Douto Mestre das Letras
É sob um misto de emoção e respeito que tomo a liberdade de escrever algumas palavras àquele que fez desta arte um símbolo para o nosso país. Joaquim Maria Machado de Assis1 deixou essa vida há cem anos, mas como é próprio dos grandes gênios tornou-se imortal.
Despojado de muitos recursos financeiros e mulato de descendência, Machado de Assis superou e suportou centenas de entraves e preconceitos com a força de sua alma autodidata por meio de uma ferramenta, um tanto quanto esquecida nos dias de hoje, a inteligência. Hábil como ninguém com as palavras, foi o grande mestre da retórica; não aquela vulgar e inconsistente, mas aquela que sabe o que dizer e qual objetivo alcançar. Às vezes irônico, uma ironia ácida e requintada brotada tão somente das mentes brilhantes. Foi assim que se tornou douto mestre da arte de escrever e fez correr pelo mundo a doçura de seus frutos.
Escritores como Machado de Assis são atemporais, o tempo só os faz eternizar para que cada palavra vertida do tinteiro reafirme sua importância e seus ensinamentos. Grande cronista! Sucesso absoluto dos jornais cariocas de sua época é o espelho perfeito para os que se atrevem na empreitada. Contista excelso! Romancista absoluto! É como se as idéias saltassem-lhe da própria alma e pulsassem sobre o papel como entidades vivas e cheias de personalidade. Capitu2, Bentinho3, Brás Cubas4 e tantos outros personagens latejam em nossa memória como se de fato os tivéssemos conhecido e desfrutado de seu convívio.
É! Assim foi Machado de Assis, um pequeno grande gigante do solo brasileiro. De poucas palavras nos lábios, talvez por força das circunstâncias existenciais; mas, de muitas na catarse que realizava ao escrever. Transcendeu, transgrediu, transcreveu nas estórias as histórias de sua geração. Por isso hoje, ao completar cem anos de seu óbito, deveríamos todos, brasileiras e brasileiros, render-lhe de joelhos nossas homenagens e gratidão, pela preciosíssima colaboração em retirar de nossos olhos a venda terrível da ignorância e da alienação; por ensinar-nos a enxergar dentro de nós mesmos o brilho de nossa própria capacidade. Bem mais do que o patrono da cadeira vinte e três da Academia Brasileira de Letras5, no Rio de Janeiro, Machado de Assis é o pai de todos aqueles que não se entregam ao conformismo nem à covardia de fazer valer sua evolução intelectual.
1Joaquim Maria Machado de Assis (21/06/1839 – 29/09/1908). Romancista, contista, poeta, dramaturgo, cronista e crítico literário. Foi o 1º presidente da Academia Brasileira de Letras – ABL.
2 Personagem feminina do romance DOM CASMURRO, publicado em 1899.
3 Casado com Capitu e narrador do romance DOM CASMURRO.
4 Personagem principal do romance MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS, publicado em 1881.
5 Foi um dos fundadores da ABL e seu primeiro presidente. Por isso, ela também é chamada de Casa de Machado de Assis.
Alessandra Leles Rocha - Natural de Uberlândia, Minas Gerais, onde se graduou Bacharel em Ciências Biológicas (2000) e Mestre em Geografia / Área de Concentração: Análise, Planejamento e Gestão Sócio-Ambiental (2003), pela Universidade Federal (UFU).


























