Fanáticos

Por Luís Bustamante

O seriado “True Blood”, exibido pela HBO, conta a história de vampiros que passaram a conviver com pessoas comuns graças a um alimento sintético (true blood, que dá nome ao seriado), que os dispensou da necessidade de sugar sangue humano. “True Blood” é uma obra prima da dramaturgia televisiva que traça um painel completo da cultura política e dos dilemas morais da sociedade norte-americana de hoje. Ali estão, metaforizados na luta entre humanos e vampiros, os conflitos raciais, o uso de drogas, as tensões entre puritanismo e liberdade sexual, entre homossexualidade e homofobia e, sobretudo, o profundo abismo que separa a América Liberal da América Profunda. Na sensacional vinheta de abertura, acompanhada pela bela voz country de Jace Everett, alternam-se vertiginosamente cenas de strippers, orgias, uso de drogas, fiéis em êxtase religioso e cerimônias da Ku Klux Klan.

Não por acaso, a trama se desenrola na pequena cidade de Bon Temps, na Louisiana. A Louisiana é parte do que se costuma chamar de Cinturão da Bíblia, isto é, o interior formado pelas pequenas e médias cidades norte-americanas, cuja gente é conhecida pela devoção religiosa e pelo extremo conservadorismo moral e político. È a América Profunda dos rednecks, dos caipiras que usam bonés, camisas de flanela e espingardas de caçar veados, das camionetes com adesivos da bandeira confederada, das igrejas com pastores raivosos e garotas vestidas de branco com fita no cabelo, dos tele-evangelistas e suas audiências fervorosas, da música country. Trata-se de um país muito diferente da América Liberal, que vive nas grandes cidades das costas oceânicas e do oeste, tendo à frente as cosmopolitas Nova York, Los Angeles, São Francisco, Seattle, Phoenix e Chicago, cidades multiétnicas, tolerantes, onde estão as grandes universidades e centros de pesquisa, e onde são tomadas as decisões que movem o mundo.

Durante os anos Bush, estas duas Américas entraram em conflito. Com a derrota dos republicanos e a vitória dos democratas em 2008, a América Profunda fez do presidente Barack Obama seu inimigo número um. Logo após as eleições, a direita do Partido Republicano, formada essencialmente por militantes do Cinturão da Bíblia, criou o movimento Tea Party, hoje a mais forte organização política conservadora dos Estados Unidos. Medidas tomadas por Obama, como a criação do sistema público de saúde, a regulação do sistema financeiro e o aumento de impostos sobre famílias ricas, são, segundo o Tea Party, provas de que o presidente é um esquerdista que quer levar o país para o comunismo. Esses radicais, recentemente, espalharam outdoors agressivos pelo país, nos quais Obama aparece retratado no estilo do realismo socialista, ao lado da foice e martelo e sobre um fundo vermelho. Também fizeram circular pela internet uma lista de presidentes latino-americanos esquerdistas – Chavez, Cristina Kirchner, Rafael Correa, Evo Moralez, Lula –, supostos aliados de Obama num complô para implantar o comunismo no continente.

Os militantes do Tea Party são fundamentalistas cristãos. Acreditam que a AIDS, a liberdade sexual e o casamento gay fazem parte da estratégia do demônio para dominar a América. Rejeitam a ciência quando ela contraria os ensinamentos da Bíblia, como acreditam ser o caso do darwinismo. Não separam o discurso religioso do político, embora não queiram transformar os Estados Unidos numa teocracia. Ao contrario, crêem que o Estado deve se meter o mínimo possível na vida das pessoas. A miragem utópica dos rednecks é a de uma América organizada em comunidades individualistas, mas juridicamente igualitárias e motivadas pela religião.

Os fundamentalistas do Tea Party têm formas de pensamento e ação comuns aos demais sectarismos, sejam eles muçulmanos, comunistas ou fascistas. Existem quatro elementos centrais sobre os quais os grupos sectários organizam suas vidas: Fé, Paranóia, Utopia e Cruzada. A Fé é a crença fundamental, são os dogmas que articulam pensamentos e ações. A Fé dos fanáticos não é racional, não se constrói a partir da análise da realidade, e tampouco é afetada pelos fatos que a contrariam. A aceitação dos dogmas precede a racionalização, que é feita a posteriori. Pelo caminho inverso, todo argumento contrário é negado a priori. Não adianta, por exemplo, tentar demonstrar para um neonazista que o holocausto existiu, exibindo fotos, filmes, documentos escritos, depoimentos de vítimas. Ele simplesmente negará tudo, alegando que se trata de farsa, montagem etc.

Os dogmas que sustentam a Fé estão, frequentemente, compilados em escrituras, que lhes dão uma materialidade pétrea, imutável e inquestionável. É o caso não só da Bíblia para os fundamentalistas cristãos, mas também do Alcorão para os muçulmanos, do Manifesto Comunista para os comunistas, ou do Mein Kampf para os nazistas. Elas simplificam o caminho para resistir às tentações da razão: rejeito isso porque creio, e creio porque está escrito.

Para que a Fé militante exista, é sempre necessário um Inimigo com características próximas da onisciência, onipotência e onipresença. Um Inimigo – o demônio, o comunismo, os judeus, a burguesia – que esteja à frente de uma grande conspiração para derrotar a Fé, com tentáculos espalhados por todos os lugares e épocas, capaz dos mais pérfidos ardis para ludibriar os crentes. Para o fanático, a realidade é uma paranóia organizada em rede, o teatro da luta permanente entre a Fé e o Inimigo. Essa concepção facilita tanto a racionalização das crenças e ações, quanto a rejeição de quaisquer argumentos contrários a elas. Para os marxistas radicais, por exemplo, toda crítica ao autoritarismo dos partidos leninistas é interpretada como “burguesa”, a serviço dos interesses do “grande capital”.

Os fanáticos crêem ter decifrado as engrenagens da realidade. No mundo deles tudo se encaixa e nada é por acaso: toda vicissitude é obra do Inimigo, toda sorte é prenúncio da vitória final da Fé. Para fundamentalistas cristãos americanos, por exemplo, está em curso uma ofensiva do Demônio contra a América e seus valores, cujos estratagemas são o socialismo e a devassidão sexual, tendo como agentes os gays, Obama e Lady Gaga, entre outros. Já para os nazistas, a conspiração mundial é obra dos judeus, cujo objetivo é destruir a raça ariana.

A busca de uma Utopia, de um futuro idealizado de plena felicidade e sem males, é outro elemento central no imaginário dos grupos sectários. É a razão pela qual, em sua consciência, travam suas lutas. Para eles, a Utopia advirá como conseqüência da batalha final entre a Fé e o Inimigo. Nesse sentido devem ser entendidas não só as interpretações literais do Apocalipse, feitas por algumas seitas cristãs que prevêem o breve retorno de Jesus, mas também a crença dos fundamentalistas xiitas no retorno do Imã Oculto, prenúncio do fim do mundo e da salvação dos fiéis; a crença no comunismo dos militantes marxistas – um mundo novo, sem Estados, fronteiras, classes ou qualquer forma de opressão ou violência, que adviria com a revolução proletária e a derrota final do capitalismo –; ou a crença no Reich de Mil Anos, a utopia nazista de uma grande Alemanha ariana, quintessência da evolução da humanidade, que dominaria a Europa e eliminaria as raças inferiores.

O espírito de Cruzada decorre da Fé, da compreensão paranóica do mundo e da busca da Utopia.  Significa a permanente disposição para a luta, presente em todos os grupos sectários. Para os fanáticos, a Fé é o que há de mais importante em suas vidas, estando acima do próprio bem estar e de seus familiares. A Cruzada – a luta permanente contra o Inimigo, em busca da realização da Utopia – envolve o fiel em tempo integral, e drena a maior parte de sua energia. Daí o desprezo pela própria vida que se vê, por exemplo, entre os terroristas muçulmanos suicidas de hoje, e os militantes comunistas no passado. Isso também explica o forte sentido de disciplina e o autoritarismo dos grupos fundamentalistas, pois a Cruzada exige que suas hostes se organizem como um exército. Toda desobediência é taxada como apostasia, qualquer hesitação é suficiente para expulsar o militante como herege.

Embora geralmente minoritários, grupos ou partidos fundamentalistas podem, especialmente em conjunturas de crise, empolgar um grande número de pessoas e chegar ao poder de Estado – a exemplo do nazismo, do stalinismo ou dos Talebans do Afeganistão –, com conseqüências desastrosas. Esta é uma ameaça que, hoje, paira sobre os Estados Unidos.

Luis Bustamante - Médico pediatra do Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia, doutor em geografia pela USP, professor de história do Colégio Nacional e autor dos livros "A Oeste das Minas" e "Triângulo Mineiro, do Império à República".

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1 Comentário

  1. Como sempre exato, argumentativo e inteligente.
    Parabéns!

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