Bastardo vacilão

magrelloQuantas vezes vou ter que esfregar isso na sua cara? Não moramos perto do mar! Arrume um skate, vá brincar no asfalto e sai da minha frente. Aproveita que venta e vai soltar pipa. Vai pro meio do mato fumar, se masturbar, vai pro inferno, caralho! Vai roubar laranja na feira, vai gastar o dedão chutando bola, vai pra puta que te pariu, mas me deixa cozinhar em paz. Seu pai vai chegar e a comida ainda não tá pronta. Você sabe, vai sobrar pra mim e depois pra você.

Mas logo no primeiro vai eu já não tava mais ali. Como um cachorro, eu tinha o sentido de ouvir o ronco do opala azul virando a esquina a três quarteirões de casa. Minha mãe lá dentro na sua pressa e servidão, blasfemando com o feijão na pressão.

De cima do pé de manga eu pensava o que seria cheiro de mangue. A revista que eu tinha trocado com um amigo, que roubou de uma banca no centro, eu nunca abandonei. Lá tinha tudo o que a minha criancice precisava: parafina, aquelas músicas dos negros, mulheres loiras de olhos azuis com a pele salpicada de sol e propagandas de bicicleta e carros. E, claro, muitas, muitas praias, pranchas e ondas.

Daí, todo feriado era a mesma síndrome, o complexo do vacilão me pegava. Era um desgosto fedido que tomava conta de mim. Todo mundo indo para algum lugar e eu para lugar nenhum. No jornal, todas as matérias começavam com engarrafamento, acidentes e diarréias que as pessoas pegavam nas areias comendo milho ou pastel. Mas não era essa a minha praia.

Então resolvi seguir a sugestão da minha mãe. Dizem que as ondas existem para levar da mente todas as suas encrencas. Não sei se é verdade. Mas com minha tábua com rodas, eu aprendi que o vento na cara pode ser refrescante também, principalmente morro abaixo.

Foi assim que descobri o que era ser livre. Liberdade era não cair, durava cerca de um minuto e meio no máximo. E se houvesse chão, significava levantar e aguentar tudo o que vinha depois. Nas descidas, não me faltava nada. Me sobrava. O mundo se reduzia ao centro de equilíbrio entre a linha do meu umbigo com meu nariz. As descidas traziam só um problema: quando a roda travava, ou o umbigo não se acertava com o nariz, não tinha mais vento na cara; tinha cara no chão e esfolado até a nuca.

Então, chegava em casa e entendia na pele por que minha mãe havia ficado tão bruta com o tempo. O olhar do meu pai pra meu joelho em carne era como a frente do seu opala quando ele o ligava. Eu fechava os olhos apenas. Sua mão era pesada, mas passar na frente da casa da Ana com velocidade máxima compensava as feridas no cotovelo e os buracos na alma. Me sentia como aqueles heróis anônimos da revista, surfando enquanto o sol se punha.

Por Renato Cabral, vacilão desde sempre. Livre também.

Renato Cabral - Renato Cabral é ruminante inveterado. oruminante@gmail.com

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4 Comentários

  1. acho q não é preciso usar tanta palavra chula. alguns textos seus são bons…mais outros são pura baxaria. Estou escrevendo isso pq gosto de ler alguns textos outros nem chego no final.

  2. Querida Cláudia, minha sugestão é que vc pare de ler os textos “bons” e leia até o fim os textos com palavras chulas e com muita baixaria para ver se você se liberta de seus recalques e fique mais leve, mais solta. Valeu, abraço.

  3. Nossa!!! Não queria te ofender, eu sei q não existe critica construtiva. Foi entãoum pessimo comentario… Agora particulamente falando sobre seus comentarios pessoais quanto a minha pessoa: o recalque cabe em quase todos os lugares ( esceto em 4 paredes), exite os lugares devidos p se libertar, e não querendo ser vulgar…nunca ouvi reclamaçoes…

  4. Ô, Claudinha, nem precisava se dar ao trabalho. Mas já que vc é minha única leitora que se manifesta, só tenho vc pra falar mesmo. Leitores (ou leitoras) são como putas, ama-nos e depois nos deixam. É sempre assim. Agora, sério, fui ler o texto de novo e vi que lá só tem um palavrão: CARALHO. Não entendi pq a palavra CARALHO te assusta tanto se vc bem diz que nunca ouviu relcamações, mesmo não querendo ser vulgar? É isso. Vamos assuntando por aqui. Pra me seguir no TW é @oruminante. Lá eu não falo palavrões, só diminutivos.

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