinto que tudo pode estar perdido… seja do lado pessoal quanto profissional (como diz Faustão,o Silva ,da Globo…rsrs)… agendo rapidamente uma visita com a mãe delas para vê-las…Sim, precisa um certo “agendamento”, rsrsrs, porque são cheias de coisinhas, pra fazer, pra brincar, atividades etc… e em 10 minutos com elas volto á realidade… e a acreditar que ainda dá pra continuar mais um pouco , com bips1000 por aí, contas á pagar, gente chata e a Vida no geral.
    Um abraço, belo texto este seu…
    Bia

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