Demofobia Explícita
No dia 29 de dezembro, Fernando Barros e Silva, editor do caderno Brasil da Folha de São Paulo, reconheceu, em artigo publicado em seu jornal, que a ascensão de um quinto da população brasileira, antes excluída, à condição de consumidores, foi o grande fato novo dos últimos anos. Reclamou, no entanto, desses ex-pobres que, agora, lotam cruzeiros pela costa brasileira com suas cestas de piqueniques e shows de drag queens. No dia primeiro último, em entrevista dada à mesma Folha, Fábio Mariano, professor da ESPM e dono da consultoria de comportamento do consumidor InSearch, afirmou que a inclusão de mais de 20 milhões de pessoas na classe C, nos últimos seis anos, vai gerar um problema ambiental no Brasil porque “é gente descobrindo como é bom consumir, mas que não se preocupa muito com o planeta”. A classe alta, por outro lado, “até paga um pouco mais por produtos que favoreçam a sustentabilidade”. No mesmo dia, o Jornal da Band exibiu imagens de garis desejando bom Ano Novo. Acreditando que os microfones já estavam desligados, o âncora Boris Casoy comentou: “Que merda: dois lixeiros desejando felicidades do alto da suas vassouras. O mais baixo na escala do trabalho”. Também no mesmo dia, num rompante de franqueza, o blogueiro direitista Reinaldo Azevedo deixou escapar: “nosso repúdio ao que pensam [Lula e o PT] derivam menos de suas idéias sobre política e economia do que de sua imensa vulgaridade”.
Exemplos se multiplicam, mas estes bastam para flagrar o que a elite conservadora brasileira tenta escamotear, negar, mas que, freudianamente, acaba por revelar num chiste, num comentário pretensamente técnico, num momento de ira ou num ato falho: sua profunda, atávica, carnal aversão ao povo.
Trata-se de um conservadorismo muito diferente do norte-americano, por exemplo. Neste, especialmente no chamado Cinturão da Bíblia, a oposição aos liberais (que é como lá chamam a esquerda) alimenta-se de uma utopia secreta, a do retorno do ideal de uma América branca, puritana e comunitária, como a do tempo dos pioneiros. Por isso desconfiam do Estado e cultuam a violência auto-defensiva, rejeitam as minorias raciais, o darwinismo e o casamento gay.
Nossos conservadores, por seu turno, não se preocupam em discriminar gays ou condenar evolucionistas, pois seu cimento ideológico não é a religião, nem o culto a valores ancestrais. Sua identidade se faz pela distinção social, obtida pela segregação dos de baixo e pela ostentação de símbolos de exclusividade. Seu pensamento é como um marxismo às avessas, pois acreditam na luta de classes. Não só acham que os pobres pretendem avançar sobre seus privilégios, como também se sentem incomodados pelos pobres que deixaram de sê-los. Cenas de miseráveis soterrados em seus barracos durante tempestades de verão provocam-lhes piedade ou indiferença. Cenas de ex-pobres comprando eletrônicos a crédito despertam-lhes rancorosa indignação.
Luís Bustamante

























Belo texto. Fez-me abrir um pouco mais os olhos para esse tipo de manifestação que eu já reconhecia, porém de forma intuitiva. Prestarei mais atenção às atitudes demofóbicas e refletirei sobre elas. Afinal me parece algo bastante complexo.
Mais um lúcido e coerente texto.
Creio eu, que esse sentimento de asco, das classes mais abastadas, pelas ascendentes tem raízes profundas.
Nossa herança Ibérica escravista, ao meu ver, ainda traz reflexos em nossas relações sociais. O Brasil teve um longo período escravista, onde o trabalho braçal era visto como algo depreciativo e humilhante, relegado aos negros.
Nos países anglo saxãoes, o trabalho, mesmo o braçal, é visto de maneira positiva. Perdoe-me as simplificações, mas nota-se que em muitos países anglo saxões, não é tão comum a utilização de empregadas domésticas, pois mesmo as pessoas abastadas não veêm problemas em exercerem tais funções.
Voltando ao Brasil, nota-se que mesmo após a abolição da escravatura, as relações sociais pouco mudaram. Como o país era eminentimente agrário, os grandes proprietários de terra mantiveram os seus privilégios perante aos trabalhadores braçais.
Tenho a impressão que as relações trabalhistas ainda estão impregnados desse ranço escravocata, onde o patrão está em uma posição em que pode subjugar o empregado como não se sujeitando à lei e a moral. Como se já concedesse um favor de dar emprego a alguém.
Dessa forma, vejo que as classes economicamente dominantes, ainda cultivam essa ojeriza aos economicamente hipossufientes, encontrando-se em situações desconfortáveis quando os mesmos ascendem economico e socialmente. Temem assim que estes, outrora, passivos e subservenientes, não aceitem mais os mandos e desmandos.
Feliz 2010 e continue brindando os leitores e ex-alunos (meu caso) com textos pertinentes e elucidativos da realidade nacional.
Como diria Boris Casoy, “isto é uma vergonha!”.
Não só na via de jornalismo político, mas a demofobia e a aversão ao “pobre convencido” é difundida em novelas, programas de humor (que de humor não têm nada) e vários outros veículos de comunicação em massa. Torna-se piada, o que é mais deplorável, o fato da ascenção social. Concordar que é importante a reforma agrária, a distribuição mais justa de renda e a diminuição da pobreza é muito simples. Mas, ver o pobre que antes só assistia filmes na Globo – ou nem nela – lotando os cinemas e comprando a mesma pipoca e o mesmo refrigerante que, antes, só a classe média bem formada e lúcida comprava, é no mínimo vergonhoso. É o tal do pobre que não deveria ter deixado de ser pobre para não passar vergonha. A questão da diminuição da pobreza é muito mais do que econômica. É cultural. E não há vestígios de que o Brasil – leia-se parte considerável do Brasil – queira de verdade que isso aconteça.
Ótimo texto, Bustamante! Como sempre.
Abração!