Feliz Desespero

Eu do avesso. Quebrado, demorado. Meu Deus partiu com a fogueira, não deu aviso nem adeus. Fiquei grato e lembrado. Só me perguntava: por que não sou feliz? Rezava de joelho. Não era a fé que me salvava, era hábito.

Quando dormia, travesseiro no chão. Minha armadura de menta, bom hálito, péssima proteção. A vida inteira pra aprender o oculto do mundo e me preocupando em acertar as perguntas dos shows de milhão. Estudando pra concursos. Sem pistas, minha pinta preta do lado da boca mais clara, mais velha.

Eu com todas as respostas dos shows de calouros e ainda a procurar por mim. Por que não sou feliz? Ah, a felicidade, essa ingrata que sempre está onde não estamos…

Eu achava que a resposta era o ovo. Poesia na sua superfície antes da gema. Eu rezava para o ovo. Eu gostava do ovo. E no fundo meu ovo, meu pinto, projeto de galinha, de canja, de almoço de domingo, barulhento.

Queria pegar nas mãos dos gênios e seguir. Mas esquecia que os gênios são tão infelizes como são quase-felizes os imbecis.

Eu quase, mas quase mesmo, fui ao templo e dancei com os pastores festivos. Quase entreguei minha resposta ao além que era sempre muito longe daqui. Eu no quase da felicidade no máximo de ilusão. Mas enquanto eles pulavam, eu via uma cenoura, o alimento do jumento. Eu com a fome da mula.

Agora sei por que não sou feliz. Porque até os que vão se enforcar querem sorrir. Hoje sei. Meu destino é bigorna. Cabeça de prego pra beijo de martelo.

Eu não rio do inevitável. Só sorrio pra morte, que me dá banho toda noite e me limpa a bunda dessa coisa suja que você chama de vida. Minha morte é mãe, que me trouxe e me tem. Espero a hora de vir me levar.

Tudo antes que seja tarde demais. Nada pra depois. Tudo pra agora. Felicidade? Rá! Quando eu partir, você irá me buscar. Será tarde pra você e nunca mais pra mim.

Por Renato Cabral

Renato Cabral - Renato Cabral é ruminante inveterado. oruminante@gmail.com

Compartilhe:




2 Comentários

  1. ‘Meu destino é bigorna. Cabeça de prego pra beijo de martelo.’

    esse texto tá bonita pra dedél, cavucou minha imprecações, minhas idiotices, num amálgama sensorial e textualmente bem definido.

    gostei bem, macumba!

  2. Zoppa zapeando por aqui. Me deixa contente seu sorriso comentário. É de gente que entende que a gente se entende. Macunaíno, macumbação… maculelê, machucado malandro, maldito, malvisto, mai de nós no mundo mais do mundo ninóis.

Gostou? Deixe um comentário:

Seu comentário só será publicado após aprovação do moderador.