Diante do muro

muro
Por Alessandra Leles Rocha

Mais do que se possa imaginar, não foram somente as bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki que tiveram desdobramentos sobre a sociedade moderna; mas, a própria Segunda Guerra Mundial é que se desdobrou ao longo desses sessenta e quatro anos. Marcas profundas, rupturas, divisões e constantes movimentos de intolerância; dentre eles, o Muro de Berlim, que agora completa vinte anos da sua queda.

A barreira física, construída pela República Democrática Alemã (Alemanha Oriental) durante a Guerra Fria, que circundava toda a Berlim Ocidental, separando-a da Alemanha Oriental, durou mais de um quarto de século e simbolizou uma das mais enfáticas manifestações do mundo dividido pelo pós-guerra. Sonhos, vidas, amores e famílias viram-se separados e impedidos de acontecer, porque os interesses pela hegemonia mundial falavam mais alto.

O terror da grande guerra não fora suficientemente arrasador para que os valores da sociedade passassem por uma profunda reavaliação. A reconstrução adveio da ruptura, da busca desenfreada e imperialista de duas lideranças, intituladas super potências socialista e capitalista. E a Terra não seria o limite para elas! Seus olhos altivos buscavam o espaço, o universo! O muro neste momento era somente um símbolo, um monumento, tijolos sobrepostos que feriam seres humanos da base de uma pirâmide; mas, cujo ápice não se importava em não enxergar.

Os anos se passaram e inúmeros conflitos e transformações conduziram inevitavelmente para que aqueles tijolos fossem ao chão e de alguma forma os cidadãos que estevam separados pudessem se unir novamente, resgatar o irrecuperável atenuando com a força do amor, da saudade, da fraternidade os açoites do tempo.

Mas esta é a história de um muro materialmente formalizado na história da humanidade; contudo, no contexto dessa hecatombe denominada Segunda Guerra Mundial o mundo viu nascer e se consolidar diversos outros muros sociais. Muros muito mais vergonhosos e letais do que aquele em Berlim. A intolerância religiosa, a indigência estampada em miséria profunda na face de diversos países subdesenvolvidos, a corrupção que acentua a divisão da pirâmide social numa maioria desamparada e desfavorecida, a segregação feminina que coloca as mulheres em posição de inferioridade e submissão aos interesses dos homens, enfim…muros sem tijolos, sem concreto, sem princípio, meio ou fim.

Já houve tempos em que os muros eram para proteger, preservar a soberania de uma sociedade; entretanto, nenhum desses muros eximiu as guerras, a covardia, a ganância, a barbárie que queima no sangue do próprio homem. Muros não nos protegem de nós mesmos! Muros não são demonstração de força ou poder! Eles são na verdade a concretização de nossa própria limitação; nos escondemos atrás deles para não admitirmos nossa própria pequenez.

Por isso, tão pertos das catástrofes naturais, da redução acelerada das áreas habitáveis e produtíveis do planeta, aproxima-se o momento da conscientização de que somos uma sociedade prestes a se tornar refugiada do clima. Nesta situação não nos restará mais do que a dignidade humilde de aceitar viver sob as condições que se apresentarem viáveis. Muros, ideologias, economias, políticas condenadas ao fim pela necessidade vital de um abrigo e um pedaço de pão.Na guerra contra a Natureza ou nos rendemos ao que ela nos oferecer, ou seremos banidos sem perdão; muros não nos protegerão!

Alessandra Leles Rocha - Natural de Uberlândia, Minas Gerais, onde se graduou Bacharel em Ciências Biológicas (2000) e Mestre em Geografia / Área de Concentração: Análise, Planejamento e Gestão Sócio-Ambiental (2003), pela Universidade Federal (UFU).

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