Bodas de ouro – pra quem me esperou na ponte

Quando você se casar, eu já estarei longe. Mas ainda estaremos juntos de alguma forma. Ainda aqui, ainda aí, perto desse cisco de canto que não vamos limpar porque ele é o que somos também. Histórias de dor nunca deixam nossos poros se fecharem mesmo.

Bodas de ouro – pra quem me esperou na ponte

Ele irá pôr a aliança no seu dedo com a pressa e a firmeza de quem sabe o que faz. Você irá acreditar. Você sorrirá, irá chorar. Vai olhá-lo como tudo aquilo que sempre quis e esperou. Tão pouco vale uma espera. E será a ilusão mais doce e real de sua vida. Você tremerá. Todas as outras ao seu lado a te ver como um horizonte. Inveja em lágrimas. Você linda como antes, com sua ingenuidade vestida de branco e sua pureza refletida nos cabelos pretos, nascidos só para esse dia. Você vai dizer sim. E aí, vai dizer não a todas as lágrimas que choramos juntos. Quando isso acontecer, eu estarei longe de nós, mas o pó por perto, a nos lembrar que ninguém é limpo por inteiro.

Ainda me lembro. Minhas inconstâncias eram um jeito de te amar em zigue zague, de partir pra voltar com mais saudade. Todas as nossas brigas, um motivo para ajeitar seu travesseiro e te passar a mão no cabelo enquanto você soluçava aquela dor fina e tão machucada. Nunca te contei o quanto sua pele ficava ainda mais linda com você irritada, emburrada de mim. Pra que, afinal, se você sentia também?

E hoje você aí, na igreja, seu sonho, em frente ao Cristo de gesso. Ele a te abençoar. A dor dele, sua maior alegria. Que ironia. Alguém sempre precisa se sacrificar em nome do amor. Alguém precisa ter pregos enfiados nos pulsos e uma coroa de espinhos na testa pra que o outro possa ser coroado com ouro e promessas, com abraços de uma boa vida futura.

Quando você tiver seu primeiro filho, eu serei só aquela borra no fim do seu café apressado, aquele tipo de lembrança que vem com a dor nas costas e logo passa. E quando seus filhos te trouxerem a alegria de ser vó, da vida rica que é poder ter tido uma história costurada na presença dos outros, eu já serei um nada pra você. Mas ainda assim é bom pensar nos nadas desta vida, porque quanto mais velhos estamos e ficamos, mais perto deles chegamos.

Quando você ficar velhinha, e muitas velinhas for assoprar, eu serei aquela brisa da sua boca que apaga o fogo que um dia existiu em nós. Tão rápido foi, tão rápido será. Tão pouco, mas tão belo. E preste atenção quando isso acontecer, porque seus netos irão sorrir mais do que você ao vê-la fazer seus últimos pedidos. Crianças adoram não saber que um dia também morrerão e sofrerão de amor.

E você pra mim nesse dia terá muitos nomes, porque amei mais de duas, mas nunca quis dar a vocês meu sobrenome. Porque a gente nasce sozinho e morre sozinho. Mas pra atravessar essa ponte, vai de mãos dadas com os outros, mas poucos. Preferi ir só. Ou talvez não tive escolha. Preferi ver vocês todas sorrindo uma vida em que se pode pisar sem se desequilibrar (mas também sem ter grandes suspiros ou vôos) à tristeza de encontros adiados comigo no meio da ponte, mas sempre com a possibilidade de que – mesmo tão raros – seriam nossos melhores e mais livres momentos.

Por Renato Cabral – @oruminante

Renato Cabral - Renato Cabral é ruminante inveterado. oruminante@gmail.com

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2 Comentários

  1. Que isso hein meu amigo. Inspiração pura pelos poros. 4º parágrafo especialmente muito bom.

    Grande abraço.

  2. Ultra Fabinho, valeu velhinho! Se as árveres somos nozes, o nada tb.

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