Inevitável
Por Alessandra Leles Rocha
Estou certa de que ninguém dúvida que o nascimento de um ser seja obra da vontade superior. Óvulo e espermatozoide unidos, ovo fecundado e milhões de chances para que interferências diversas não permitissem a concretização do processo; mas aconteceu. Morrer é diferente; trata-se da única certeza absoluta que dispomos na vida e a qual relutamos tanto em discutir.
Sim! Para muitos falar da derradeira despedida soa como entoá-la em chamamento, atrair para perto de si o inevitável; e ninguém que está sobre a Terra tem consigo pretensões conscientes de sair de cena de repente. De fato o assunto é dolorido, sofrido, angustiante, pesa sobre nossos ombros porque por mais de passagem nos sintamos nesse planeta, não estamos plenamente sós. Segundos, minutos, horas de muitas histórias, muitos encontros e desencontros, muitas presenças e ausências; enfim… infinitos laços de tamanhos, de sentimentos, de lembranças diferentes.
Por mais que desejemos a solidão em muitos momentos, não há ser humano verdadeiramente ermitão. Ser humano é antes de tudo ser sociável, mesmo que por um período da vida; mas, vivemos para tecer, construir elos entre os semelhantes, o mundo, a natureza. Dependemos dessa condição de comunhão, compartilhamento, para estabelecer as mais profundas experiências a partir das diferenças que permeiam nossas singularidades. Perceptíveis ou não, dia após dia, esses registros vão nos envolvendo, nos transformando, nos evoluindo. É claro que iremos nos regalar de felicidade nas empatias, nas amizades brotadas nos sorrisos repentinos, nos “acasos” das esquinas da vida; e também, nos irritaremos com as antipatias gratuitas, as incompatibilidades totais de ações e pensamentos, as quais desejaremos do mais profundo de nosso ser jamais termos nos deparado.
E assim vamos nos acostumando a viver e criar na alma, no coração e na mente, a irreal ideia de que tudo isso é para sempre e se um dia houver em acabar será por nossa vontade – lapsos da nossa infindável onipotência, não é mesmo? Entretanto, não é assim! A finitude nos vem de brinde, quando nosso ovo foi gestado. Não há para sempre! Não há como alcançar a eternidade!
Um dia, quando menos esperamos, a vela se apaga, dizemos adeus em silêncio, partimos em outra jornada, findamos o ciclo. Aos que vão, apesar de difícil esse momento, a sensação que me parecem transmitir não é ruim; parecem livres, leves, absolvidos de todas as eventuais tristezas, amarguras e dores que a vida lhes fizera carregar. Aos que ficam é que minha alma se compadece em pranto; não há palavras, não há consolo, não há compreensão que possamos ofertar-lhes capaz de minimizar o sofrimento, de envolvê-los no amor reconfortante, de dar-lhes paz e serenidade suficientes para não esmorecer. Sabemos todos que esse dia nos chegará por diversas vezes, serão muitos os que irão se despedir de nós até que chegue a nossa própria vez. Viveremos uma experiência que embora semelhante não nos ajuda em nada a torná-la mais suave e compreensível.
Já que é inevitável viver e um dia morrer, que sigamos o conselho sábio de Guimarães Rosa1, que disse “O mundo é mágico. As pessoas não morrem, ficam encantadas” 2, e façamos de cada um que partir o anjo encantado a suprir nossa alma de afago, de carinho, de consolo, de força interior; aquela companhia – agora eterna – invisível e ao mesmo tempo presente em todas as situações. E ele, ainda completa, “Deus nos dá pessoas e coisas, para aprendermos a alegria… Depois, retoma coisas e pessoas para ver se já somos capazes da alegria sozinhos… Essa… a alegria que ele quer” 3, de modo que não sintamos tristeza, não sejamos infelizes pela perda, mas sejamos alegres e humildes posto que tudo que desfrutamos aqui foi mero empréstimo divino e apesar disso valeu muito a pena.
1 http://www.releituras.com/guimarosa_bio.asp
2 http://www.pensador.info/autor/Joao_Guimaraes_Rosa/
3 http://www.pensador.info/autor/Joao_Guimaraes_Rosa/
Alessandra Leles Rocha - Natural de Uberlândia, Minas Gerais, onde se graduou Bacharel em Ciências Biológicas (2000) e Mestre em Geografia / Área de Concentração: Análise, Planejamento e Gestão Sócio-Ambiental (2003), pela Universidade Federal (UFU).


























