Galileu de impulsos cerebrais
Em tempos de internet, que impregna velocidade ao mundo de grandes apelos visuais, o teatro da palavra, por mais sublime que seja, tem de vir permeado pela plasticidade
Ir ao teatro é sempre algo ritualístico, para quem o assiste e para quem o produz. Um amigo carioca disse em uma ocasião que o espetáculo teatral, entre a diversidade de produtos oferecidos no mercado, é o mais difícil de ser consumido. Ao contrário dos shows, filmes e outras ofertas culturais, o espectador de teatro antes de se decidir por uma peça deve ver o anúncio no jornal, as placas de outdoor nas ruas, o spot e o VT veiculados nas emissoras de rádio e TV, para somente então comprar o seu ingresso, se for um espetáculo que o interesse.
Nos grandes centros urbanos, uma tendência na qual Uberlândia começa a engatinhar, há grande diversidade na oferta de gêneros, dos experimentais ao mais tradicional, das comédias ao melodrama. Nestes, sobressai-se sempre o teatro que se preserva em sua pureza, que se mantém em sua qualidade e consistência artística, ato raro e difícil de ser constituído, por ser sempre e acima de tudo um trabalho de grupo, ainda que em um monólogo.
Há duas semanas, um ritual dessa natureza instalou-se na cidade. Um grupo de pesquisas teatrais da UFU uniu atores veteranos e iniciantes, acadêmicos e autodidatas, em uma perspectiva de ousadia na montagem de um clássico de Bertolt Brecht, “A vida de Galileu Galilei”, com enfoque na trajetória de um dos cientistas mais proeminentes da história do universo, cujos mistérios ele próprio ajudou a desvendar.
A iniciativa, por si, já é um mérito. Dignos de aplausos são todos os artistas que se pautam pela coragem e se lançam na profundidade dos signos teatrais para (re)transmitir uma mensagem já dita e redita por artistas cênicos de todo o mundo ao longo de décadas. Nisso também o teatro é superior, na capacidade de se renovar a cada montagem e a cada apresentação, na magia de fazer com que cada palavra tenha novas significações quando muda de lábios.
O resultado da montagem uberlandense de Brecht foi um teatro urdido pela palavra. As brechtianas ganharam o peso compatível com a autoria quando estavam em posse de atores como Umberto Tavares, Lilia Pitta e Narlo Rodrigues. E também ficaram destoadas quando o diálogo era transferido para outros atores, corretos em sua atuação, mas desprovidos da experiência e força cênica dos veteranos.
A proposta da diretora Yaska Antunes pecou também pela ausência de elementos contemporâneos que trouxessem mais leveza aos 180 minutos de duração da peça. Em tempos de internet, que impregna velocidade ao mundo de grandes apelos visuais, o teatro da palavra, por mais sublime que seja, tem de vir permeado pela plasticidade e recursos cênicos que acrescentem novo sentido à trama.
Por fim, a linearidade da montagem, sem grandes mudanças de cenários e figurinos, trouxe monotonia ao momento, transformando em enfadonho o que deveria ser um grande acontecimento artístico.
Carlos Guimarães Coelho - Jornalista e produtor cultural. É autor de duas obras: “Crônicas do Interior - Retratos de Minas” e “Nau à Deriva - A História do Teatro em Uberlândia (1908-2012)”, esta última ainda no prelo.
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