Ilhas e corações selvagens

Descubro que homens são ilhas. Nós que nademos naufragadas ou dispostas até eles. O movimento é nosso, a arte de botar os pés no desconhecido e a vontade de levar rabadas do mar, aquele azul meio acinzentado que fica antes das ondas baterem na areia. A ilha quieta, em silêncio, com seus próprios códigos de condicionamento, de existência, aquela força natural, quase que um sofrimento do universo para manter a ilha ali no lugar dela, parada. Nós, quando queremos entregamos nossos corpos para a noite, nós pedimos pra lua movimentar essa correnteza e nós chegamos até lá. Até eles. Pode até ser sem querer, mas estamos lá. A fim de descobrir tudo que vimos, primeiro de longe, depois embaraçadas em meio a cicatrizes de rios, prepotência de pedras que apertam e árvores que afrouxam. Pequenas folhas verdes que escapolem de dentro do coraçao da ilha querendo dizer que ali nasce, cresce, reproduz e morre. Simples o ciclo. E nós ali, naquele meio tão vital e para nós tão maldoso na maioria das vezes. Porque não é fácil entender as mudanças, por mais vento ou redemoinho que sejamos. Estar lá é ter o sonho paradisíaco e naturalista de pertencer a ela, para sempre. Um universo paralelo alucinógeno e luminescente, fazer crescer comida, comer do chão fértil, alimentar os filhos. Por mais que o façam, por mais que nos deixem ser deles, ou que permaneçam ali, vai sempre existir um distanciamento, como se não fossemos feitos da mesma matéria, ou da mesma natureza. Muitas correntezas me afastaram de ilhas obscuras, outras me deixaram cair de boca na areia densa e por causa da secura de água não consegui prosseguir. Tenho visitado uma ilha agora, aberta, de longe vejo lá dentro, eu descubro cada pedaço que brota toda vez que volto e, por sempre estar lá, já sou acolhida e já faço parte do universo dela, e ela de vez em quando faz o universo sofrer para que eu volte sempre. E eu volto, sempre, e um dia, bom um dia… quem sabe… quem sabe o que vamos encontrar para que possamos condensar matérias distintas em interseções de nós mesmos.Rafaella Biasi

Deixe um comentário

Seu comentário só será publicado após aprovação do moderador.