Sobre a Dialética Negativa

Desde o meu último post aqui (Reprodução e Experiência Estética) fiquei devendo uma explicação sobre o conceito de Dialética Negativa. Tentarei explicar a você o significado desta teoria que se tornou a marca registrada do pensamento adorniano. Para quem não o conhece, Adorno foi um dos grandes filósofos e expoentes do século XX. Suas análises sobre o capitalismo e a indústria de consumo cultural o fizerem um autor polêmico e emblemático. Meu objetivo é levantar questionamentos que auxiliem numa reflexão profunda sobre nossa cultura brasileira.

Em 1967, a editora Suhrkamp Verlag publicou a segunda edição alemã de Negative Dialektik. No século XXI, mais precisamente em 2009, somos surpreendidos com um belo presente dado ao povo de língua portuguesa, qual seja a publicação da primeira edição traduzida da Dialética Negativa pela editora Jorge Zahar. Esta obra marca o grande triunfo dos escritos adornianos. Seu texto complicado revela apenas o que hoje vivemos radicalmente, o fim do sujeito autônomo substituído pelo indivíduo consumidor de qualquer coisa (salvo as exceções).

Assim como outros estudiosos do pensamento adorniano, considero a obra Dialética Negativa uma continuidade dos trabalhos desenvolvidos em parceria com Max Horkheimer no livro Dialética do Esclarecimento. Nesta obra, os autores traçaram um panorama de nossa cultura ocidental e de como a razão esclarecida teve seu desfecho trágico tornando-se razão instrumental, aliada a técnica e aos interesses econômicos. Se você pode perceber, o termo “Dialética” é constantemente utilizado pelo autor, mas não foi ele o primeiro a utilizá-lo.

O termo “dialética” foi pela primeira vez empregado pelos gregos. Significava a arte do diálogo, um método de argüição que evidenciava todas as idéias de uma discussão, levando ao surgimento de outras idéias. Na modernidade, este termo ficou mais conhecido com os estudos de Georg Hegel, que entendia o mesmo como movimento do espírito, ou seja, da idéia no mundo.

Para Adorno, o resgate da dialética consiste em se evidenciar a crítica aos conceitos antigos e superados. Seu objetivo principal seria combater à “metafísica da identidade” que fora instrumentalizada pela lógica da dominação da natureza. Mas por que o termo “negativa”?

A Dialética Negativa deve prosseguir com a tarefa de anunciar uma nova reconfiguração da experiência filosófica contemporânea. Isso significa eliminar de vez o engessamento do objeto por meio do sistema e dar a ele um conceito positivo, mas ao mesmo tempo negado, não acorrentado ao velho. De uma maneira mais complexa, seria “preparar um conceito positivo de racionalidade capaz de orientar de forma não-coercitiva os fundamentos subjacentes ao regime de apreensão de objetos”.

A originalidade do pensamento adorniano está no emprego da negatividade. Por esta via dizemos o que realmente nossa mente é capaz. Pesar é, com efeito, identificar. Em última instância, afirmamos que identificar é sempre uma projeção do eu. Para Adorno, o sujeito autêntico deve ser dialeticamente o não-idêntico por excelência. É neste sentido que o projeto do filósofo alemão caminha. Voltar-se ao conceito, mergulhar em suas entranhas, mas em direção a não-identidade.

O exemplo que darei aqui é para compreenderem melhor a aplicação da dialética negativa. Em sua formação como músico, Adorno entende que o radical, o progresso na música, está em sua construção atonal. A música ocidental é marcada pela capacidade de ser sempre consonante, afinada, correta em sua escala musical. Mas hoje, a indústria cultural transformou a música em canção. O que vale é as construções fáceis, os acordes simples, os versos certos para serem cantarolados ao som da água caindo.

A música como obra de arte tem o compromisso social e uma ligação muito íntima com o engajamento. Neste sentido, sua evolução, seu progresso é negar a crueldade, a brutalidade da sociedade e de si mesma. Como ela fará isso. Negando-se como música. Negar-se a si mesma. Por isso, as músicas atonais são horríveis de serem escutadas, difíceis de serem executadas, poderíamos dizer: “não são música”, mas carregam em suas notas o protesto contra o nivelamento, contra o sempre-idêntico. Por isso, a Música Contemporânea, para Adorno, é Filosofia, e que hoje está perdida, entregue aos interesses comerciais.

O projeto da dialética negativa é ousado e caberiam críticas de inúmeros intelectuais, inclusive da parte dos artistas. Adorno já foi taxado de elitista. Claro que em minha opinião, o seu interesse maior era acabar com a degradação do conhecimento. A venda da cultura. Isso não era enxergado em uma sociedade deslumbrada com o poder da técnica e da reprodução em massa. E acredito na pertinência desta crítica e de como a dialética negativa contribui para isso.

Enfim, novos momentos surgirão para discutirmos detalhes interessantes sobre a música e a filosofia. Minha próxima tarefa será falar um pouco sobre os conceitos musicais em Adorno. Hoje, pode ser que alguns deles estejam superados, mas ainda cabe certa reflexão sobre o todo.

Wisley Aguiar - "Fiz minha graduação em Filosofia na Faculdade Católica de Uberlândia e meu Mestrado na Universidade Federal de Uberlândia. Além de atuar como pensador sou também amante do design, da arte e da internet."

Compartilhe:




Gostou? Deixe um comentário:

Seu comentário só será publicado após aprovação do moderador.