Avatar, de novo.

avatarkAvatar, de James Cameron, é um grande filme. Diferente do que julgou Luís Felipe Pondé na Folha de São Paulo, não é um libelo ecológico, pois não conheço nenhum grupo ambientalista que defenda a preservação das espécies do planeta Pandora. Tampouco deve ser condenado pela ausência de lógica darwiniana, como fez Fábio Marton nesta Página Cultural. Afinal, não se trata um documentário da BBC sobre exobiologia.

Avatar é uma fábula que sintetiza, num único e deslumbrante espetáculo, todos os elementos que formam o imaginário do nosso tempo. Os primeiros quinze minutos do filme mostram a rotina da espaçonave que conduz os humanos, num anticlímax semelhante aos minutos iniciais de Alien, o Oitavo Passageiro (dir. Ridley Scott, 1979), com tecnologias e tripulantes que nos são monotonamente familiares. Tudo para que sejamos, em seguida, lançados na Natureza delirante de Pandora, quando Jake Sully, um marine paraplégico, encarna seu avatar naavi e sai a explorá-la.

Pandora é povoada de seres fantásticos, alguns inspirados na mitologia nórdica e em suas representações modernas. Os naavi assemelham-se a elfos: azuis, de orelhas pontudas e armados de arco e flecha, vivem em comunhão com a Natureza. Cavalgam pterodontes que lembram os corcéis alados das valquírias. Ao mesmo tempo, correm, saltam pelas árvores, possuem corpos esguios, caninos pontiagudos e rugem como felinos, numa referência ao zoomorfismo presente em quase todas as mitologias. Noutros momentos, se parecem com índios norte-americanos, lembrando os índios idealizados pelos escritores e artistas românticos do século XIX. Esse mundo maravilhoso só é acessível aos humanos por meio dos avatares, como nos jogos eletrônicos, em que adolescentes, frustrados pelas limitações da vida real (como Jake pela sua paralisia), dela se desligam para nele mergulharem.

Pandora é uma terra sem males (a escolha do nome não se fez por acaso: Pandora foi a primeira das mulheres, criada por Zeus sem quaisquer dos vícios que afligem os homens) cuja harmonia é a de Gaia (a deusa mãe Eywa, no filme). Os efeitos especiais, realçados pela técnica 3D, não são gratuitos: estão ali para provocar o êxtase, necessário para se compreender Pandora. Os humanos, romanticamente, sonham em fugir para esse paraíso, mas a vida real (a companhia que quer explorar os minerais, o exército de mercenários) tenta impedi-los. O mundo dos humanos, por sua vez, está repleto de referências ao “nosso” mundo: o ataque à grande árvore lembra o ataque às torres gêmeas; o coronel mercenário tem estilo reagan-bushiano etc.

Não resisto à comparação com O Anticristo (dir. Lars Von Trier), outro extraordinário filme de 2009, que também tem como elemento central uma Natureza mítica. Só que, no filme de Triers, ao contrário de Avatar, a Natureza é a morada do Mal. Como Jake Sully, a personagem de Charlotte Gainsbourg deseja compensar uma perda (a morte do filho) fugindo da vida real para um mundo fantástico. Só que nele, como diz uma raposa em determinado momento do filme, “o caos reina”. Caos, pai de Gaia, a deusa mãe, é a sua antítese: representa a desordem, a morte, a destruição e a incapacidade humana de compreender qualquer coisa.

Luís Bustamante

Luis Bustamante - Médico pediatra do Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia, doutor em geografia pela USP, professor de história do Colégio Nacional e autor dos livros "A Oeste das Minas" e "Triângulo Mineiro, do Império à República".

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3 Comentários

  1. Falar mal da coisas dá ibope, mesmo que o cara tenha que inventar algo pra falar.
    Síndrome de Pedro de Lara.

  2. Ora, professor, imagino que o senhor também não conheça qualquer planeta habitado que se chame Pandora, acertei? Veja que inusitado: uma metáfora liquefez a ironia.
    (Sobre o trecho inicial: “não conheço nenhum grupo ambientalista que defenda a preservação das espécies do planeta Pandora”).

    De resto, Fábio Marton deu nota 7 ao filme; com essa média, na minha cro-magna época, dava pra passar direto, sem recuperação.

    Abraços

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