Crowley, Raul Seixas e a explicação do Universo

A ideia de que há uma explicação para o Universo persegue os místicos, filósofos e cientistas desde os primórdios. Não é fácil precisar quando essa busca teve início, mas sabe-se que ela esteve presente em diversos momentos de nossa história e é o elo, atemporal, entre tradições milenares, como as culturas egípcia, suméria, hindu, dentre outras.

A característica mais marcante entre aqueles que professam a existência de um “Segredo do Universo”, e de uma explicação para o mesmo, reside na aceitação de que há uma realidade além desta que podemos perceber com os nossos sentidos. Dessa forma, os limites do conhecimento possível não representariam os limites da realidade, mas sim as restrições impostas pela nossa própria cognição, que não estaria apta, pelo menos da maneira como comumente é aplicada, para conhecer esse “segredo”, o que não impede que possamos propor questões que ainda permanecem. Entre tais questões, podemos citar as mais lembradas: “Qual é a origem do Universo?”, “Qual é a origem da vida?”, “Porque existe o Universo e não o vazio absoluto?”.

Buscando responder às questões acima citadas, a humanidade desenvolveu diversas formas de abordagem, que tanto podem ser míticas, religiosas ou místicas, quanto filosóficas e/ou científicas. No entanto, outros domínios da experiência humana não se furtaram à tarefa de apresentar respostas, como é o caso da arte. E aqui me refiro especificamente à música de Raul Seixas, que, em “O Segredo do Universo” escreveu:

Dentro do mambo e da consciência
Está o segredo do universo.

Você está no mundo, só tem uma opção

O caminho é longo, homem

Ser feliz ou não

Queimando a consciência e a sequência que ela traz

Momentos diferentes que confundem a tua paz.

E, em “Nuit”:

Jamais me revelarei! Jamais me revelarei!
Eu, eu ando de passo leve pra não acordar o dia
Sou da noite a companheira mais fiel qu’ela queria!
E quão longa é a noite. A noite eterna do tempo
Se comparado ao curto sonho da vida
Chega enfeitando de azul a grande amante dos homens
Guardando do sol, seu beijo incomum….. ah!
Seja bom ou o que não presta
Acendo as luzes para nossa festa, senhores:
Eu sou o mistério do sol! Eu sou o mistério do sol!

Para Raul, existe um “Segredo do Universo” que tanto pode estar na nossa consciência, quanto oculto na noite, na noite eterna do tempo, que nos enfeitiça e nos mantém entretidos com a aparência, enquanto a realidade “se esconde”.

Nas duas músicas, a fonte de inspiração do saudoso Raul é a mesma: o ocultismo de Aleister Crowley, mago inglês nascido em 1875 que acreditou ter descoberto e revelado e “Segredo do Universo”. Em o “O livro da Lei”, Crowley escreveu:

Esse livro explica o Universo. Os Elementos são Nuit – isto é, as

possibilidades totais de todos o tipos – e Hadit, qualquer ponto o qual teve

experiência dessas possibilidades.

E…

Cada um de nós tem assim um universo só dele, mas ele é o mesmo universo

para cada um, já que inclui todas as experiências possíveis. Isso implica na

extensão da consciência para que inclua todas as outras consciências.

Além disso, assim como a obra de Crowley, a música de Raul contém elementos messiânicos e escatológicos, como se toda a vida humana devesse ser a preparação para um fim (de final e de meta), tanto individual, quanto universal. Neste sentido, descobrir o “Segredo do Universo” equivaleria a descobrir o “Sentido da Vida”, que tanto poderia ser anárquico e contestador, quanto elevado e espiritual. Só não poderia ser hipócrita e superficial.

E, embora o “maluco beleza” tenha sido acusado de cometer muitas faltas, de hipocrisia não podemos acusá-lo, pois Raul viveu e morreu naquilo que cantou.

4 Comentários

  1. Está certo da utilização do termo “escatolóico” junto a messiânico? É isso mesmo que queria dizer?
    No mais, pareceu-me longe do que possa apresentar, pareceu-me um texto de obrigação. De pressa.
    Seu fá primeiro,

    Lobo.

  2. Olá Lobo, agradeço pelo comentário!
    Na verdade, os termos “messiânico” e “escatológico” fazem um “jogo” com a ambivalência do termo “fim”, que tanto pode se referir ao fim de um ciclo, daí “escatológico”, quanto a um propósito maior, daí “messiânico”.
    Realmente é um texto sem grandes pretensões, surgiu de conversas com alunos que fizeram algumas questões sobre o tema e sugeriram uma discussão. De qualquer forma, valeu pela “chamada”. Eu visto a carapuça!

  3. Parabéns pelo texto, foi meu professor de filosofia no 2° ano do ensino médio. Adoro muitas músicas do Raul Seixas, gosto bastante da Ouro de Tolo! Até mais, abraços!

  4. Olá Pedro,

    obrigado pelo comentário! Continue lendo e comentando, sua colaboração é muito importante!

    Abraços!

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