Derrota Anunciada
A vitória de Dilma Roussef já no primeiro turno das eleições presidenciais é fava contada. Ao constatar a disparada da candidata nas pesquisas do instituto Datafolha, divulgadas hoje , o jornal Folha de São Paulo tratou de desembarcar do apoio velado que emprestava a José Serra. No editorial “Avesso do Avesso”, publicado na edição de hoje, a Folha tripudia sobre o desastre e tenta jogar no colo de Serra o fracasso de sua candidatura. A Rede Globo, o Estadão e a Veja permanecem (ainda) aliados fiéis, mas a cristianização de uma candidatura que até o presidente do PSDB, Sérgio Guerra, prefere esconder, parece inevitável. As atitudes da Folha e de Guerra nivelam-se à do folclórico deputado Roberto Jefferson que, em seu Twitter, afirmou que nunca conhecera bem e, aliás, nada tinha em comum com o seu até então aliado José Serra. Tais amigos de primeira ocasião, repetindo o comportamento dos murídeos, pulam n´água enquanto o barco afunda, e transmutam-se de uma hora para outra em críticos ácidos e trêfegos.
Não acredito que provável derrota de Serra deva ser creditada a seus erros. Alias, sequer acho que os seus erros sejam esses que a imprensa aponta. A fritura de Aécio, a demora na escolha do vice, a irascibilidade do candidato, o atual discurso errático, tudo isso é irrelevante frente ao efeito avassalador de um presidente da República, que goza de oitenta por cento de aprovação popular, envolvido de corpo e alma na campanha de sua candidata. Qual é a chance de um governo que, em sete anos, puxou 40% da população para cima da linha da pobreza e manteve o país crescendo a taxas asiáticas na pior crise mundial desde 1929, eleger seu sucessor? Muito grande, sem dúvida. O editorial desleal da Folha, ao tentar imputar toda a responsabilidade da derrota a Serra, obstina-se em não reconhecer o mérito de Lula.
A Folha, ao lado da Rede Globo, do Estado de São Paulo e da Editora Abril, que publica a revista Veja, formavam os pilares midiáticos da candidatura Serra. Esses órgãos, tendo a tropa de choque dos blogueiros e colunistas de direita como batedores, deram o tom ideológico da campanha. Por essa razão, o Serra da mídia pareceu muito mais elitista e conservador do que o Serra real, na verdade um economista keynesiano crítico do ultra-liberalismo, simpático à social-democracia e que apoiou o centrista Eduardo Frei contra o direitista Sebastián Piñera nas últimas eleições chilenas.
O problema é que a mídia pautou o discurso de Serra, e a imagem que acabou sendo vendida – e que o próprio candidato reforçou nos episódios das críticas a Evo Moralez, da “república sindicalista” e das FARC – foi a de um direitista demofóbico e raivoso, bem ao gosto da classe média que consome a revista Veja e similares. Esse Serra fake, se, por um lado, agradou a essa gente que votaria nele de qualquer jeito, por outro acabou por criar o estigma de “candidato dos ricos”. Para a população trabalhadora, a mesma cuja renda cresceu 10% ao ano de 2005 para cá, pouco importam as FARC, Moralez, Ahmadinejad ou as opiniões do Índio. Importa é que Serra está ao lado dos que chamam o Bolsa Família de “bolsa esmola”.
A derrota do dia 3 de outubro produzirá um saudável choque na oposição, nos órgãos de imprensa e na classe média conservadora. Num dos mais brilhantes artigos que já li na blogosfera, o cientista político Celso de Barros escreveu: “é importante compreender que os novos atores que compõem o PT vieram para ficar, pois são sócios-fundadores de nossa democracia, e que, de agora em diante, o Brasil é um país com uma esquerda que sabe ser governo. Isso quer dizer que agora a direita, para vencer eleições, precisa apresentar boas candidaturas (…) e, o mais crucial de tudo, apresentar propostas para os mais pobres, que acabam de descobrir que podem melhorar imensamente suas vidas com o voto. A direita brasileira ainda não fez esse trabalho: continua pensando como se fosse um direito natural seu governar o país, e esperando que algum movimento legitimista re-estabeleça a ordem nesta budega” (leia em www.napraticaateoriaeoutra.org).
Nesse momento em que tudo parece dar errado para a oposição, eu, se fosse o Serra, não me importaria mais em ganhar ou perder. Na política, isso tem peso menor do que parece. Faria como o senador Eduardo Suplicy que, em 1986, interrompeu a campanha para governador de São Paulo para “encontrar seu eixo”. O eixo de Serra, e da parte lúcida do PSDB, deveria ser o de um programa liberal que avançasse na modernização do Estado, mas que conservasse as conquistas sociais e econômicas do governo Lula. O republicano Eisenhower não dinamitou as garantias sociais criadas pelos governos democratas desde Roosevelt, mas progrediu a partir delas. O conservador Churchill não destruiu o Welfare State construído pelo trabalhista Clement Attle, mas o fortaleceu.
Se eu fosse o Serra, iria mandar a mídia dos Civita, dos Frias, dos Mesquita e dos Marinho procurar um Pinochet e me deixar em paz. Recusaria o apoio de Reinaldo Azevedo, Demétrio Magnoli, Diego Mainardi, Arnaldo Jabor e outros pitbulls direitosos. Diria para a velha classe média preconceituosa que o tempo do exclusivismo social acabou, e que chegou o momento de aceitar os pobres nos shopping centers, nas universidades e nos vôos domésticos. Certamente, eu perderia esta eleição, mas teria plano e conteúdo para construir uma oposição consistente nos próximos anos.
Por Luís Bustamante
Luis Bustamante - Médico pediatra do Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia, doutor em geografia pela USP, professor de história do Colégio Nacional e autor dos livros "A Oeste das Minas" e "Triângulo Mineiro, do Império à República".



























Caro Luís,
esclareço que a palavra “sequer” [primeira linha do segundo parágrafo] não tem valor de negação; logo, quando usada sem advérbio de negação, tem valor afirmativo.
Fora isso, mandou ver.
Gosto de ler os extremistas de todos os lados dessa política bem terceiro-mundista do Brasil. De um lado, estão os engravatados doutores demofóbicos, os que foram chamados pitbulls da direita; do outro lado, estão os mercenários do governo, a trupe comprada para se opor a eles e espalhar uma poeira onde não seja mais possível ver o que é verdade, o que é mentira, o que tem sentido ou não. A batalha dos extremismos apenas mantem a cultura popular tal como está. Se ela é, em momentos, tendenciosa a ignorância, assim irá continuar. Se não é, pode seguir seu curso sem que esses “profissionais” possam mais que dar munição a seus seguidores. A regra, em nosso tempo, é nivelar por baixo a discussão política. Cada um inventa os rótulos com relação ao outro lado (ignorantes, boçais ou petralhas, PIG ou pitbulls da direita) e, no final, ninguém sério tem saco para ler tudo o que escrevem.
Enfim, não são do tipo de gente que fazem falta depois de mais de uma semana sem lê-los. Mas certamente são inevitáveis, pois toda informação difundida na Imprensa carrega seus pensamentos dos fatos…
É ler Reinaldo Azevedo, Diogo Mainardi, Augusto Nunes, Paulo Henrique Amorim, Luis Nassif ou até Luis Bustamante sempre com ressalvas!