Ao soar das doze badaladas

Por Alessandra Leles Rocha

Aproveitando os dias chuvosos e não menos nostálgicos que o mês de dezembro costuma nos oferecer, coloco-me há pensar um pouco sobre o ano que finda e o novo com eventuais perspectivas de mudança nos ventos.

Num breve passar de olhos sobre dois mil e nove, tudo parece notícia requentada. Tivemos de tudo um pouco da rotina de sempre: catástrofes ambientais assolando aqui e acolá; guerras e conflitos; miséria e exploração humana; excessos de embriaguez, juventude e velocidade; apreensões em profusão de drogas e entorpecentes; escândalos políticos por causa da famigerada corrupção etc.etc.etc.

Mas, para não dizer que surpresas não deram o ar da graça… vivemos o terror e a angústia diante da Gripe Suína (vírus H1N1) em todo o mundo; mas, por aqui sentimos mais pela fragilidade dos serviços de saúde e vimos cair diante dos próprios olhos centenas de vítimas. Mesmo em meio aos espirros, o Brasil foi sucesso mundo afora; seja na dispersão de parcerias e ajudas humanitárias, seja na vitória como país sede dos Jogos Olímpicos de 2016, a acontecer na cidade do Rio de Janeiro. Sim!Holofotes e flashes debruçados sobre nós, a grande novidade no Conselho de Segurança da ONU. Finalmente “o primo pobre” 1sentado à mesa com “os primos ricos”; muito embora, os modos e a aparência repaginada pela elegância ainda não façam a transformação suficiente para dissolver entraves e mazelas crônicas que debilitam a imagem do Brasil.

Com a autoestima tão massageada, apesar de quaisquer pesares, já almejam um dois mil e dez estupendo. Coberta em verde e amarelo a massa brasileira centrará foco na Copa do Mundo de Futebol2 e prolongará sua costumeira euforia até o pleito eleitoral em outubro. Nada de surpresas ruins! O que se espera são novidades amenas, contagiantes para colorir os dias que permaneçam cotidianamente iguais.

Por isso, creio ser essencial pensar no amanhã com um pouco mais de carinho e critério. Para que o futuro venha novo, sem remendos e odor de naftalina, chega de listas, de metas, de sonhos rabiscados no papel. Temos que nos fazer novos em primeiro lugar; retirar das entranhas os mofos do comodismo e as poeiras do conformismo. Temos que nos sacudir, ir para o sol e aquecer nossos sonhos e pensamentos. Olhar, com olhos de enxergar, a procura de caminhos que nos levem de fato a uma nova vida, onde cada amanhecer se revele capaz de ofertar um toque a mais de transformação. O ano novo parte de nós, de nossa nova alma, nossos novos olhos, nossa nova compreensão sobre o que somos e ainda poderemos vir a ser. Preste atenção às doze badaladas!!!

1 Sátira social apresentada por Paulo Gracindo e Brandão Filho – Primo rico e primo pobre no programa da TVGlobo “Balança mais não cai” (1983).
2 A Copa do Mundo FIFA de 2010 ocorrerá na África do Sul, sendo a primeira a ser organizada no continente africano.

Alessandra Leles Rocha - Natural de Uberlândia, Minas Gerais, onde se graduou Bacharel em Ciências Biológicas (2000) e Mestre em Geografia / Área de Concentração: Análise, Planejamento e Gestão Sócio-Ambiental (2003), pela Universidade Federal (UFU).

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