De tabaco e caminhões
O que todos precisam reconhecer é que a consciência coletiva não se prima por uma verdade absoluta
Como fumante inveterado que sou, ao contrário da maioria na mesma situação, apoio as medidas preventivas e punitivas que inibem o consumo de cigarro em público. Assumo, de maneira envergonhada, uma escravidão ao vício pelo qual fui seduzido ainda na adolescência. Por isso, acredito que essas posições restritivas podem colaborar para a diminuição no número de fumantes no Brasil. Há, no entanto, um agravante neste contexto: um clima de animosidade e intolerância se instala e, de modo equivocado e perigoso, as pessoas passam a odiar não o tabaco, mas o fumante.
Essa postura é o mesmo que segregar negros pela cor de sua pele, homossexuais por sua orientação sexual, evangélicos e/ou umbandistas por suas crenças religiosas. Discordar de um hábito ou posição que a pessoa tem na vida não exclui a existência dessa pessoa e, por mais que o intolerante deseje isso, o outro não desaparecerá.
Entendo o quanto incomoda os não tabagistas a fumaça circulando pelos ares. Sinto isso na pele quando frequentemente trafego atrás de caminhões que me despejam nuvens negras na cara.
Me considero um fumante educado, que não reclama das restrições ao fumo, evita jogar fumaça nos rostos das pessoas e limpa o cinzeiro sempre que o fedor das cinzas começa a apregoar o ambiente.
O que todos precisam reconhecer é que a consciência coletiva não se prima por uma verdade absoluta. Ela vem acompanhada por vários lados. Se os fumantes devem apelar para o bom senso e entender que não só agridem a si mesmos como prejudicam o meio ambiente e até comprometem a precária situação da saúde pública, os antitabagistas precisam compreender que a maioria dos viciados foi conquistada por uma indústria do consumo com técnicas primorosas para angariar novos adeptos. Não importa se o uso do tabaco hoje é considerado brega. Um dia foi vendida a ilusão de que este era um hábito sofisticado.
Por isso, ao contrário da maioria dos artigos que publico, empreguei neste a primeira pessoa. Para impor-me enquanto indivíduo. Indivíduo portador de um péssimo hábito, é verdade. Mas, acima desse e de todos os outros péssimos hábitos que porventura tenha, sou um cidadão com direitos adquiridos por essa cidadania e que se esforça por cumprir com os deveres que ela requer.
Carlos Guimarães Coelho - Jornalista e produtor cultural. É autor de duas obras: “Crônicas do Interior - Retratos de Minas” e “Nau à Deriva - A História do Teatro em Uberlândia (1908-2012)”, esta última ainda no prelo.
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