Fome Ocular

A boca costurada pela fome fazia um par nada romântico com os olhos fundos e arroxeados que me fitavam, com um brilho opaco que me fazia engolir de uma só vez toda a saliva acumulada de manhã, às vésperas de sentar à mesa e tomar meu café. O cabelo preto, bem escuro e brilhante em alguns pontos, escorria como água pelos ombros abaixo e chegava até a cintura, onde em um regateio se avolumava, espalhado por toda a extensão das costas. O corpo era magro e cinza, assim como suas roupas e em alguns momentos de sua respiração cansada e profunda, apareciam alguns gomos sob a pele, em forma de costelas pontudas que pareciam querer rasgar o ventre da mulher. Não era bonita e antes de colar o seu rosto na vidraça da padaria, já me sentia incomodado.

Eu sentia o cheiro dos confeitos e não conseguia mais sentir o prazer, nem o gosto que sentia antes, quando só pelo olfato eu mastigava essas sensações. Meu café chegou rápido, uma fumegante xícara acompanhada de pão, bolo e um pedaço de torta. Quem me serviu não fez caso da estranha observadora do lado de fora. Em um ímpeto, quase me levantei e levei um pedaço de alguma coisa qualquer para ela. Mas estranha força me mantinha preso à cadeira, impossibilitado de qualquer movimento. Tentei não olhar para ela e comecei a mastigar lentamente o pedaço de bolo que já esfriava à minha frente. A primeira mordida me estranhou. O bolo tinha gosto de cimento, se é possível explicar isso, e esfarelou da minha boca como a cinza de um cigarro tragado até o filtro. O café, antes saboroso e fumegante, agora era uma pasta que lembrava o caldo de papéis antes de serem reciclados, um gosto que apertava a boca, em uma cor cinza clara. A manteiga no pão estava rançosa e esse, uma casca onde se via o bromato cristalizado por cima do sal, era mais uma escultura de mármore, brilhante e lustrosa. Incrédulo, olhei para minha observadora, que se mantinha na mesma posição que a vira segundos antes. Haveria alguma ligação entre aquela muda e o sumiço de minha comida?

Saí da padaria e ela me acompanhou, seguindo timidamente meus passos. Eu passava pelo mesmo lugar de todos os dias, mas pude perceber que o rapaz que vendia cachorros-quentes, na esquina perto do meu serviço, colocava agora uma salsicha que mais lembrava um vergalhão de aço, coberto de concreto, no meio de dois pedaços de pães que mais pareciam cimento coagulado.

Olhei espantado para tudo à minha volta e foi uma difícil constatação: o mundo se tornara cinza. Minha acompanhante agora caminhava ao meu lado e negaceava segurar minha mão ou não. Em desespero, corri embalado por uma urgência irreal pela rua abaixo. Agora, além dos prédios cinza e das calçadas, não só a cidade, como as pessoas, se tornavam cimento. Não enxergava mais aquela profusão de cores que me machucava os olhos logo de manhã, como os neons dos outdoors eletrônicos, os cartazes e luminosos da cidade grande. Corri e parei no cruzamento, onde os semáforos mostravam cores graduais de cinza e chumbo. Enxerguei além do horizonte dos prédios e árvores cinza e vi, lá longe, que o sol ardia, amarela bola de fogo nuclear, por sobre arranha-céus coloridos. À minha frente se desfraldava um pedaço da vida real que insistia em escapulir de meus dedos.

Olhei para trás, no começo da rua que descia até mim, a moça caminhava, com dificuldade, escorando seu corpo cansado e febril no muro chapiscado. Olhava-me fixamente.

Ao redor dela, tudo ficava mais cinza, quase grafite, como a película de um filme do Carlitos. Não pensei duas vezes, em louca carreira por cima de placas e carros, busquei o meu porto seguro que brilhava lá longe, me chamando. Ao meu lado, percebi outras pessoas como eu, que fugiam desesperadas para deixar o cinza pra trás e voltar a pensar que só as cores vivas funcionam e mantém as engrenagens da vida.

Por Stefano Robert
Ilustrador do Projeto Reticere

Projeto Reticere - Stefano Robert (publicitário) e Gleuber Militani (escritor), fazem parte do Projeto Reticere: Projeto Reticere.

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