Corruptos e udenistas

As reações dos chamados formadores de opinião – jornalistas, blogueiros e afins – a escândalos de corrupção, como o que recentemente envolveu o governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, obedecem a uma espécie de script. Uma espécie de psicodrama coletivo, de enredo previsível, começa quando William Bonner lê o teleprompter, com expressão constrita e voz grave, anunciando que mais um foi flagrado com dinheiro na cueca. Em seguida, os jornais e blogs são inundados por análises emocionais, que vociferam contra os políticos em geral, acusados de terem a corrupção nas entranhas, de não tomarem jeito. Possuídos de um moralismo raivoso, de uma fúria justiceira, gritam palavras de ordem (como Sérgio Malbergier na Folha On Line do último dia 3: “vote nulo!”) e clamam por renovação da classe política. Com sua indignação, querem dizer que não compactuam com “eles”, que “nós” somos honestos.

Esse discurso fala dos políticos como um grupo exterior à sociedade. São “eles”, diferentes dos cidadãos honestos (“nós”), vítimas da canalha. Mais de uma vez, foi chamado de udenista, em analogia à retórica da velha UDN. Na verdade, é um discurso bem mais antigo, pois os argumentos usados por republicanos exaltados, como Silva Jardim e Lopes Trovão, contra os gabinetes do Império, eram essencialmente os mesmos. A gritaria moralizadora continuou no início da República, com o salvacionismo dos jacobinos florianistas, e depois, com a Reação Republicana de Nilo Peçanha e os tenentes dos anos 1920.

Apesar disso, a corrupção teima em sobreviver, escândalo após escândalo, como uma maldição, entranhada nas instituições, imune aos apelos indignados, salvacionismos, punições, cassações, IPMs e CPIs. De nada adiantam os apelos para a renovação dos quadros políticos, pois cada Congresso, cada câmara de vereadores “renovada” é igual ou pior do que a anterior. O político neófito não se sai melhor que o político veterano.

Desconfio que o fracasso do moralismo seja revelador do fato de ele estar intrinsecamente ligado à corrupção. A relação entre corrupto e udenista é dialética, como diriam os marxistas: alimentam-se um do outro, são mutuamente necessários e, vez ou outra, trocam de lado. A corrupção endêmica não é, absolutamente, uma exclusividade do Brasil. Ela está presente em nações que, pobres ou ricas, compartilham raízes históricas patrimonialistas, tais como Japão, Coréia, Itália e México. Pela razão oposta, a corrupção é menos comum em sociedades com forte senso de coletividade, a exemplo dos países escandinavos.

Na verdade, os políticos somos nós. Os eleitos – ou seja, eleitos que nós elegemos – emergem de todos os grupos sociais. Não são feitos de uma matéria diferente da nossa própria, são advogados, professores, motoristas, metalúrgicos, comerciantes que, por acaso, nos representam. A corrupção “deles” deriva de nossa dificuldade de separar o público do privado, de reconhecer a legitimidade do que é público. A coisa pública só é “nossa” quando dela nos apropriamos, para o bem daqueles que estão no círculo de nossas relações pessoais. O vídeo que mostra políticos do DF agradecendo a Deus pela propina amealhada é bastante significativo: a corrupção é imoral quando é do outro, pois quando é “nossa”, pode ser uma benção. Não fomos capazes de desenvolver uma noção de Bem Comum e, por isso, o Estado é visto como algo exterior a “nós”. Às vezes, é tratado como uma cornucópia inesgotável, de onde sempre se pode tirar verbas, propinas, empregos fantasmas, aposentadorias milionárias, indenizações, subsídios. É uma mina de recursos, uma ilha de estabilidade para nós e nossos pares.

Ao tomar a corrupção como algo inerente ao outro (“os políticos”), o discurso udenista contribui para perpetuá-la. Ele gera uma atitude niilista (“eu não tenho nada a ver com isso, quero que isso exploda”) que reitera a corrupção e o patrimonialismo (“vou cuidar dos meus interesses pessoais, pois só tenho a perder pensando no coletivo”).

Qual seria a solução? Em primeiro lugar, admitir que a corrupção é um problema nosso, e não “deles”. Os políticos são o espelho da sociedade. É necessário, em segundo lugar, mudar a relação da sociedade com o Estado, ou seja, ela deve tê-lo como o espaço da gestão do Bem Comum, e não como uma entidade que paire acima dela. Isso depende de mudanças em valores e referências culturais, que são possíveis, mas sempre muito lentas.

Luís Bustamante

1 Comentário

  1. Saudações!

    O problema é nosso. E gostamos é dos problemas. Continuamos a eleger os mesmos, e com a máxima antiga de que somos muito bem representados. Acho, às vezes, que o papo de poluição e corrupção não cabe na nossa sociedade. Gostamos é disso! Nada foge do fenômeno causa e efeito. Se continuamos a praticar os atos geradores das consequências climáticas, não sei o que podemos criticar ou solicitar em COP-15, por exemplo. Se produzimos lixo (as pessoas se assustam com aqueles números de toneladas de lixo, mas não fazem nada para diminuir o próprio), comemos carne (queremos jogar na fogueira os pecuaristas e os plantadores de soja – alimento destinado aos diversos rebanhos – mas continuamos a fazer parte do mercado consumidor que os fomenta), fazemos figa para o Obama (que ganha o Nobel e manda mais milhares para guerra), passeamos nos bobódromos (leia-se Shopping Centers, produtores de lixo material, cultural…), compramos carros novos (se ligamos a televisão acaba achando que a solução do mundo é comprar um carro novo e ele pode ser até em 1.234 vezes), compramos, consumimos, roubamos, passamos à frente na fila, não devolvemos o troco a mais, o que podemos desejar deles, dos nosso representantes? Incongruência querer que fosse de outra maneira.

    ” Ideologia (mas também se pode ler ‘hipocrisia’, eu quero uma pra viver…” (também quero, pois estou ilhado com uns poucos menos hipócritas).

    Até.

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