Breves considerações sobre a dualidade psicossomática

Os gregos antigos valorizaram tanto o corpo, quanto a alma. Havia entre eles um respeito profundo para com os atletas e soldados e também para com os filósofos e sábios. Os romanos herdaram este ideal, sacralizado na célebre frase, atribuída ao poeta do primeiro século da Era Cristã, Juvenallis (Juvenal): “mens sana in corpore sano”, que era, originalmente, uma sátira, pois, de acordo como o poeta, os romanos estavam mais preocupados em saciar os prazeres do corpo, do que em cuidar da alma.

Na Idade Média, o corpo passou a ocupar um lugar subalterno em relação à alma, em virtude do ascetismo religioso. A concepção do corpo passou a ser dual. Se nele habitasse uma alma virtuosa, o corpo era santo, a sede do Espírito. No entanto, se nele habitasse uma pessoa impura e pecaminosa, o corpo se transformava numa fonte de corrupção. Eram comuns (e ainda hoje são em alguns lugares) os rituais de autoflagelação, no intuito de purificar a alma através do sofrimento corpóreo.

Na modernidade, sobretudo a partir do Renascimento, surge uma nova visão de corpo. O corpo perde a sua sacralidade e ganha uma dimensão mundana (num bom sentido) e temporal. Um exemplo disto são os estudos que passam a ser realizados com cadáveres de seres humanos, o que a ascetismo medieval não permitia.

Ainda na modernidade, a filosofia kantiana estabeleceu a diferença entre “corpo” e “representação de corpo”. Não temos acesso, de acordo com I. Kant, às coisas em si mesmas. Temos acesso apenas ao fenômeno, ou ao objeto como ele aparece para nós. O que temos sobre o mundo em que vivemos, sobre as pessoas, sobre nós mesmos e sobre o nosso próprio corpo é uma representação, uma imagem. Estas representações podem ser razoáveis e adequadas à realidade que vivenciamos, o que chamaríamos de um quadro de normalidade. Quando estas representações se distanciam muito da realidade, apresenta-se um quadro de anormalidade que pode levar a sérios distúrbios, muitos dos quais se tornaram objeto de estudo das ciências da psique, como a psicologia, a psiquiatria e a psicanálise. O distanciamento entre o fenômeno e a representação explica porque uma pessoa pode ver, refletida no espelho, uma imagem do seu corpo que não corresponde aos fatos.

No mundo contemporâneo, o que se observa é a supremacia do corpo sobre a alma. Vivemos numa época em que os apelos do corpo determinam os pensamentos e as atitudes humanas. A psique está subjugada. Muitos se submetem a todo tipo abusos e de alterações do corpo (em muitos casos elas realmente se fazem necessárias) no intuito de se sentirem bem consigo mesmos e serem mais respeitados nos grupos em que vivem. Um exemplo grave deste problema é o número cada vez maior de jovens que morrem em consequência dos distúrbios da alimentação, como a bulimia e a anorexia nervosa, na tentativa de obter um corpo de acordo com os ditames da moda.

Para os profissionais que lidam com estes tipos de distúrbios seria interessante a leitura de autores como Kant e Schopenhauer.

2 Comentários

  1. Parabéns Pirineu, tudo de bom. Abraço

  2. Valeu Fred, obrigado!

    Paulo Irineu

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